Fintechs avançam nos pequenos negócios, mas não atendem bem empresas iniciantes

No movimento de ampliação de serviços, Mercado Pago lança conta digital para empresas com faturamento acima de R$ 10 mil; negócios recém-criados, que não têm histórico de transações, encontram mais dificuldades para obter crédito

Cibele Gandolpho
30/Abr/2026
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Fintechs avançam nos pequenos negócios, mas não atendem bem empresas iniciantes

Enquanto fintechs avançam com soluções cada vez mais completas para pequenas e médias empresas, um ponto crucial permanece em aberto: o microempreendedor que está começando um negócio ainda enfrenta dificuldades para acessar crédito, reduzir custos e competir em um mercado cada vez mais pressionado.

Apesar do discurso de inclusão financeira, especialistas apontam que boa parte das soluções oferecidas atualmente ainda exige algum nível de maturidade do negócio — o que exclui quem está nos primeiros passos.

“Existe um vazio real, e ele é estrutural, não acidental”, afirma Ricardo Hiraki, especialista em finanças e CEO da Plano Fintech de Educação Financeira.

Segundo ele, as fintechs foram desenhadas para empresas que já têm faturamento recorrente e histórico de transações, deixando de fora o empreendedor em fase inicial.

Entre as principais barreiras estão a falta de dados financeiros, a dificuldade de formalização e a baixa educação financeira.

“Quem está abrindo o negócio não tem histórico. Ele cai num limbo entre o crédito pessoal, caro, e o crédito empresarial, que exige tempo de operação”, explica Hiraki.

Na prática, isso cria um vácuo justamente na base da pirâmide: trabalhadores informais ou negócios recém-criados, que ainda não têm organização financeira nem acesso estruturado a crédito.

Mais crédito

Apesar da melhora recente no acesso ao crédito, o cenário ainda está longe de ser uniforme.

Levantamento do Sebrae mostra que 48% dos donos de pequenos negócios que buscaram financiamento neste ano conseguiram aprovação — o melhor resultado desde 2020 e acima dos níveis registrados em 2022 (26%) e 2023 (33%).

Ainda assim, mais da metade dos empreendedores segue sem acesso ao crédito. Mesmo com o avanço, o sistema financeiro continua atendendo de forma desigual, especialmente os negócios em estágio inicial.

Os dados indicam também que o crédito aprovado está concentrado em poucos players. Cooperativas e alguns bancos privados responderam por 43% das concessões.

Segundo o estudo, cerca de 40% dos empreendedores afirmaram não ter encontrado dificuldades para obter financiamento — um avanço em relação a anos anteriores, mas que ainda revela um ambiente restritivo para parte relevante dos pequenos negócios.

Burocracia

É o caso da confeiteira Camila Binhame, de 43 anos. Ela abriu o próprio negócio em 2018 e ainda enfrenta dificuldades para acessar crédito quando o objetivo é expandir a operação.

“No começo, precisei usar cartão de crédito pessoal para comprar insumos. Pensei em buscar crédito empresarial, mas pediam um histórico que eu ainda não tinha, além da burocracia e dos juros altos”, conta.

A confeiteira Camila Binhame diz que a dificuldade para obtenção de crédito tem limitado o crescimento de sua empresa (Imagem: Cibele Gandolpho/DC)

 

Segundo ela, a falta de capital limita o crescimento. “Às vezes tenho muita demanda, mas não consigo produzir mais para pronta-entrega porque não tenho caixa disponível e também precisaria contratar um ajudante. Já pensei em vender por aplicativos, mas não tenho verba para investir nos insumos e as plataformas também cobram caro dos empreendedores.”

Para Camila, o acesso a crédito mais simples faria diferença. “Se eu tivesse uma linha de crédito mais acessível e com menos burocracia, certamente conseguiria fazer o negócio crescer.”

Segmentação

Ao mesmo tempo, empresas do setor vêm ampliando o portfólio para atender a diferentes perfis de empreendedores ao longo da jornada.

