Interior paulista sofreu com a crise em 2015

O comércio das principais cidades do interior de São Paulo também enfraqueceu e lojistas veem o Natal como última chance de recuperação

Mariana Missiaggia
24/Dez/2015
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Interior paulista sofreu com a crise em 2015

2015 não foi fácil para ninguém. O varejo de São Paulo acumulou perdas mês a mês, e deve fechar o ano com queda próxima aos 7%, em comparação com o mesmo período de 2014.  

Enquanto isso, os comerciantes das principais cidades do interior de São Paulo, buscam alternativas para driblar a queda prevista nos lucros para o Natal. Com a inflação e o dólar nas alturas, os lojistas apostam em opções de produtos de segunda linha e preços mais populares para garantir as vendas de fim de ano.

Mesmo entre as 32 melhores cidades para empreender no Brasil, de acordo com o ranking da Endeavor, os empresários de Sorocaba (15º), Campinas (5º), Ribeirão Preto (12º), e São José dos Campos (6º) sentiram o efeito do clima de recessão em seus negócios. 

Para Ulisses Ruiz de Gamboa, economista da ACSP (Associação Comercial de São Paulo), a tendência de um aprofundamento de queda no varejo da capital irá se repetir no interior – um cenário que não apresenta perspectiva de recuperação até abril.

De acordo com a pesquisa ACVarejo da ACSP, no acumulado do ano de 2015, as vendas no varejo do Estado caíram 14%, na comparação com o mesmo período do ano passado. No acumulado dos 12 meses, a queda foi de 5,8%, e outubro frente a setembro registrou um recuo de 3%.  

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CAMPINAS

A queda de 4% no volume de vendas, e a redução de 3,5% na movimentação financeira, na comparação com 2014, desanimou os comerciantes campineiros. Na avaliação de Laerte Martins, economista da Acic (Associação Comercial e Industrial de Campinas), trata-se da pior performance, desde 2001. Martins destaca que de março a novembro de 2015, nenhum mês conseguiu superar o volume de vendas do ano anterior. 

ADRIANA, DA ACIC: MENOS CAPITAL PARA O COMÉRCIO

Além do baixo desempenho do varejo, a inadimplência foi outro segmento que afetou negativamente as atividades do comércio local, superando em 7% o índice do ano passado. Esse ano,os 225 mil consumidores inadimplentes contabilizam cerca de R$ 162 milhões em endividamento.

Como reflexo desse cenário, 50% da população vai usar o 13º para pagar dívidas. “Ou seja, temos menos capital disponível para a compra em relação a 2014, quando o índice já era baixo, e 35% da população destinou o dinheiro para dívidas”, recorda Adriana Flosi, 53 anos, presidente da Acic.

SOROCABA

Com movimento econômico médio de R$ 7,07 bilhões de reais, e tendo o comércio responsável por 28% deste total, Sorocaba também já passou por tempos mais prósperos. Nos primeiros meses do ano, a região se destacou apresentando os melhores resultados do Estado de São Paulo, de acordo com a Fecomercio. O setor de vestuário, tecidos e calçados, por exemplo, chegou a registrar alta de 29,8%, no primeiro semestre. 

VENDAS DE NATAL DEVEM INJETAR MAIS DE MEIO BILHÃO DE REAIS NA ECONOMIA LOCAL/FOTO: ACSO

Por outro lado, Rafael Muscari, economista da ACSO (Associação Comercial de Sorocaba), acredita que os números desse Natal irão apresentar queda em relação a 2014.

Um levantamento realizado pela Acso mostrou que 523 mil sorocabanos pretendem comprar presentes de Natal, injetando mais de meio bilhão de reais na economia local.

A maioria dos entrevistados (72%) pretende comprar presentes para os familiares. Outros 12% não decidiram a quem irão presentear. Já os namorados correspondem a 9%. Para completar, 4% dos entrevistados disseram que comprarão presentes para si mesmo, e apenas 2% não pretende gastar neste Natal. 

A pesquisa da Acso também indica que mais de um terço dos consumidores compraram seus presentes na primeira quinzena de dezembro. 34% dos entrevistados deixaram as compras para a segunda quinzena. Um total de 16% antecipou as compras para o final de novembro, e 9% decidiu comprar após a data comemorativa para aproveitar possíveis promoções. 

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Os artigos de vestuário estão no topo da lista de presentes, e mais da metade dos entrevistados irá investir até R$ 100 nos presentes, valor menor que em 2014, quando os consumidores gastaram até R$ 160. 43% pretende manter o valor de 2014, e apenas 5% irão gastar mais esse ano.  

CÉPIL, DA ACSO: É FUNDAMENTAL OFERECER CONDIÇÕES ATRAENTES PARA O CONSUMIDOR

"O consumidor quer presentear e não vai deixar de fazê-lo. É fundamental oferecer condições atraentes neste Natal, no que diz respeito às ofertas. Essa é uma maneira de conquistar e fidelizar clientes", diz José Alberto Cépil, presidente da Acso.

