Cooperativas são opção financeira, mas beneficiam pouco os pequenos empresários
Instituições passam por mudanças na regulação e podem aumentar participação se o Banco Central avançar na criação das sociedades garantidoras de crédito para micro e pequenas empresas

O pequeno empresário Walter de Jesus Alves diz que nunca ouviu um “não” como resposta quando precisou de crédito para comprar tecidos e confeccionar uniformes comerciais para vender. Da última vez, há mais de um mês, conta que tomou R$ 20 mil de capital de giro “de um dia para outro”.
A rapidez, diz ele, é porque concentra seus recursos em uma cooperativa de crédito e coloca como garantia a antecipação de recebíveis e usa a instituição para emitir boletos. Esse relacionamento já existe há 10 anos.
Quem também não se queixa é a empreendedora Maria Maura de Menezes Silva, que é cooperada desde 2008 e antecipa cheques a uma taxa que considera baixa, de cerca de 2%, e ainda tem cartão de crédito, consórcio, previdência e aplicação na mesma instituição. Ela é revendedora de cosméticos e tem uma empresa de sucata.
WALTER DE JESUS ALVES: EMPRÉSTIMO RÁPIDO
A história desses dois pequenos empresários, cooperados do Sicoob (Sistema de Cooperativas de Crédito do Brasil) de Guarulhos, não representa a da maioria dos empreendedores. A estimativa é que no Brasil as cooperativas respondam por 4% dos financiamentos de pequenos e micro empresários.
Walter e Maura dizem que gostam principalmente da forma como são tratados – talvez porque a cooperativa seja uma sociedade de pessoas e não de capital como é o caso do banco. Essas organizações, classificadas de não-bancárias, têm a característica de ter a administração compartilhada, na qual todos têm direito a voto e são cooperados.
O Sicoob é uma cooperativa de livre admissão, ou seja, pode ter correntistas pessoa física e pessoa jurídica em determinada base territorial. Hoje, no Estado de São Paulo, está em cinco municípios – Guarulhos, Nazaré Paulista, Mairiporã, Santa Isabel e Franco da Rocha. Dos 4 mil cooperados, apenas 20% são de contas de empresas.
No Brasil, o Sicoob reúne metade das entidades e tem 2,3 milhões de associados, R$ 47,9 bilhões em ativos e R$ 29,2 bilhões em operações de crédito, segundo dados de junho de 2014. Nesta data, respondia por 45% da carteira de crédito das cooperativas brasileiras. Hoje, atende cooperados e não cooperados.
Hugo Mesquita, presidente do conselho de administração do Sicoob, diz que a cooperativa oferece taxa de juros abaixo das praticadas pelo mercado – mas essa análise é individual e de acordo com o risco e as garantias de cada tomador.
A taxa máxima no cheque especial da pessoa jurídica hoje está em 8,58%. Segundo o Banco Central, no mês passado a média dos bancos para essa linha era de 10,08% ao mês. Para o capital de giro com garantia de recebíveis, a taxa do Sicoob oscila de 2,13% a 3,04%. O crédito sem aval só é concedido para valores baixos, de até R$ 3 mil.
GARANTIAS
Mesquita diz que o que pode fortalecer o setor é justamente o avanço da regulação do Banco Central de uma sociedade garantidora de crédito para o micro e pequeno empresário.
Essas sociedades receberiam dos empresários para cobrir eventuais inadimplências, o que seria positivo para as cooperativas.
“É o que o Sebrae pede, já que a maior dificuldade dos pequenos em relação aos bancos é a falta de um bem para dar em garantia de um financiamento. A proposta das sociedades garantidoras de crédito está em audiência pública”, afirma João Carlos Natal, consultor do Sebrae-SP (Serviço Brasileiro de Apoio à Micro e Pequena Empresa).
Mesmo sem essa definição, a cooperativa já é o tipo de instituição que precisa ser pesquisada e procurada pelos pequenos empresários – o que vai na contramão da comodidade que é abrir conta em um grande banco, segundo Natal.
