‘Ilegais’, ‘brutais’, ‘infundadas’: Líderes mundiais reagem ao tarifaço de Trump
O presidente da França, Emmanuel Macron, cobrou da União Europeia resposta às sobretaxas norte-americanas e prometeu retaliações mais massivas que as anteriores

*com informações do Estadão Conteúdo
Chamada por Donald Trump de “Dia da Libertação Americana”, a cerimônia realizada na tarde de quarta-feira (2) para anunciar as tarifas recíprocas que irão atingir 185 países gerou reações duras de lideranças globais, que prometeram responder com taxas a produtos dos Estados Unidos e acordos comerciais com outros parceiros.
No Brasil, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que vai tomar "todas as medidas cabíveis" para defender o país e terá como referências a lei da reciprocidade econômica, aprovada na quarta-feira pelo Congresso Nacional, e as diretrizes da Organização Mundial do Comércio (OMC).
Os produtos brasileiros exportados para os EUA ficaram entre os menos taxados, com alíquota de 10%. Outros países receberam tarifas bem mais pesadas: para a China serão de 34%; para Taiwan, 32%; os produtos da União Europeia serão taxados em 20%; para o Japão, Coreia do Sul e Índia, as sobretaxas serão de 24%, 25% e 26%, respectivamente; os produtos da Suíça terão uma tarifa de 31%; enquanto os produtos da Venezuela serão taxados em 15%.
Canadá
O primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, anunciou nesta quinta-feira, 3/4, a imposição de tarifas de 25% sobre todos os veículos importados dos Estados Unidos que não estejam dentro do acordo USMCA.
Carney classificou as tarifas sobre o setor impostas pelo governo de Donald Trump como "ilegais" e contrárias a qualquer pacto comercial entre os dois países.
O premiê também afirmou que as tarifas retaliatórias anteriores do Canadá também permanecem em vigor e negou que esteja coordenando, no momento, retaliações conjuntas com outros países, mas afirmou que o país está reforçando laços com outros parceiros comerciais. "Parceiros confiáveis são mais importantes que nunca, com tarifas de Donald Trump", disse.
Ele revelou ter conversado com líderes como a presidente do México, Claudia Sheinbaum, o chanceler alemão, Olaf Scholz, a presidente da Comissão Europeia, Ursula Von der Leyen, o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, e o presidente francês, Emmanuel Macron.
Sobre a Alemanha, Carney adiantou: "Em minha conversa com o chanceler Scholz nesta manhã, concordamos em fortalecer a diversificada relação comercial entre o Canadá e a Alemanha."
A aproximação com a Europa surge como uma alternativa à dependência do mercado norte-americano. Carney não demonstrou otimismo quanto a uma reversão das tarifas norte-americanas no curto prazo. "Particularmente, não acho que Trump recuará sobre tarifas. O caminho será longo", declarou.
China
A China anunciou que vai impor tarifas de 34% a todos os bens importados dos Estados Unidos, em resposta ao tarifaço anunciado pelo governo Trump. As tarifas chinesas entram em vigor no próximo dia 10, segundo comunicado da Comissão Tarifária do Conselho Estatal divulgado nesta sexta-feira, 4/4. Na quarta-feira (2), o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou tarifas "recíprocas" de 34% a importações da China, que se somam à tarifação anterior de 20% já em vigor.
Espanha
O governo da Espanha anunciou um pacote de ajuda de 14,1 bilhões de euros para minimizar os impactos internos das tarifas impostas pelo presidente dos Estados Unidos, que para produtos da União Europeia passarão a ser de 20%. Os recursos serão destinados à modernização do setor industrial e à promoção de produtos espanhóis, entre outros direcionamentos.
O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, fez o anúncio durante uma entrevista à imprensa. "As tarifas anunciadas pelo presidente Trump não são recíprocas. Ninguém sairá beneficiado disso. Por isso, pedimos mais uma vez que ele reconsidere. Nossa mão está estendida. Mas não ficaremos de braços cruzados. A UE reagirá com proporcionalidade, unidade e firmeza", afirmou Sánchez.
França
O presidente da França, Emmanuel Macron, considerou as tarifas anunciadas pelo presidente dos Estados Unidos "brutais e infundadas". Ele defendeu que a Europa responda às sobretaxas impostas pelo republicano "setor por setor" e classificou as medidas como um "choque para o comércio internacional".
O francês também prometeu retaliações mais "massivas" do que as anteriores. "A resposta ao anúncio das tarifas dos EUA ontem será mais massiva do que a resposta anterior", disse Macron em coletiva de imprensa. "Se os europeus trabalharem juntos em sua resposta às tarifas dos EUA, conseguiremos desmantelá-las", acrescentou.
O presidente da França ainda pediu que as empresas "suspendam" seus investimentos nos Estados Unidos.
Macron alertou que, com as tarifas, a economia e os consumidores dos EUA "ficarão mais pobres e fracos" e destacou que as consequências indiretas das novas taxas de Trump podem "levar outros países da Ásia a aumentar suas exportações para a Europa".
México
O México buscará diversificar suas relações comerciais com outros países além dos Estados Unidos, afirmou a presidente mexicana Claudia Sheinbaum durante coletiva de imprensa nesta quinta-feira, 3. "O México vai assinar e vai manter um acordo de trocas comerciais com a União Europeia", declarou, sem dar mais detalhes.
Ainda segundo a líder mexicana, o país segue em negociações com os Estados Unidos em relação às tarifas sobre a indústria automotiva, aço e alumínio.
Taiwan
O governo de Taiwan, que recebeu uma pesada tarifa de 32% sobre as importações para os EUA, anunciou planos para iniciar "negociações sérias" com Washington. “As tarifas são altamente irracionais e não refletem a relação econômica e comercial real entre as duas economias”, disse a porta-voz do gabinete de Taiwan, Lee Hui-chih, em comunicado.
As tarifas de Trump não se aplicam a semicondutores, que constituem uma parcela significativa das exportações de Taiwan. O país atribuiu seu crescente superávit comercial com os EUA ao aumento da demanda por semicondutores e produtos relacionados de clientes americanos em meio ao entusiasmo em torno da inteligência artificial, bem como às tarifas anteriores de Trump e restrições tecnológicas à China durante seu primeiro mandato.
Reino Unido
O primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer, disse nesta quinta-feira que reagirá com a "cabeça fria e calma" ao anúncio do presidente dos Estados Unidos, que impôs uma tarifa de 10% sobre as importações provenientes do país.
Em reunião com líderes empresariais, o premiê disse que "claramente haverá um impacto econômico" com a medida, mas que ainda espera conseguir a retirada das tarifas por meio de um acordo comercial com Washington.
"As negociações sobre um acordo que fortaleça nossa relação comercial existente continuam. Lutaremos pelo melhor acordo para a Grã-Bretanha", disse Starmer. "Ninguém ganha em uma guerra comercial. Isso não está no nosso interesse nacional."
*atualizada em 4/04
IMAGEM: Tânia Rêgo/Agência Brasil

