Empresas familiares resistem, mas esbarram em impostos, crédito caro e sucessão

Elas são responsáveis por 90% dos negócios no país e aproximadamente 65% do PIB, segundo o IBGE. Mas apenas 30% chegam à segunda geração

Márcia Rodrigues
06/Mai/2026
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Empresas familiares resistem, mas esbarram em impostos, crédito caro e sucessão

Depois de perder o emprego às vésperas do casamento, o empreendedor Diego Eduardo Vanderlinde viu em um problema doméstico a oportunidade de começar do zero.

Ao contratar um serviço de limpeza de sofá e se frustrar com o resultado, decidiu fazer melhor. Comprou produtos, conseguiu apoio da família para investir no primeiro equipamento e começou atendendo amigos. Assim nasceu, há cerca de 11 anos, a SOS Sofá Limpo, negócio que hoje toca ao lado da esposa Isabela.

A trajetória, no entanto, esteve longe de ser linear. Diego começou a empresa sozinho. Um ano depois, a incorporou a outra que também atuava na área de higienização, o que a fez crescer rapidamente, saltando de um faturamento inicial entre R$ 5 mil e R$ 7 mil por mês para cerca de R$ 40 mil por mês em um ano e meio, chegando a R$ 70 mil antes da pandemia. Mas conflitos societários levaram a uma ruptura.

Em 2023, Diego saiu da sociedade e reestruturou a empresa para seguir apenas com a esposa como sócia. “Saí da sociedade só com a carteira de clientes, sem equipamentos. Tive que recomeçar praticamente do zero”, conta.

Hoje, o negócio voltou a se estabilizar, com faturamento entre R$ 20 mil e R$ 25 mil mensais, operado apenas pelo casal, com apoio pontual de freelancers.

A história expõe uma realidade comum no Brasil: empresas familiares têm alta capacidade de adaptação, mas enfrentam obstáculos estruturais para se manter ao longo do tempo.

90% dos negócios do país são familiares

Responsáveis por cerca de 90% dos negócios no país e por aproximadamente 65% do PIB (Produto Interno Bruto), segundo o Sebrae e o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), as empresas familiares são a base da economia brasileira.

Ainda assim, poucas conseguem atravessar gerações. Apenas 30% chegam à segunda geração, e uma parcela ainda menor avança para a terceira, segundo a mesma pesquisa.

Para José Venâncio, consultor de negócios do Sebrae-SP, o principal entrave está na falta de planejamento.

“O que observo é que empresas e pessoas não planejam. A sucessão precisa ser estruturada para que o negócio continue de forma saudável”, afirma.

Segundo ele, é comum que os herdeiros não estejam preparados ou sequer interessados em assumir a operação, o que fragiliza a continuidade.

Impostos complexos afetam estrutura das empresas

Além das questões de gestão, a carga tributária aparece como um dos principais desafios.

No caso de Diego, a mudança de regime já trouxe impacto direto. Após ultrapassar o limite do MEI (Microempreendedor Individual) no ano passado, ele precisou migrar para o Simples Nacional e lidar com novos custos e obrigações.

“Hoje tenho contador, pago guias mensais e até multa, que precisei parcelar, por conta da mudança. Isso pesa no dia a dia”, diz.

Diego e Isabela, da SOS Sofá Limpo: transição do MEI para microempresa envolveu novas responsabilidades e custos extras (Imagem: divulgação)

 

Para Venâncio, o problema não é apenas o valor dos impostos, mas a complexidade. “A empresa precisa contratar contabilidade para entender o sistema. Quando o sucessor se depara com isso, muitas vezes desanima”, explica.

Crédito ainda é limitado para pequenos negócios

O acesso ao crédito também segue como barreira, especialmente para micro e pequenas empresas. Diego optou por não recorrer a financiamentos e contou com apoio familiar para estruturar o negócio.

“Até tentei crédito para MEI, mas é muita burocracia. Acabei usando recursos da família”, afirma.

Segundo Venâncio, a dificuldade está diretamente ligada à falta de planejamento financeiro. “Muitas empresas deixam para buscar crédito quando já estão em situação crítica. Sem organização, o acesso fica ainda mais restrito”, diz.

Profissionalização é o que separa quem cresce

Se, por um lado, pequenos negócios enfrentam dificuldades para se estruturar, empresas que conseguem atravessar gerações mostram um padrão: profissionalização.

