Galeria Nova Barão, no Centro de SP, se transforma em 'galeria do vinil'
Nos últimos três anos, o local viu o número de lojas de disco triplicar e hoje abriga 45 comércios do ramo. A galeria virou reduto de colecionadores - alguns famosos, como o diretor Walter Salles, que aparece na foto ao lado de Flávio Cigano, da Medusa Records

No coração de São Paulo, entre as ruas Sete de Abril e Barão de Itapetinga, um movimento comercial vem transformando a vocação de uma das galerias da região da República que teve a sua história iniciada com comércio de pedras e joias. Há alguns anos, outra especialidade passou a tomar conta da Galeria Nova Barão: o disco de vinil.
Nos últimos três anos, o número de lojas temáticas quase triplicou no endereço e hoje o local abriga 45 lojas especializadas em discos. O espaço pode ser considerado um dos maiores redutos do colecionismo de alto nível no Brasil.
Em uma área muito conhecida e dominada por lojas de material fotográfico e de informática, a transformação da galeria em um hub de LPs não aconteceu por acaso. O casal Elaine e Flavio Cigano, da Medusa Records, foi um dos primeiros a apostar no local, há quase dez anos. Na época, a Nova Barão tinha duas ou três lojas de música, conta Cigano. Aos poucos, elas foram atraindo dezenas de outros lojistas do ramo. Cigano, que trocou a área de manutenção industrial pela paixão que nutre desde a adolescência, conta a evolução do mercado na galeria.
"Comecei alugando uma sala. No quarto ano, comprei a sala ao lado e me instalei. No ano seguinte, comprei outra para alugar ao meu principal concorrente", conta o empresário.
Para ele, o grande atrativo da Nova Barão está no modelo de venda, que não se define somente pela venda em si, mas em oferecer curadoria em um mercado em que o garimpo de sorte quase não existe mais. "O garimpo hoje está raro. Não se encontra mais um disco caríssimo em um bota-fora. Hoje o negócio é feito por contatos e conhecimento técnico", explica.
A ideia de um hobby nostálgico e barato também está ultrapassada. Cigano conta que, na Nova Barão, o perfil do público é segmentado: existe a "molecada do hype", atraída pela moda do analógico, mas o sustento vem do colecionismo pesado.
Figuras como o cineasta Walter Salles e o músico Ed Motta frequentam a loja de Cigano para descobertas e conversas que, segundo o lojista, duram horas. Itens como o álbum de Arthur Verocai, já vendido por US$ 5 mil, ou uma raridade de Zé Ramalho, avaliada em R$ 35 mil, aparecem nas prateleiras da Medusa.
Além disso, Cigano diz manter um acervo pessoal de 5 mil LPs em casa, tratados, segundo ele, "como filhos". Ocasionalmente, ele abre mão de alguns desses exemplares e fecha bons negócios.
Vanguarda cultural
Como lojista mais recente a ter se instalado na Nova Barão, Glauber Martins, sócio da Disco, avalia que, entre os retrofits de prédios históricos e a reforma dos calçadões, o Centro tem resgatado seu papel de vanguarda cultural. No térreo da galeria, a Disco é um misto de café e loja de discos que, segundo o empresário, personifica a transição do endereço, unindo a nostalgia do vinil com o dinamismo do consumo atual.
Em sociedade com Marcos Freitas e Renan Marques, a Disco abriu as portas na última semana de dezembro de 2025 com um investimento de R$ 400 mil. Glauber, que é DJ há 33 anos e frequentador do Centro desde a adolescência, viu na temática da galeria o local ideal para transformar sua paixão de vida em um modelo de negócio que segue tendências mundiais.
"Faço parte do momento atual, da nova leitura da Nova Barão. A Disco é a primeira loja de LPs do térreo e a primeira da galeria a ter um café, oferecendo uma experiência a mais para o público", afirma.
Segundo Galuber, o espaço foi planejado para ir além da venda de prateleira. Localizada em um imóvel locado, a estrutura da Disco se divide em três níveis: o térreo, onde funcionam a cafeteria e loja principal; o subsolo, com lounge de atendimento e um estúdio para curso de DJs; e o piso superior, onde ficam a cozinha e estoque.
Mercado Bilionário
Embora o mercado de vinil seja frequentemente associado ao passado, os números mostram uma realidade bilionária. Em 2025, o mercado fonográfico brasileiro faturou cerca de R$ 4 bilhões ao longo do ano - um crescimento de 14% em relação ao ano anterior, de acordo com o relatório anual da Pro-Música.
