Em dificuldade, polo comercial da Santa Ifigênia migra para a internet

Em uma década, número de lojas instaladas na tradicional rua dos eletrônicos diminuiu dois terços, de 15 mil para 5 mil, segundo a União Santa Ifigênia (USI). Hoje, 80% das vendas das empresas da região são feitas pelo meio digital. Prefeitura e lojistas locais trabalham juntos para mudar esse quadro

Mariana Missiaggia
20/Jan/2026
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Em dificuldade, polo comercial da Santa Ifigênia migra para a internet

A histórica região da Santa Ifigênia, no Centro de São Paulo, tradicional por seu comércio de eletrônicos, tem vivido há alguns anos uma transição em sua dinâmica comercial e urbana. A ascensão do e-commerce, o valor dos aluguéis dos imóveis, os efeitos da Cracolândia e a inércia na inovação local forçaram uma redefinição na vocação de suas lojas.

Berço da digitalização de muitas empresas, o endereço sofre hoje com a falta de inovação, diz Fábio Zorzo, fundador da InPower e diretor da União Santa Ifigênia (USI). Segundo o empresário, a ausência de um plano de modernização e a visão antiga de proprietários de imóveis que não investem em reformas e não acompanham o retorno do mercado são alguns dos entraves para a retomada do polo.

A concorrência com os marketplaces e a sensação de insegurança na região central da cidade também são pontos sensíveis que endossam uma certa queda no volume de clientes, na avaliação de Zorzo. Hoje são cinco mil lojas em funcionamento, de acordo com a USI. Há dez anos, eram 15 mil. Além disso, os dados da associação mostram que a vacância atual dos imóveis é de 40% na região.

Outra consequência desse cenário é a diminuição da oferta de produtos tradicionais de informática. Hoje, a maioria dos lojistas aposta no atendimento online e cerca de 80% das vendas da região já passam pelo digital, de acordo com Zorzo, que é empresário desde 2004 na Santa Ifigênia.

O empresário diz encarar com naturalidade qualquer possível mudança de perfil da região. Para ele, trata-se de "um movimento natural do varejo". Ele recorda que na década de 1970 o comércio de rua foi desafiado pelos shoppings, mas reencontrou seu nicho. Mais tarde veio a internet, que ocupou outras lacunas.

"O online levou as principais categorias da tecnologia. O comércio de rua teve que se reinventar, ficou nichado e popular. Na Santa Ifigênia, muitas das lojas sobrevivem pouco da rua e muito do online. A pandemia impôs essa mudança e hoje essa transformação está consolidada."

Zorzo afirma ter conseguido fazer essa migração, do físico para o digital, comercializando itens como TVs e notebooks - e 90% das vendas já vêm do online. Em seu perfil no Instagram, a loja acumula quase 50 mil seguidores e realiza live shops (transmissões de vídeo ao vivo) para apresentar, demonstrar e vender produtos em tempo real. Assim como ele, a maioria seguiu por esse caminho.

O papel da loja física

Apesar da migração em massa, ele diz que o comércio físico ainda tem seu valor na região. Em seu próprio negócio, que fica na esquina da rua Aurora com a Santa Ifigênia, ele diz organizar eventos para públicos segmentados, como o gamer, e assim agrega fluxo para o ponto de venda.

Zorzo destaca que a rua não perdeu a tração para serviços e reparos, um nicho que o e-commerce não substitui integralmente. Além disso, ele diz que muitos pontos físicos se tornaram uma espécie de loja conceito, essencial para a construção de marca, a criação de experiências e a fidelização de clientes, agregando valor ao produto.

Um bom exemplo de adaptação, segundo Zorzo, é o setor de iluminação, que se mantém forte por proporcionar uma experiência de compra diferenciada. Figurando entre as opções desse segmento no bairro, a história da família de Felipe Abduch, diretor administrativo da Santil, se confunde com a própria evolução da Santa Ifigênia.

Abduch conta que, antes mesmo de a loja de material elétrico se tornar uma referência na região, seu avô e seu bisavô já atuavam por lá com o comércio de tecidos. Foi na década de 1970 que seu pai percebeu uma mudança no perfil da rua, que na época era nichada em vestuário, e decidiu migrar para o segmento de eletrônicos e materiais elétricos. Há quase 50 anos a Santil ocupa o mesmo endereço. "Somos símbolo de permanência em um cenário urbano que enfrentou décadas de desafios profundos."

Ao analisar o movimento da região, Abduch reconhece que a Santa Ifigênia foi severamente prejudicada por duas décadas de publicidade negativa e sensação de insegurança devido à Cracolândia. "Muitas promessas foram feitas por diversos governos, mas nas duas últimas gestões municipais e no último governo estadual, vimos uma melhora significativa", afirma.

Para o empresário, o policiamento atual torna a região "mais segura que muitos bairros" e o estigma da Cracolândia, para ele, já é considerado um assunto superado. No entanto, Abduch destaca que o comportamento do consumidor mudou drasticamente. Atuando no digital desde meados de 2006, a Santil hoje vê as vendas a distância representarem 50% de seu faturamento, embora o e-commerce, de forma isolada, responda por apenas 12%.

"O Mercado Livre e os marketplaces reinam pelo acesso rápido. Essa transformação atingiu todos os polos comerciais, da Santa Ifigênia à Oscar Freire", diz.

Vislumbrando um varejo inevitavelmente híbrido, o empresário acredita que, no setor de material elétrico, a complexidade técnica de itens como disjuntores e quadros de luz exige o suporte de especialistas, algo que o atendimento físico e consultivo via WhatsApp proporciona.