É o caso da Bransales, fundada em 1978 como uma oficina mecânica familiar e hoje consolidada como marca nacional de pneus.

A transição para a segunda geração começou cedo. João Gonsales assumiu parte da operação aos 17 anos, ao lado do irmão Luiz Afonso, com 12 anos.

“No início, todos faziam tudo. Com o tempo, criamos áreas, trouxemos gestores e conseguimos sair do operacional para ter visão de futuro”, afirma.

Hoje, os fundadores, Luiz Renato Gonsales e Rosangela Brandalise Gonsales, atuam no conselho, enquanto a nova geração lidera o negócio.

Crescer no Brasil exige adaptação constante

Mesmo com estrutura mais robusta, os desafios permanecem. “O principal desafio hoje é a carga tributária, além dos juros e da burocracia. Cada estado tem regras diferentes”, diz Gonsales.

A empresa optou por crescer com capital próprio e não recorrer a crédito, uma decisão comum em empresas familiares, segundo especialistas.

João Gonsales, da Bransales: carga tributária, juros e burocracia são entraves para o crescimento da empresa (Imagem: divulgação)

 

“Ainda temos muito da cultura dos nossos pais, de trabalhar com recursos próprios e mais com os pés no chão. Planejamos muito bem e analisamos todos os riscos de cada estratégia antes de executarmos”, afirma.

Sucessão exige mais do que continuidade familiar

Para o economista Rodrigo Guerra, sócio-fundador da RDW, consultoria de negócios, o maior erro é tratar a sucessão apenas como uma questão familiar.

“O empreendedor que funda o negócio costuma operar com lógica de sobrevivência: foco em produto, venda e fluxo de caixa. Funciona na primeira geração. Mas, à medida que a empresa cresce, o jogo muda: passa a exigir governança, disciplina financeira, estrutura societária, planejamento tributário e capacidade de acessar capital”, explica.

E aqui surge o descompasso, segundo ele: “o Brasil não é um ambiente pró-negócio no sentido mais profundo. Não se trata apenas de carga tributária elevada, mas de complexidade, insegurança jurídica e custo de capital estruturalmente alto. Isso força a empresa a evoluir rapidamente em termos de gestão, e muitas não fazem essa transição”.

“No fundo, poucas empresas quebram por falta de mercado. A maioria quebra por falta de estrutura para lidar com a complexidade que o próprio crescimento impõe.”

Marcus Rizzo, diretor da Rizzo Franchise, destaca a pressão que existe em cima dos sucessores que, muitas vezes, costumam ser comparados aos fundadores e nem sempre conseguem corresponder.

“É a mesma cobrança feita a um filho do Pelé. As pessoas esperam que ele seja igual ao pai. Nas empresas familiares, acontece o mesmo: o sucessor é comparado o tempo todo, e nem sempre consegue corresponder”, afirma.

Mistura de contas ainda compromete empresas

Outro ponto crítico e recorrente é a falta de separação entre finanças pessoais e empresariais. “Muitos empresários sacam dinheiro da empresa para pagar contas pessoais, sem controle. Isso compromete o caixa e a sustentabilidade”, afirma Venâncio.

No caso da SOS Sofá Limpo, a organização financeira passou a ser prioridade. “Hoje tratamos a empresa e a casa como negócios. Temos pró-labore, controle de caixa e planejamento”, diz Diego.

Franquias: começo com negócio familiar

Para Rizzo, empresas familiares têm uma característica marcante: nascem pequenas e crescem com forte envolvimento da família.

“A maioria absoluta das empresas com as quais eu trabalhei, como consultor, estruturando rede de franquias, têm uma característica em comum: todas nasceram de pequenos negócios familiares. E as franquias, você pode ter certeza, têm uma característica básica, que é começarem como pequenas empresas familiares.”

Entre resistência e estrutura

As histórias mostram dois lados da mesma realidade: pequenos negócios que lutam para se manter e empresas que conseguiram se estruturar para crescer. O ponto em comum é claro: sobreviver no Brasil exige mais do que esforço.

“Depois de anos de batalha, agora começamos a colher os frutos”, diz Diego.

Já para empresas mais estruturadas, o foco está na continuidade. “É olhar para frente que nos move”, afirma Gonsales.

No fim, o desafio das empresas familiares é equilibrar tradição e gestão profissional, porque resistir é comum, mas continuar exige planejamento.

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IMAGENS: Freepik

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