"Continuarei como um soldado ativo para servir à ACSP"

Roberto Mateus Ordine, presidente da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), faz um balanço dos três anos à frente da entidade e destaca como legado de sua gestão, que termina no início de 2026, a ampliação de projetos sociais, a união de 70 entidades empresariais em torno de pautas comuns e o apoio à revitalização do Centro de SP

Karina Lignelli
12/Dez/2025
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"Continuarei como um soldado ativo para servir à ACSP"

Após três anos à frente da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), Roberto Mateus Ordine está prestes a encerrar sua gestão destacando a união empresarial, a defesa da livre iniciativa e o fortalecimento da entidade como suas principais conquistas no período. Em seu mandato, Ordine buscou a congregação de setores econômicos em torno de pautas comuns - especialmente a reforma tributária - e a reunião de cerca de 70 entidades em um movimento de coordenação conjunta, que considerou um de seus principais legados. 

Um dos pontos mais marcantes de sua gestão foi o apoio da ACSP à revitalização do Centro de São Paulo, em parceria com prefeitura, governo do estado e a iniciativa privada. Ordine aponta avanços, como a maior circulação de pessoas pela região, a reabertura de comércios, expansão de moradias, retrofits em prédios históricos e melhoria da segurança e zeladoria, além do impacto positivo de projetos como o Vem pro Centro e ações que contribuíram para o fim da estrutura criminosa associada à Cracolândia. 

"As pessoas não imaginavam que haveria essa mudança. O número de pessoas que andam pelo Centro é muito maior do que nós percebemos, são mais de 600 mil por dia. Então, eu acho que, mesmo sem estar completa, a revitalização é vitoriosa." 

Na área social, Ordine destacou o fortalecimento do Qualifica Já, programa de capacitação em construção civil para pessoas em situação de vulnerabilidade social, já com diversas turmas formadas. Internamente, a ACSP celebrou marcos importantes, como os 130 anos da entidade, os 100 anos do Diário do Comércio e os 20 anos do Impostômetro, além de lançar iniciativas como o Gasto Brasil, reforçando o papel da casa na transparência dos gastos públicos. Conselhos estratégicos, como CPU, COPS e CAEFT, entre outros, também ampliaram suas atividades e contribuíram para a orientação de empresários e associados. 

Para o futuro, Ordine projeta desafios no cenário político e econômico, mas mantém otimismo quanto ao protagonismo do Brasil e à capacidade de adaptação do empresariado. Ele defende que a união entre setores e a participação ativa em entidades representativas serão decisivas para atravessar um período de transição tributária e complexidade institucional.

Mesmo concluindo seu mandato, o dirigente seguirá atuando na ACSP como membro do Conselho Superior, além de vice-presidente da Federação das Associações Comerciais do Estado de São Paulo (Facesp), reforçando seu compromisso histórico com a entidade. "Continuarei sempre como soldado ativo para servir à ACSP", afirma.

A seguir, confira entrevista concedida por Ordine ao Diário do Comércio em que faz um balanço da sua gestão:

 

Diário do Comércio - Quais as principais conquistas e desafios que o senhor aponta nesses três anos à frente da ACSP?

Roberto Mateus Ordine - Primeiro, eu espero ter cumprido pelo menos as bandeiras da entidade, que são a defesa da livre iniciativa e a liberdade de empreender. A outra que procuramos fortalecer foi unir o setor empresarial, como, por exemplo, em relação às distorções que aconteceram com a reforma tributária. Cada um saiu para um lado, lutando para buscar o melhor para cada setor. A indústria foi procurar seus benefícios... Os setores mais fortes conseguiram alguma vantagem, mas essas vantagens se traduziram em desvantagem para alguém. Esse foi um dos maiores erros, a meu ver, porque hoje a reforma tributária está longe de ser a ideal para o país, e tivemos uma penalização geral muito maior do que se teria se todos estivessem juntos. Nós procuramos mostrar isso por meio do nosso Conselho Consultivo, e conseguimos reunir 70 entidades que estão trabalhando na mesma direção.

A carga tributária ficará muito mais alta para todo mundo e isso acaba refletindo negativamente no setor empresarial. Há uma frase atribuída a Napoleão: "Dividir para conquistar", ou seja, divida seu inimigo, pois fica mais fácil ganhar a guerra. Foi o que o governo fez com essa reforma; por isso, daqui para frente, o empresariado tem que continuar unido.

 

União é a mensagem principal da sua gestão à frente da entidade?

