Marketplace da Suzano permite que pequenas papelarias enfrentem gigantes do setor
A plataforma SupriJá reúne cerca de 70 papelarias de bairro e projeta expandir os sellers em 2026

O setor de papelaria é dominado por gigantes do varejo, como Kalunga e Amazon, que surfam na evolução tecnológica e conseguem oferecer aos consumidores maior praticidade, com compras rápidas pela internet, entrega em casa e preços mais atrativos. Nesse cenário cada vez mais digital, as pequenas papelarias perderam espaço.
Percebendo esse gap tecnológico dos pequenos negócios do setor, a Suzano, maior produtora de celulose no Brasil, criou o SupriJá, um marketplace voltado a esse público. “Nos últimos anos experimentamos mudanças no comportamento dos consumidores e diversos players internacionais entraram no Brasil, pegando uma fatia do segmento de papelaria. O objetivo do marketplace é ajudar na digitalização das pequenas e médias papelarias e fortalecer esses negócios”, explica Iara Rodrigues, gerente responsável pela SupriJá.
A proposta foi idealizada em 2023 e, no mesmo ano, a startup Backlgrs se uniu ao projeto para auxiliar na criação da plataforma. A SupriJá começou a operar em cidades do interior de São Paulo, como Sorocaba e Campinas, no início de 2024.
Diferentemente de outras plataformas, a Suprijá trabalha um nicho específico, os itens para escritório. Isso, segundo Guilherme Carvalho, CEO da Backlgrs, vira um diferencial competitivo para as papelarias, já que em outros marketplaces elas disputariam vendas com empresas de outros segmentos que vendem produtos semelhantes. Iara reforça essa ideia: “Somos um marketplace voltado para o papeleiro.”
Outro diferencial aparece no momento em que o consumidor realiza a compra e a ele é indicada, além do melhor preço, a papelaria mais próxima, possibilitando entregas rápidas.
Carvalho destaca também o fato de o marketplace informar às papelarias quais produtos são mais vendidos na plataforma e também pelo próprio negócio, auxiliando na gestão de estoque.
A SupriJá não possui taxas mensais ou custo de setup (cobrança inicial para instalação). No entanto, sem mencionar valores, Iara explica que, a cada pedido transacionado dentro da plataforma, uma determinada porcentagem é repassada para o marketplace.
Expansão
Ao final de 2025, cerca de 70 sellers (vendedores) estavam cadastrados na plataforma. Todos instalados fisicamente nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro. “Para 2026, queremos ampliar nossa presença nessas localidades e expandir para o Nordeste e Sul do Brasil”, diz Iara, que explica que, neste momento, o projeto envolve apenas papelarias para as quais a Suzano já fornece produtos.
Apesar de ter sido criado com o objetivo de vender materiais para escritórios, Iara menciona que o marketplace tem recebido pedidos das papelarias para expandir o portfólio de produtos, desde que não fuja do escopo inicial, ou seja, produtos vendidos na papelaria.
“Estamos estudando a questão. Entradas de categorias que não temos hoje são uma grande oportunidade. Apesar de sermos focados em produtos de escritórios, entendemos que as papelarias estão se reinventando e, com isso, surgem novas categorias que não estavam previstas no início do projeto”, diz Iara.
Desafios
Por ser um segmento em que muitas empresas foram atropeladas pela era digital, há papelarias com dificuldades para se adaptar à mecânica do marketplace, como, por exemplo, cadastrar produtos na plataforma. Por isso, desde o início, as papelarias passam por um treinamento presencial, no qual é demonstrado como podem lançar os itens, fazer as entregas, entre outras atribuições.
“Algumas papelarias já trabalham a entrega no físico há algum tempo, primeiro pelo disk-entrega e, posteriormente, para atender pedidos realizados via WhatsApp. Esses estabelecimentos percebem que o digital complementa o varejo físico”, explica Carvalho.
Surfando a onda
No varejo físico há 28 anos, a PapelMix, no bairro da Aclimação, na cidade de São Paulo, é conhecida por vender produtos de papelaria e presentes para épocas especiais, como Natal e Dia das Mães. Mariana Souza, proprietária da papelaria, conta que embarcou no marketplace em janeiro de 2025. As vendas pela plataforma, lembra, começaram a crescer a partir de maio, quando houve uma forte campanha de divulgação da Suprijá e cupons de desconto começaram a ser disponibilizados para os clientes.
