Irmãos Sarasá mantêm negócio de R$ 33 milhões para restaurar ícones de SP
Com mais de 20 anos de atuação em marcos como o Edifício Martinelli e o Museu do Ipiranga, Marcelo (esq.) e Toninho defendem que o futuro da arquitetura paulistana reside no retrofit social e no resgate das artes e ofícios

Para Toninho Sarasá, um dos nomes à frente do renomado Instituto Sarasá, um prédio histórico é muito mais do que um amontoado de cimento e tijolos: é um organismo vivo. Com uma trajetória ligada à manutenção do patrimônio paulistano, o Instituto é peça-chave na revitalização de ícones como o Edifício Martinelli, o Museu de Arte Sacra e a Pinacoteca.
Em entrevista ao Diário do Comércio, Toninho detalha como o trabalho de restauração evoluiu de uma técnica de conservação para uma ferramenta de ativação urbana e inclusão social. O desafio de resgatar prédios no Centro de São Paulo exige, segundo ele, um olhar que ultrapassa a materialidade.
"Quando assumimos um projeto no Centro, o desafio é o urbano. Entendemos não apenas a questão cultural, mas o que o prédio representa para a sociedade e como ele pode ser reativado por quem vive ali", explica.
Fundado há 68 anos, o Estúdio Sarasá é um dos principais nomes do setor de restauração arquitetônica no Brasil. A empresa teve início em 1956 com o trabalho autônomo do espanhol Gerardo Martin Sarasá, um aprendiz de restauração de azulejos que imigrou para o país e dedicou três décadas ao ofício.
Quando faleceu, em 1986, seus filhos Antônio (Toninho) e Marcelo assumiram as rédeas do negócio, elevando o estúdio ao patamar de referência nacional. Atualmente, a empresa mantém foco em projetos de azulejaria e vitrais de valor histórico, com faturamento de R$ 33 milhões ao ano e mantendo o Instituto Sarasá, uma organização voltada para a educação, pesquisa e fomento cultural.
Responsáveis por restauros de obras que seu pai realizou há décadas, Toninho e Marcelo usam os mesmos métodos em azulejos, vitrais e outros materiais. Com o tempo, a empresa cresceu e, embora seja referência, deixou de lidar apenas com bens históricos, passando também a prestar serviços, além de manter um escritório na via Anchieta.
Ao comentar sobre os restauros feitos pelo estúdio, Toninho explica que a restauração precisa equilibrar a nostalgia de décadas passadas com as demandas do século XXI. O grande desafio, ele diz, está em conceber um prédio vivo que deixa de ter só a dimensão física e ganha a análise de 'sangue e suor' em um contexto social. Toda essa história ajuda a restaurar um equipamento, diz.
Tamanha adaptação envolve modernizar infraestruturas invisíveis, mas vitais: elétrica, banheiros e iluminação, garantindo a acessibilidade sem ferir a autenticidade, ele explica. Exemplos bem-sucedidos dessa simbiose são a Casa das Rosas e o Casarão Nhonhô Magalhães, que hoje servem ao público contemporâneo com total funcionalidade.
Nas últimas décadas, Toninho conta que o Instituto Sarasá tornou-se uma espécie de "grife" para construtoras que buscam o retrofit no Centro. Toda essa bagagem mostrou ao especialista que não basta ocupar espaços vazios - é preciso potencializar o que já existe, como a ventilação cruzada e as texturas das massas raspadas, trazendo a "linguagem do ser humano" de volta aos processos.
Em sua opinião, a reocupação residencial é vista como essencial para manter o Centro vivo. Colaborações com a Fábrica de Bares (responsável pelo Bar Brahma e Astor) visam recuperar o uso social de prédios históricos, o uso misto que proporciona a convivência entre o morar e o comércio, a preservação de atividades com poder social que podem perder o brilho ao longo do tempo, como sapateiros e bares, e a cultura, que, na visão de Toninho, pode salvar os centros históricos da degradação.
"A arquitetura é uma extensão do corpo humano — a soleira, o peitoral da janela, a ombreira da porta, tudo é pensado tendo o ser humano como referência. Não tem como esquecer o social", afirma.
Uma escola de artes e ofícios
Um dos grandes sonhos de Toninho é a criação de uma Escola de Restauradores, que tem sido materializada em parceria com movimentos como o Bairro Novo e o Viva o Centro. O objetivo é reativar práticas artesanais que correm o risco de desaparecer.
"Queremos reativar a prática de trabalhar com a madeira que, mesmo morta, ganha vida com óleos vegetais; resgatar o trabalho com ferro e vitrais. É dar formação a pessoas em artes e ofícios com valor simbólico, muito além do simples manuseio de gesso."
Além do restauro, o instituto investe em pesquisa internacional. Em colaboração com a Politécnica da Espanha e a Universidade do México, estuda o reaproveitamento de materiais e o entendimento do ciclo de vida das edificações.
O objetivo é garantir que as futuras gerações tenham uma reserva de conhecimento e materiais para trabalhar com a pré-existência de forma sustentável, preservando árvores ao restaurar esquadrias antigas.
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IMAGEM: divulgação