Outra mudança que ele diz notar é que, se há 20 anos o lucro era medido pela metragem quadrada da loja, hoje a eficiência logística e o atendimento ágil são os verdadeiros diferenciais. "Para comprar online, o cliente quer saber se a loja física existe mesmo, pois se houver algum problema, isso faz toda a diferença na hora da compra e gera confiança", explica.

Sobre a vacância de imóveis no Centro, Abduch sinaliza que os valores de locação estão se ajustando à realidade imobiliária e vê com otimismo projetos como a transferência do Centro Administrativo do governo estadual para a região do Terminal Princesa Isabel. Segundo ele, essa movimentação deve resultar em um novo fluxo de pessoas e exigir uma maior diversidade de comércio - o que também pode mexer com a vocação do bairro.

Urbanismo

O problema da Cracolândia se agravou após a pandemia, com usuários de drogas concentrando-se por um longo período na região da Santa Ifigênia. Zorzo afirma que, embora a concentração tenha diminuído - chegou a reunir 4 mil usuários -, o desafio persiste. A região ainda enfrenta uma crise marcada pela perda de clientes e fechamento de lojas.

Por trás desse esvaziamento estão os aluguéis dos imóveis em alta, a falta de inovação e a sensação de insegurança trazida pelo deslocamento de dependentes químicos. Há dois anos, a região sofreu uma série de arrastões e a violência assustou comerciantes e clientes antes da intervenção do governo e o maior policiamento no Centro.

A solução, para o diretor da USI, passa por um projeto ambicioso que integra a superlocalização da Santa Ifigênia - a 30 minutos de qualquer ponto da capital, com trem e metrô - com a criação de um polo de inovação e um centro tecnológico. "É preciso um grande plano urbanístico que crie uma convergência para usar o equipamento público, como a ETEC, para ter startups e integrá-las com o comércio de rua."

Zorzo e a União Santa Ifigênia já apresentaram à Prefeitura e ao governo paulista um projeto de transformação para as 45 quadras da região. O objetivo é usar o comércio como agente de transformação sociocultural, gerando empregos e um impacto urbanístico positivo.

Apesar da queda no movimento de rua, da vacância de 40% dos imóveis e do forte aumento do IPTU, Zorzo mantém o otimismo e aposta que a região ganhará uma sobrevida nos próximos cinco anos com a ida da sede do governo para a região. Mas, para ele, a grande chance dessa zona comercial é a criação do polo de inovação. "Acredito ser possível sair da desgraça e ir para a roda da fortuna, mas é preciso um braço político para abraçar essa ideia."

Com duas propostas de revitalização para a região, a USI elaborou um plano com foco principal no fortalecimento do turismo de compras. O projeto “Nova Santa Ifigênia” vai oferecer oportunidades de trabalho para dependentes químicos que tenham se recuperado. Já a proposta “Muralha Virtual” prevê a utilização de câmeras de monitoramento nas oito principais entradas do bairro, além de outras 21 em locais de interesse em cruzamentos de vias públicas e 39 em fachadas de prédios particulares. Os planos estão em análise pela Prefeitura de São Paulo e pelo governo estadual.

Trabalho de formiga

A cafeteria Havanna surgiu como um contraponto ao ritmo frenético e, por vezes, rústico da região. O empreendimento nasceu da percepção de Cláudia Nagasawa, que trabalhou por mais de uma década na área administrativa de uma empresa local. Ela notou que, embora a Santa Ifigênia fosse frequentada por grandes empresários e famílias, faltava um espaço de "nível superior" para reuniões de negócios ou um local confortável onde esposas e acompanhantes pudessem aguardar enquanto as compras eram feitas.

Cláudia Nagasawa (ao centro) enxergou oportunidades na Santa Ifigênia e abriu um negócio que destoa do perfil do comércio local: uma unidade da cafeteria Havanna. A ideia foi oferecer ao público um respiro entre as compras de eletrônicos (Imagem: divulgação)

 

Os dez anos de experiência na região permitiram que enxergasse uma oportunidade quando um ponto ficou vago. Com um investimento de R$ 500 mil, ela inaugurou o espaço em 2021, em plena retomada pós-pandemia. O conceito foi desenhado para ter no térreo a venda rápida de alfajores e cafés; no segundo andar, um salão com 11 mesas preparado para receber o público diverso que circula pelas ruas da região.

Apesar do início promissor com uma equipe de seis funcionárias, o negócio enfrentou o peso da crise de segurança que atingiu o Centro da cidade. Cláudia relata que a repercussão negativa sobre a região foi devastadora para o faturamento, gerando uma queda de 60% no movimento em meados de 2022. "Muitas pessoas deixaram de vir por falta de tranquilidade, devido à comunicação negativa que se espalhou sobre a área", explica a empresária, que hoje vê o fluxo retornar de forma gradual.

Para o futuro, a visão de Cláudia é de otimismo resiliente. Ela destaca o "trabalho de formiguinha" realizado pelos lojistas e a importância da união da categoria com o poder público. Entre os sinais de melhora, ela cita o policiamento atual mais presente, o engajamento da Prefeitura com a realização de eventos e a instalação da nova sede administrativa do governo estadual na região.

Outro ponto celebrado pela empresária é a reforma das calçadas. Segundo ela, as vias estreitas faziam com que muitas lojas passassem despercebidas pelos pedestres. Com a ampliação e revitalização do passeio público, Cláudia acredita que a Santa Ifigênia recuperará sua força, unindo o tradicional comércio de tecnologia a uma experiência de consumo mais segura e acolhedora.

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IMAGEM: Edson Lopes Jr/Prefeitura de SP

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