“Nós tivemos um aumento muito grande nas vendas, um faturamento bem significativo, e passamos a vender para lugares aos quais nossa loja física jamais chegaria, como em Guarulhos”, diz Mariana.
De acordo com ela, por estar dentro da plataforma, foi possível à sua empresa concorrer com grandes marketplaces na busca do Google, fazendo com que a loja tivesse mais visibilidade e, consequentemente, mais pedidos.
A plataforma foi a primeira experiência de Mariana com vendas em um marketplace. Ela diz que encontrou algumas dificuldades para adaptar a logística da empresa às vendas digitais. “Quando vendia pacotes de sulfite, era complicado. Por se tratar de um item pesado, os motoboys não levam. Até motorista de aplicativo se recusa a levar”, recorda. Para resolver a situação, passou a colocar uma data para entrega um pouco mais longa. Dessa forma, ela mesma consegue realizar a entrega com seu carro.
Além disso, Mariana menciona que teve certa dificuldade no início para cadastrar produtos na plataforma, que demora para aprovar os itens devido à demanda ou por priorizar campanhas específicas, como as de volta às aulas.
Empolgada com a transformação digital, a dona da PapelMix conta que a decisão de migrar para o marketplace surgiu por saber que muitos clientes preferem realizar compras online. “Na loja física, vendemos embalagens para devolução de mercadorias compradas pela internet, e cresceu muito essa demanda. Além disso, muitas vezes o cliente vai à loja e não encontra o produto que quer, então diz: ‘eu vejo na internet’. Assim, ou a gente surfava a onda, ou ficava para trás”, diz Mariana.
Apesar de a concorrência com grandes empresas ser uma ameaça para as pequenas papelarias, a empresária enxerga que o digital ajuda a nivelar a disputa. “As pessoas que compram pela internet estão acostumadas a comprar em lugares não tão conhecidos.”
Hoje, Mariana diz que faz cerca de 60 vendas por mês por meio da Suprijá, que representam 20% do seu faturamento.
Maior alcance
Apesar de já realizar vendas online por meio de aplicativos como WhatsApp e Instagram, a papelaria Maricota Store, de São Caetano do Sul, região metropolitana de São Paulo, queria expandir o alcance e oferecer aos clientes uma forma mais rápida e segura de comprar.
Há 12 anos no mercado, a empresa familiar está desde junho de 2025 na plataforma. “O marketplace tem auxiliado nossa presença digital e nos ajudado a vender para clientes que provavelmente não chegariam até nossa loja física”, diz Sylvia Lea, proprietária da Maricota.
Apesar de já vender pelas redes sociais, segundo Sylvia, a principal diferença é que o marketplace possui uma vitrine mais estruturada e maior alcance. “Tivemos algumas dificuldades na parte da logística, precisamos adequar nossas embalagens para que os produtos chegassem com qualidade e dentro do prazo”, explica. As vendas pela plataforma representam 5% do faturamento da sua papelaria.
Já a Supricamp, papelaria de Campinas, interior de São Paulo, tem experiência com sua própria plataforma de vendas online. No entanto, sem uma estrutura digital especializada, o estabelecimento preferiu migrar para a Suprijá cerca de dois anos atrás. “Não tínhamos uma pessoa que cuidasse do nosso e-commerce e o marketplace veio para expandir isso”, explica Luiz Carlos, dono da papelaria.
Hoje, as vendas da Supricamp intermediadas pela Suprijá representam cerca de 20% do faturamento do estabelecimento.
Por já ter contato com vendas digitais, Carlos menciona que foi fácil adaptar a logística, embora tenha sido necessário investir na contratação de um funcionário e na compra de um veículo para realizar as entregas.
Apesar do crescimento, Carlos diz que, como a plataforma ainda não é muito conhecida no mercado, mesmo sendo de uma grande empresa, gera certa desconfiança nos clientes. “Eu mesmo fui entregar em algumas residências em que os clientes acharam que tinham caído em um golpe.”
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IMAGEM: Supricamp/divulgação