O Brasil ocupa o oitavo lugar no ranking dos maiores mercados musicais do mundo. O mesmo material mostra que as vendas de mídias físicas, ainda que representem apenas 1% do total de arrecadação, registraram alta de 25,6%, graças aos discos de vinil.
Ao comentar esses números, Glauber aponta que a curadoria da Disco reflete essa dualidade entre fenômenos atuais e os relançamentos de clássicos, apesar de o foco principal da loja ser o pop mundial. Ele diz que a alta procura por títulos de Taylor Swift, Ariana Grande, Madison Beer e The Weeknd é o grande destaque do negócio. Álbuns como o The Romantic, de Bruno Mars, esgotaram no dia do lançamento.
Ainda assim, os clássicos conseguem compreender um público bem diverso, de 12 a 80 anos, diz o empresário, que busca reprensagens de nomes como Pink Floyd e Queen, além de atrair colecionadores que haviam parado de comprar na década de 1990 e agora retornam ao formato físico.
Sobre o acervo, Glauber conta que a loja trabalha com importações legalizadas da Europa e Estados Unidos, trazendo desde edições standard (com alta tiragem), com preços que variam de R$ 200 a R$ 1 mil, até álbuns limitados e autografados.
Outro ponto destacado pelo empresário é a relação de proximidade que esse negócio costuma ter. No caso da Disco, mesmo com a digitalização, a loja aposta no atendimento personalizado. As vendas, que já atingem a marca de 250 discos por mês, são feitas presencialmente ou via WhatsApp e Instagram — sempre por humanos, sem o uso de bots. Uma forma, na opinião dele, de se criar vínculo, conhecer gostos, apresentar novidades e fidelizar a clientela.
O futuro da Nova Barão
A galeria Nova Barão, que está entre as ruas 7 de abril e a Barão de Itapetininga, foi inaugurada em 1962 com lojas, apartamentos e escritórios - e assim permanece até hoje. Em sua fachada, nas empenas das duas entradas, o artista gráfico italiano Bramante Buffoni criou dois murais com desenhos geométricos, que ainda estampam as estruturas de forma discreta.
Ao atravessar a galeria projetada pelos arquitetos e incorporadores Maria Bardelli e Ermanno Siffredi (os mesmos que fizeram a Galeria do Rock) é possível observar um bom exemplo de construção com uso misto - há dois andares de galerias, onde há bancos, fonte e comércio, um bloco só de escritórios e outro residencial, além das icônicas escadas rolantes originais.
Para Glauber, o Centro de São Paulo vive um momento de otimismo com a volta de grandes empresas e melhorias na infraestrutura urbana. No entanto, ele ressalta que o potencial da Nova Barão como reduto de colecionadores ainda pode ser melhor explorado.
"É difícil pensar em outro lugar no mundo em que haja essa cena. Precisamos de um marketing que nos transforme, definitivamente, na galeria dos discos, assim como existe a Galeria do Rock. O reduto já existe, agora o público precisa descobrir que ele está aqui."
Gerente predial da Nova Barão, Maurício Araujo conta que na época de sua inauguração, a galeria recebia, principalmente, lojas de joias, pedras naturais e ourives. Com o passar dos anos, salões de beleza também passaram a se instalar por ali. Ao longo dos anos, outras atividades, como bares e lojas de roupas, se juntaram ao comércio, até o surgimento da primeira loja de vinil, há 15 anos. De lá para cá, outros foram chegando e, nos últimos três anos, o número de lojas de vinil triplicou na galeria, ele conta.
Apesar do sucesso comercial, Mauricio diz que, assim como seus vizinhos, a Nova Barão enfrenta os desafios crônicos do Centro de São Paulo e sofre com os desafios urbanos e a gestão do espaço. Morando no local há 12 anos e há três como gerente, ele observa o movimento diário de clientes, trabalhadores e turistas que buscam a "Rua Alta" (como é chamado o segundo andar da galeria) e a praça do chafariz (onde há 15 anos já existiu um lago com carpas), e aponta as falhas do poder público.
Mauricio critica a demora nas obras de revitalização das ruas vizinhas, como a Marconi e a Dom José de Barros. "Parece uma escavação arqueológica. Quebraram tudo e não terminaram nada há três anos", lamenta. Ele destaca que, embora a sensação de segurança tenha melhorado com a presença da PM e da GCM, a zeladoria da Prefeitura ainda deixa a desejar.
Com 67 lojistas na "Rua Alta" e 88 no térreo, a galeria funciona de segunda a sexta, das 7h às 20h, e aos sábados até às 18h, e permanece fechada aos domingos e feriados.
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IMAGENS: Mariana Missiaggia/DC