Ordine - Isso. É trazer o maior número possível de associações para que, juntas, não pela liderança da ACSP, mas pela coordenação conjunta, com todos decidindo, encontrem o melhor caminho para todos os setores do empreendedorismo.

Acho que esse foi o carro-forte da nossa gestão, que veio se consolidando graças à boa vontade de cada entidade participante. Hoje temos uma parceria muito mais forte para combater tudo o que vier contra a livre iniciativa, inclusive em temas como segurança pública, além da preocupação com as reformas estruturais. 

 

Quais os outros trabalhos que o senhor destaca?

Ordine - Outro trabalho que nós temos aqui na casa com relação à nossa cidade é a revitalização do Centro, e acho que estamos no caminho certo graças a uma parceria entre o governo do estado de São Paulo, a prefeitura e a livre iniciativa.

Estamos conseguindo realizar o sonho de resgatar o Centro da capital paulista, por isso, hoje vemos um número maior de lojas abrindo na região, um movimento maior de pessoas transitando e, principalmente, trazendo a moradia de volta, com os retrofits nos prédios históricos... Ou seja, diversas atividades prestigiando a região central.

Nós buscamos ajudar as autoridades, trazendo soluções para pessoas em situação de rua por meio do programa Qualifica Já (de qualificação de pessoas em situação de vulnerabilidade social), que acabou de formar a sexta turma em parceria com o Sincomaco (sindicato do comércio atacadista de material de construção), a SMADS (Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social) e a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico e Trabalho (SMDET). É um trabalho social de grande preocupação com esse público, mas também uma satisfação pela oportunidade que dá para essas pessoas.  

 

A revitalização do Centro era uma das metas do início da sua gestão, e o Vem por Centro uma das iniciativas colocadas em prática nesse sentido. Qual a sua visão sobre esse projeto?

Ordine - Eu acho que deu certo, mas tem mais coisas para fazer. O projeto não está acabado, mas tudo está se revitalizando. É um trabalho que vai se completar quando o governo do estado vier para a região dos Campos Elíseos. É uma tarefa a médio prazo, um processo. Hoje você tem muito mais segurança, muito mais oportunidade de permanecer no Centro. E tem muito mais vantagens. O custo-benefício de ter imóveis comerciais no Centro é muito maior. A infraestrutura do Centro é forte, está se modernizando. Com o trabalho da prefeitura na segurança, na zeladoria e na iluminação, temos certeza absoluta de que esses três anos foram altamente significativos. Basta a gente ver o número de lojas que estavam abertas em 2022 nessa região e o número de lojas que estão abertas hoje, neste final de 2025.

Principalmente no eixo Largo São Bento-Largo São Francisco-Praça da Sé-Praça do Patriarca, houve indiscutivelmente um crescimento muito grande dos comércios. E também graças à iniciativa de empreendedores, a exemplo da Casa de Francisca, que conseguiram trazer o público jovem para passear na região, que era algo quase inexistente, e hoje esse público redescobriu o Centro. Esses jovens são os consumidores que virão amanhã com suas famílias que se formarão.

 

Esse entusiasmo se dá porque o senhor tem uma memória afetiva do Centro de São Paulo, certo?

Ordine - Eu sempre vivi no Centro da cidade, sempre trabalhei no Centro da cidade. Durante muitos anos, nosso escritório foi aqui. Então, eu tenho esse carinho. Primeiro, porque é uma cidade linda do ponto de vista histórico. Às vezes as pessoas que moram na cidade não percebem, não conhecem. Esse é o primeiro ponto importante que tem que ser resgatado.

E o segundo: não existe uma capital no mundo com a importância de São Paulo que não tenha um Centro vivo, ativo. Porque a tendência dos turistas ao chegar numa cidade é ir primeiro para o Centro e depois, de lá, conhecer as periferias. Não valorizar o Centro, aliás, é um erro grande que incorremos no passado, mas que hoje já está corrigido, porque o número de hotéis no Centro voltou a crescer, voltaram a aumentar as hospedagens... O Centro da cidade de São Paulo, além de ser bonito, tradicional, com história, tem diversos atrativos. Poucas pessoas sabem, por exemplo, o sucesso do edifício Martinelli, cujas reservas para participar de um evento têm hoje uma espera de três a seis meses. 

Tem muita gente que não circula pelo Centro e não sabe que aqui existe uma Virada Cultural, o Natal Iluminado... Nunca a cidade de São Paulo esteve tão bem decorada para o Natal como neste de 2025 em pontos fundamentais, como a Praça da Sé, o Pateo do Collegio, a Praça do Patriarca, o Viaduto do Chá, o Santa Ifigênia, que está lindo, a Avenida Paulista...