SÃO JOSÉ DOS CAMPOS

Em São José dos Campos, a última oportunidade dos empresários para encerrar 2015 com o saldo positivo parece que também não vai vingar. Pessimistas com o atual cenário econômico, os lojistas enfrentaram baixas durante todo o ano e esperam um declínio nas vendas de 2,6%, em relação ao mesmo período do ano passado - a primeira expectativa negativa em cinco anos.

De acordo com a ACISJC (Associação Comercial de São José dos Campos), 37% dos comerciantes acreditam que os valores gastos com presentes não ultrapassarão R$ 100. Eles acreditam que os produtos mais procurados pelos consumidores serão as roupas, calçados, relógios e perfumes.

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Para atrair a clientela, 87% dos comerciantes investiram na decoração da loja e das vitrines, 85% renovaram os estoques e 72% apostam em promoções específicas para a data. Distribuir brindes foi a opção de 28% dos lojistas, e outros 23% estão facilitando as formas de pagamento para os clientes.

CAVALI, DE SJC: ABERTURA DE MEIs EM SJC É DESTAQUE

Para Sebastião Cavali, secretário de desenvolvimento econômico de São José dos Campos, o  sistema de apoio da cidade ao empreendedor garante uma expectativa positiva para 2016. Ele destaca o aumento de 19% na abertura de MEIs na cidade, em 2015, quando 2.539 novas empresas foram abertas no município, contra 1.846 em 2014. 

“A presença de São José dos Campos no ranking da Endeavor é um motivo de orgulho, e mostra que estamos no caminho certo. Trabalhamos de forma sistêmica para fomentar um macroambiente empresarial competitivo no município”, diz.

 

 

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RIBEIRÃO PRETO

Em Ribeirão Preto, o clima de pessimismo pesou na lucratividade das empresas, de acordo com o economista Marcelo Bosi, economista do Sincovarp (Sindicato do Comércio Varejista de Ribeirão Preto). 

Com o PIB da cidade composto por praticamente comércio e serviços, as vendas do comércio de Ribeirão Preto caíram todos os meses de 2015 até outubro, quando houve uma redução de 4,71%, na comparação com o mesmo período do ano passado. No entanto, o mesmo índice revela uma leve desaceleração da queda quando comparado com os percentuais registrados em agosto e setembro, meses em que as vendas caíram 5,24% e 6,88%, respectivamente. 

“Pode ser um sinal de que o momento mais agudo da crise esteja ficando para trás”, diz Bosi. 

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Mesmo com essa leve recuperação, as perspectivas para as vendas de Natal seguem negativas. “Para que uma avaliação mais positiva ocorra é preciso que o governo demonstre capacidade de tomar atitudes no sentido de aprovar reformas que melhorem o ambiente empresarial”, diz. 

 

SÃO JOSÉ DO RIO PRETO

A 450 quilômetros de São Paulo, São José do Rio Preto está em pleno desenvolvimento. Na opinião de Fernando Gibotti, 40 anos, diretor de inteligência da GS Group, especialista em soluções para o varejo, as quedas do município não foram tão representativas.

As baixas que ocorreram ao longo do ano fizeram do índice de confiança do comércio uma verdadeira montanha-russa. 2015 começou pessimista, mas surpreendeu na época de carnaval, com o aumento nas vendas dos supermercados. “E isso se repetiu em tantos feriados que tivemos ao longo do ano. Agora, novamente, o Natal reaqueceu as vendas e já estamos mais otimistas”, diz.

Seguindo a mesma tendência da capital, o único setor que não apresentou queda foi o farmacêutico. Por outro lado, o varejo de material de construção foi o que registrou a maior queda, de 4,5%. Nada assustador, na opinião de Gibotti. “Esse setor teve alta de 25% no ano passado, então, não dá pra dizer que esses empresários estão na ruína. A crise foi anunciada, e quem se preparou, passou por esse ano com tranquilidade”, diz.

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Nos supermercados, Gibotti explica que houve uma reorganização nas compras. “Eles (consumidores) não deixaram de consumir. A mudança é que agora, eles optam por marcas mais baratas, e produtos similares.” 

“Os empresários se acomodaram nos últimos cinco anos, e agora, foram obrigados a recorrer à criatividade. Quem aprendeu a trabalhar num cenário de altas e baixas temporais passará bem por essa crise”, diz. 

Para Adriana Neves, presidente da Acirp (Associação Comercial e Empresarial de Rio Preto), as expectativas para as vendas de Natal são modestas. “Esperamos que as vendas se mantenham estáveis na comparação com 2014, que já foi um ano fraco. Sendo muito otimista, pode ser que tenhamos alta de 1% ou 2%”. No entanto, Ricardo Ismael, diretor executivo do Sincomercio Rio Preto, tem uma visão diferente. “Nossa expectativa é de queda.”

*Foto: Thinkstock

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