Um levantamento do Sebrae revela que apenas um terço dos pequenos empresários busca crédito no sistema financeiro e, quando o faz, recorre aos bancos. A maioria usa recursos próprios ou o de familiares, quando não recorre ao próprio fornecedor, o que acaba trazendo problemas, quando não buscam agiotas.
“Quando abre a conta, usa o cheque especial da pessoa física e paga juros muito altos nos bancos”, diz o consultor do Sebrae-SP.
Para dele, essa é uma via de mão dupla, já que considera que a maioria das cooperativas não trabalha o perfil de necessidade do micro e pequeno empresário, com linhas específicas de capital de giro e financiamentos segmentados, como os bancos fazem.
DIFÍCIL IDENTIFICAÇÃO
A dificuldade de identificar cooperativas, pelo pequeno empresário, também passa pelo fato de sua estrutura de classificação ser ampla. Existem as instituições formadas por atividade profissional, empregados de uma mesma empresa, vínculo patronal, além das segmentadas por regiões do país.
A quantidade de classificações ocorre porque as cooperativas são definidas pelo quadro associativo, mas isso está prestes a mudar.
Uma resolução do Banco Central, publicada no começo deste mês, estabelece que essas organizações se enquadrem em categorias determinadas pelo tipo de risco.
Agora, elas terão de escolher entre essas três denominações: plena (praticam todas as operações de cooperativa), clássica (não podem fazer operações no mercado futuro em ouro, moeda estrangeira e renda variável e no mercado de capitais) e capital e empréstimo (não podem captar depósitos e tem as mesmas limitações da clássica).
De acordo com a categoria, elas deverão prestar um determinado número de informações ao Banco Central. As cooperativas devem fazer essa escolha até o dia 6 de novembro.
Na ocasião da divulgação da resolução, o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, disse que a nova classificação exige que as cooperativas apresentem informações de acordo com o grau de risco e, para algumas, isso pode representar uma redução de custos.
Para Osvaldo Pereira Caproni, diretor do ramo crédito da Ocesp (Organização das Cooperativas do Estado de São Paulo), o novo modelo torna o sistema menos complexo e de mais fácil compreensão pela sociedade. A expectativa é que as mudanças aumentem o número de cooperados.
No Estado de São Paulo, há 260 cooperativas com R$ 19,1 bilhões em ativos, 9,8 bilhões em depósitos e R$ 8,7 bilhões em crédito, segundo dados da Ocesp de 2014.
OUTRAS LIMITAÇÕES DO SISTEMA
O ministro da Secretaria da Micro e Pequena Empresa, Guilherme Afif Domingos, estima que as cooperativas de crédito respondem por 4% do financiamento do pequeno e micro empresário, o que é muito pouco.
Uma explicação, segundo o diretor do curso de administração da FAAP (Fundação Armando Álvares Penteado) e ex-consultor do Sebrae, Silvio Passarelli, é que o sistema de cooperativas no Brasil precisa remunerar os cotistas pela taxa Selic e, com isso, acaba oferecendo taxas e exigindo garantias na concessão do crédito muito parecidas com as dos bancos.
“Muitas cooperativas entraram em dissolução por causa de má administração nos últimos anos. Para oferecer uma taxa de juros menor, ela precisa ter escala”, diz.
Para ter uma ideia, a quantidade de cooperativas no Brasil já foi bem maior. Eram 1.312 em dezembro de 2011 – das quais 19 voltadas para empreendedores e micro e pequenos empresários.
Dados do Banco Central de junho deste ano mostram que das 1.908 instituições autorizadas do sistema financeiro, 1.140 - ou 60% delas - são cooperativas. As de crédito mútuo para empreendedores e micro e pequenos empresários representam menos de 1% do total: são apenas 11, segundo dados de junho deste ano.
Ao todo, elas tinham R$ 158,5 bilhões em ativos totais e R$ 69,6 bilhões em operações de crédito, representando cerca de 2% do sistema financeiro, segundo dados de março do Banco Central.
FOTOS: Thinkstock e Rejane Tamoto