As pessoas não imaginavam que haveria essa mudança. E o número de pessoas que andam pelo Centro é muito maior do que nós, paulistanos, percebemos. São mais de 600 mil por dia. Então, eu acho que, mesmo sem estar completa, a revitalização é vitoriosa. Não temos a desfaçatez de achar que ela se completou nesses três anos, mas tenho certeza de que houve um progresso grande e a revitalização andou, graças, principalmente, às ações da prefeitura, do governo do estado e dos empresários. 

 

A impressão é que agora está andando mesmo, pois já vimos vários projetos que não foram para frente. 

Ordine - Isso, agora que a gente está vendo andar. Evidentemente que, no planejamento, é uma coisa, mas na prática é outra. Quem podia imaginar, por exemplo, que nós íamos vencer a Cracolândia? Foi uma vitória completa, graças a um esforço muito grande do governo de São Paulo e da prefeitura acompanhando.

Se nós lembrarmos o abandono, tanto da Praça da Sé como do Pateo do Collegio, em um passado não muito distante, hoje nós vemos durante o dia um movimento muito grande de turistas e muito menos aquele quadro triste das pessoas jogadas pelas ruas. Agora, é claro que isso é dinâmico, e só vamos ter uma melhora mais efetiva quando todos esses prédios construídos começarem a ficar habitados: aí sim a região vai se revitalizando cada vez mais.

 

O senhor citou a Cracolândia. Há estudos que apontam que não acabou, mas que o fluxo ficou mais disperso. Isso não é prejudicial para quem vive e trabalha no Centro?

Ordine - Foco espalhado não é Cracolândia, isso é bobagem. Porque a Cracolândia era uma estrutura criminosa muito maior do que se imaginava, era ligada ao crime organizado. Todas as capitais do mundo têm esse tipo de problema de cenas abertas de uso de drogas, mas você hoje anda muito mais tranquilo no Centro da cidade do que andava pouco tempo atrás. Por isso eu digo que a Cracolândia desapareceu por completo. Porque a estrutura por trás de tudo isso estava na Favela do Moinho, nos ferros-velhos, nos hotéis de fachada que eram lugares de compra, venda e uso de drogas. A concentração de usuários era a ponta do iceberg, o 'boi de piranha', a vitrine. Por trás daquilo havia uma estrutura criminosa. Mas essa estrutura acabou. 

 

Abriu muita loja no Centro, mas ainda há ruas esvaziadas, como o fim da rua São Bento, perto do Largo São Francisco, ou comércios que abriram e fecharam rápido. Qual sua visão sobre isso? 

Ordine - Isso é natural, porque algumas pessoas não se planejaram de acordo ou tiveram expectativas superiores àquilo que o Centro pode oferecer. Muita gente circula por aqui e a visibilidade é boa, mas o Centro ainda tem horário para funcionar, tem alguns problemas de segurança durante a noite porque esvazia. E ninguém pode imaginar que se abre um estabelecimento comercial e no dia seguinte vai ter sucesso, como em todo e qualquer lugar. Se o projeto não deu certo é porque foi um projeto errado.

 

Errado como?

Ordine - Seria preciso estudar mais a região e desenvolver como atividade principal algo que o Centro está precisando. Como ainda não temos um quadro de moradores da região, mas um horário em que as pessoas que vieram trabalhar vão embora, isso mostra que há questões mal calculadas. Em alguns casos, seria melhor criar um comércio mais imediato, um restaurante, uma hamburgueria, uma cervejaria, para motivar as pessoas a permanecerem um pouco mais no Centro. 

São coisas que podem ser complementares, mas não atores principais no mix de comércio. Para vir para o Centro é preciso calcular bem. Quem cuida de atividades de venda permaneceu vivo, como lojas de cosméticos, farmácias, mercados... Por que eles têm sucesso? Porque unem atividades do dia a dia com o perfil da região. 

 

Como a perfumaria Princesa, que mudou para o imóvel da antiga Marisa e tem mais duas lojas no Centro?

Ordine - Isso mesmo. Ou a Preçolândia, que demorou a vir para cá, mas já está fazendo muito sucesso. O comércio do Centro sempre tem compradores. E a 25 de Março, com o número de pessoas que está vindo no final do ano? Outro dia a Univinco informou que voltou a bater 1 milhão de pessoas por dia. Fazia tempo que a gente não via isso, mas voltou a acontecer (na época do boom do varejo, nos anos de 2004/2005/2006). Nunca vai ser igual porque a história é sempre dinâmica. 