É o caso do Mercado Pago, que lançou neste mês a Conta Negócio, voltada a empreendimentos com faturamento a partir de R$ 10 mil mensais. A solução reúne em uma única plataforma recursos como gestão de caixa, recebimento de vendas, crédito e investimentos.

O Mercado Pago também já oferece soluções desde os primeiros estágios de negócios, com uma conta digital gratuita, soluções de pagamento e acesso a serviços financeiros desde o primeiro dia, como os Cofrinhos, emissão de guia DAS MEI, soluções de crédito e cartão, entre outros.

“A Conta Negócio traz benefícios adicionais para quem já está em fase de profissionalização, mas faz parte de uma jornada mais ampla, em que apoiamos o empreendedor desde o início até o crescimento do negócio”, explica Daniel Davanço, diretor sênior de PMEs do Mercado Pago.

Segundo ele, a ideia é eliminar a fragmentação. O empreendedor não precisa mais ter uma solução para vender, outra para gerir e outra para acessar crédito. Tudo acontece dentro do mesmo ambiente.

Oportunidades

O crédito é um dos principais motores dessa nova fase das fintechs. Plataformas digitais têm ampliado a oferta de capital de giro e empréstimos com base em dados de movimentação financeira.

“O uso de dados permite oferecer crédito de forma mais assertiva e rápida, com base no comportamento real do negócio”, diz Davanço.

A proposta do Mercado Pago é atuar de forma integrada sobre os principais desafios. “Ao conectar pagamentos, gestão e crédito em uma única plataforma, conseguimos melhorar o fluxo de caixa, ampliar o acesso a financiamento e dar mais eficiência à operação”, afirma.

Segundo o executivo, a Conta Negócio inclui taxas regressivas, rendimento sobre saldo e ferramentas de gestão, além de integração com soluções de crédito baseadas em dados, com o objetivo de melhorar o fluxo de caixa e reduzir custos operacionais.

Davanço destaca que o rendimento de 120% do CDI nos Cofrinhos é acima da média oferecida pelo mercado aos empreendedores, e se soma ao software de gestão gratuito e ao acesso aos descontos exclusivos do Mercado Livre Negócios, como benefícios que ajudam o empreendedor na sua gestão financeira.

“Além disso, o uso de dados transacionais e do Open Finance nos permite oferecer crédito mais acessível e soluções financeiras mais adequadas à realidade de cada negócio, contribuindo diretamente para a sustentabilidade e o crescimento dessas empresas.”

Endividamento e concorrência global

Especialistas alertam para limitações do modelo atual de financiamentos. “O crédito via fintech pode fortalecer ou fragilizar — depende de como é usado”, diz Hiraki.

“A antecipação de recebíveis é saudável, mas linhas de capital de giro de médio prazo, contratadas com facilidade, podem levar ao endividamento.”

Ele destaca ainda um comportamento recorrente entre microempreendedores: o uso de crédito empresarial para despesas pessoais e a rolagem de dívida como forma de gestão de caixa.

Além das limitações de acesso a crédito e do risco de endividamento, a pressão competitiva também agrava a situação financeira dos pequenos negócios. O aumento da concorrência internacional, com a entrada de plataformas como a Temu e Shopee, tem comprimido margens e elevado a dependência de financiamentos para manter a operação.

Na avaliação de Hiraki, o problema é mais profundo. “A competição não é só de preço — é de estrutura de custo que o pequeno empreendedor brasileiro não consegue replicar”, ressalta.

Plataformas internacionais operam com vantagens logísticas, escala de produção e, até recentemente, benefícios tributários que distorcem a concorrência.

“O pequeno lojista precisa ter estoque e financiar esse estoque com juros. A plataforma internacional, não. Isso cria um mecanismo de compressão de margem que pode levar a crises de caixa recorrentes”, finaliza.

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IMAGEM: Thinkstock

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