Consumidor toma menos crédito, mas sonha com a casa própria
Pesquisa mostra que a intenção de financiar um imóvel passou de 33% para 43%, de outubro para março. A maioria dos entrevistados disse que vai economizar e reduzir despesas

Em meio à crise econômica mais profunda da história do país, o brasileiro aprendeu a economizar e a usar o crédito com bastante moderação para atravessar esse período, que pode durar até 2018.
Mesmo com a confiança abalada, porém, ainda sonha com o imóvel próprio, já que este ainda é um financiamento que pretende contrair em 2016. A conclusão é de uma pesquisa trimestral realizada com mil consumidores pela Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento (Acrefi) e a empresa de pesquisa de mercado TNS Brasil.
Segundo o levantamento, 82% dos consumidores disseram que não pretendem tomar crédito em 2016, o mesmo patamar em relação à última pesquisa, realizada em outubro do ano passado. A maioria, ou 86% dos entrevistados, revelou que quer economizar mais dinheiro neste ano. Mas por outro lado, 43% disseram ter a intenção de financiar um imóvel, um incremento de 10 pontos percentuais em relação ao estudo anterior, de outubro de 2015.
Apesar do desejo de tomar crédito de longo prazo, os entrevistados estão menos dispostos a contratar crédito pessoal, com 24% das intenções ante a 32% em outubro. A propensão ao crédito consignado permaneceu estável em 33%. A intenção de tomar crédito para compra de automóvel caiu de 36% para 33%. Também caiu a parcela dos que planejam conseguir recursos por meio do CDC (Crédito Direto ao Consumo), de 32% para 24%.
INFLAÇÃO E ENDIVIDAMENTO
A inflação elevada e o endividamento das famílias, além da baixa perspectiva para a economia do país no futuro, explicam esse comportamento mais cauteloso com o crédito e o consumo.
O levantamento mostra que a inflação elevada está influenciando o padrão de consumo de 90% dos entrevistados, fazendo com que 86% reduzam os gastos com lazer, 83% com vestuário, 74% com alimentação, 50% com transporte, 43% com saúde e 37% com educação.
O nível de endividamento dos consumidores atingiu 69% e registrou um aumento de três pontos percentuais em relação ao trimestre anterior.
Quanto ao tipo de dívida, diminuiu a parcela dos que têm pendências com o cartão de crédito, de 73% para 70%. Também houve redução da parcela com débitos por meio de carnês (de 31% para 30%). No caso dos financiamentos de carro (de 21% para 19%) e de leasing (de 4% para 3%).
Em sentido contrário, subiu o total dos entrevistados com operações de crédito pessoal em andamento, de 14% para 15%. Aumentou também o percentual dos que citaram outros tipos de dívidas (de 17% para 19%).
Segundo a pesquisa, 68% dos entrevistados disseram que estão preocupados com o futuro do Brasil e 83% consideram a situação atual do país ruim ou péssima. A maioria, ou 24%, acredita que a situação econômica do país só vai melhorar mesmo em 2018.
Por isso, 68% acreditam que o consumo das famílias também irá piorar, 66% avaliam que a oferta de crédito vai piorar este ano e 75% dos ouvidos enxergam mais aumentos da taxa de juros.
A perspectiva do consumidor é de aumento do desemprego, ao menos para 84% dos entrevistados na pesquisa. A percepção já foi pior, de 86% na pesquisa anterior. Apenas 36% consideram que conseguirão manter o emprego, o mesmo patamar registrado em outubro.
CRISE POLÍTICA ATRAPALHA
Para Elizabeth Salmeirão, diretora de Desenvolvimento de Negócios da TNS, o resultado da pesquisa reflete um comportamento de incerteza provocada pela instabilidade política do país.
“Uma vez que há incerteza, as decisões são postergadas”, disse. Falta à população confiança na condução da política econômica e existe temor quanto à manutenção dos empregos.
Érico Ferreira, presidente da Acrefi, destacou que não existe previsibilidade no país. Isso, para Ferreira, é fruto do atual cenário em torno do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff, em curso na Câmara dos Deputados.
Ele observou que, mesmo que ocorra o afastamento de Dilma, as dúvidas ainda persistirão, devido aos questionamentos que poderiam ser feitos aos sucessores, o vice-presidente Michel Temer, e o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha PMDB-RJ), ambos sujeitos a responder a processos de impedimentos nos cargos.
Ferreira reconhece que a prudência do consumidor em adiar decisões tem um lado positivo no sentido pessoal, mas ressalta que a falta de consumo “tem um efeito péssimo para a economia”.
Segundo Ferreira, o grande problema é o desemprego e a falta de confiança por causa do atual quadro político.
James Conrad, presidente da TNS, informou que em contatos com dirigentes de empresas multinacionais, notou que eles esperam por mudanças com melhoria dos resultados econômicos a partir de 2018.
Conrad destacou que, em momentos de crise, também são criadas oportunidades de investimentos, como mostram experiências no Brasil, nos Estados Unidos e no Canadá e em países europeus. Ele estima que, atualmente, cerca de 20% das companhias demonstram crescimento das atividades.
FOTO: Thinkstock
*Com Agência Brasil

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