O tíquete médio das pessoas diminuiu porque o poder aquisitivo hoje é outro, mas aos poucos vai engrenando. Na rua Santa Ifigênia (que teve problemas com a Cracolândia), as lojas estão começando a reabrir e ganhando novamente público. Tudo isso vai crescendo, essa é a dinâmica. Segundo o prefeito Ricardo Nunes, 700 mil empresas abriram na cidade de São Paulo e uma parte significativa foi aberta aqui no Centro. Reforçando, temos um público circulante de 600 mil pessoas todos os dias, é muito mais do que a população de muitas cidades médias do país. É preciso saber explorar as necessidades desse pessoal. 

 

Em sua gestão, a ACSP completou 130 anos, o Diário do Comércio ficou centenário e o Impostômetro fez 20 anos e passou a dividir espaço com o Gasto Brasil. O que todos esses eventos representam para o futuro da Associação? 

Ordine - Isso solidifica a posição da ACSP como, em primeiro lugar, uma entidade extremamente respeitável, mas, principalmente, independente, que não depende de verbas públicas e que exerce um papel de protagonista em iniciativas como o Gasto Brasil, para alertar a população sobre os gastos da máquina pública. Nós temos aqui dentro também alguns conselhos de sucesso em temas de interesse não só dos empresários, mas da sociedade, como o CPU (Conselho de Política Urbana), o COPS (Conselho Político e Social), que trazem importantes palestrantes e convidados para orientar empresários e o ambiente de negócios.

Nós também temos um grupo que estuda e aperfeiçoa, ou procura aperfeiçoar, os danos que a reforma tributária deve provocar: o CAEFT (Conselho de Altos Estudos de Finanças e Tributação). Há o COS (Conselho de Orientação e Serviços), todos se mobilizando pelo Simples, procurando, inclusive, orientar nossos associados nos caminhos que devem seguir.

Temos hoje um Balcão do Empreendedor muito ativo, com iniciativas como a do CEMAAC, nossa câmara de mediação e arbitragem empresarial. Temos uma parceria muito forte com a Jucesp, com o INPI (de propriedade industrial), a certificação digital... Enfim, todos os trabalhos estão crescendo dentro da entidade e para atender a um número de associados que é cada vez maior. Acredito que, daqui para frente, nós devemos ter um foco sempre de crescimento em todas essas áreas.

 

O ano de 2026 está chegando, vai ter eleição, a reforma tributária entra em vigor com dois sistemas em transição. Como o senhor enxerga esse cenário complexo e quais as perspectivas para o empresário?

Ordine - Eu sou otimista e eu tenho certeza de que o Brasil vai encontrar seu caminho. Agora, no momento atual, nós temos o que de pior pode existir, tanto na política - salvo exceções -, na esfera federal, e nosso judiciário, completamente atravessado. Tanto que estamos buscando as reformas para tudo isso. Então, o que eu vejo é o seguinte: no curto prazo, nós vamos sofrer ainda.

Mas tenho certeza absoluta de que, com esses políticos jovens que estão despontando, com muita competência, nós vamos ter um Brasil melhor, se não nessa, na próxima eleição. Vai haver um processo de aperfeiçoamento que nos indicará, com certeza, o que o Brasil precisa, e o país vai assumir sua posição de protagonista no cenário global.

Por isso, minha dica para os empresários é insistir e perseverar, não desanimar e nem buscar soluções fáceis, porque isso não existe. Continuar a fazer o que eles dominam e, claro, se unir. Procurar participar o máximo possível no seu setor, ouvindo e também ajudando para que a gente possa alcançar um ambiente de negócios mais favorável e um resultado melhor. 

 

O senhor está aqui na ACSP há mais de quatro décadas. Quais seus próximos passos depois de três anos no comando da entidade e o que isso representa pessoalmente para a sua trajetória?

Ordine
- Vamos estar juntos aqui em várias áreas, mas primeiro vou descansar um pouco e depois voltar à minha atividade profissional. Mas estarei sempre ligado à Associação como membro do Conselho Superior e vice-presidente da Facesp. Também devo ter algumas outras tarefas, tudo dependerá da nova gestão. Mas continuarei sempre como um soldado ativo para servir à ACSP. 

Essa passagem pela presidência, para mim, foi um presente de Deus. Fui muito beneficiado, aprendi muito e, ao mesmo tempo, tive oportunidade de enxergar coisas com mais clareza do lado de cá, tanto na parte estrutural da nossa entidade como na parte política, vendo como nossa participação influencia positivamente o meio empresarial. Então, eu só tenho a agradecer. 

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IMAGEM: Dani Ortiz

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