3 propostas que podem mexer com a economia do Centro de SP

Em reunião na ACSP, o ex-ministro Henrique Meirelles e lideranças da Viva o Centro defenderam uma revitalização que aposta na tecnologia, na formação de jovens em situação de risco, com a nova Escola de Restauradores, e no lançamento de um fórum inédito de investimentos

Mariana Missiaggia
19/Mar/2026
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3 propostas que podem mexer com a economia do Centro de SP

Imagine Nova Iorque sem o vigor de Wall Street ou Paris assistindo ao esvaziamento da Champs-Élysées? Foi a partir dessa reflexão que Henrique Meirelles, ex-ministro da Fazenda, deu início à sua participação na reunião de quarta-feira (18) do Conselho de Política Urbana (CPU) da Associação Comercial de São Paulo (ACSP).

Ao atribuir o esvaziamento do Centro de São Paulo não apenas a um problema urbanístico, mas também como resultado de uma crise de identidade, o economista pontuou que o resgate do aspecto histórico e cultural é o alicerce fundamental para qualquer plano de revitalização. Para ele, o Centro de São Paulo detém um valor simbólico que centros financeiros mais recentes, como a Avenida Paulista ou a Faria Lima, não conseguem replicar. "É a alma histórica que define uma metrópole global."

Além do simbolismo, para Meirelles, a requalificação do Centro de São Paulo apresenta-se como uma solução pragmática para o caos logístico da capital. O ex-ministro observou que o deslocamento em massa para novos polos corporativos gerou um modelo de transporte inviável, em que o metrô e as vias de acesso não dão conta da demanda, resultando em engarrafamentos crônicos.

Em contraste, ele apontou que o centro histórico oferece a vantagem da caminhabilidade, sendo possível resolver a vida a pé. Com conexões estratégicas via Radial Leste e 23 de Maio, a região surge como a alternativa logística mais eficiente para empresas e para o Estado, desde que receba a manutenção adequada, disse o ex-ministro.

Fundador e presidente de honra vitalício da Associação Viva o Centro de São Paulo, Meirelles recordou como a união entre iniciativa privada e o projeto "Viva o Centro" transformou a região em patrimônio. O exemplo mais emblemático para Meirelles é a Sala São Paulo, que foi identificada por especialistas em acústica como um tesouro comparável às melhores salas de concerto do mundo.

"No final da década de 1990, tive uma reunião com dirigentes de uma empresa de acústica e eles me perguntaram o que poderiam visitar em São Paulo, então indiquei a Estão Júlio Prestes. Durante a visita, um deles notou que a acústica e arquitetura do prédio (hoje, a Sala São Paulo) poderiam ser comparadas a renomadas salas de concerto como a Symphony Hall de Boston e a Concertgebouw de Amsterdã", disse.

Meirelles contou que, nesse resgate, a Viva o Centro participou ativamente da reativação daquilo que veio a se tornar a Sala São Paulo, em 1999, em um projeto que uniu modificações temporárias a ações de recuperação definitiva.

Atual presidente da Associação Viva o Centro, Edison Nassif Farah também participou do encontro e destacou a colaboração entre o poder público e a iniciativa privada a fim de promover a reocupação qualificada do centro histórico. Ao reforçar a tese de que o Centro possui uma infraestrutura logística e cultural que precisa ser melhor "vendida" aos setores corporativo e financeiro, Farah pontuou que sua gestão na Viva o Centro busca resgatar a zeladoria urbana e a segurança jurídica para que o investidor privado volte a ver potencial no triângulo histórico e arredores.

1 - Tech Hub

Na tentativa de superar a ideia do Centro como um conjunto de monumentos degradados e um ativo econômico subutilizado, Farah defende que a recuperação da região depende de três pilares: Parcerias Público-Privadas (PPPs), segurança jurídica e incentivos, além de mix de uso.

Na contramão de definir a região com uma única vocação, ele defende que o Centro precisa de habitação, comércio, serviços e tecnologia para atrair interesse. Nesse contexto, ele citou a ideia do Tech Hub como uma oportunidade para ocupar os grandes edifícios vazios e gerar empregos qualificados.

A Estratégia do Tech Hub, segundo Farah, estaria focada em aproveitamento de infraestrutura promovendo a ideia de transformar edifícios históricos em centros de processamento de dados e escritórios de inovação. Seria um novo ecossistema com o objetivo de atrair startups e empresas de tecnologia (fintechs e edtechs) para aproveitar a proximidade com o setor bancário do Triângulo Histórico. Também colocou em pauta a criação de um "Distrito de Inovação", criado a partir de benefícios fiscais (como redução de ISS), para empresas de base tecnológica que se instalassem na região, nos moldes do que foi feito em cidades como Barcelona e Medellín.

"Temos que mudar a narrativa do Centro como problema para um centro de oportunidade de negócios. Acredito no Tech Hub para garantir que a região central não seja apenas um museu, mas um motor econômico ativo."

2 - Escola de Restauradores

Outra iniciativa da Viva o Centro, em parceria com a Associação Bairro Vivo, propõe um reforço ao processo de revitalização do Centro, unindo preservação histórica e impacto social por meio da criação de uma Escola de Restauradores.

O projeto busca formar mão de obra especializada para atuar na recuperação da arquitetura paulistana e prevê a criação de curso técnico com 800 horas ano. Uma das premissas do curso, segundo o Coordenador da Viva o Centro, é o foco na permanência estudantil: todos os 60 alunos previstos no curso técnico serão bolsistas e a ideia é que recebam bolsa de um salário-mínimo para poderem se manter durante todo o curso.

O público-alvo prioritário são jovens entre 18 e 21 anos em situação de risco social, ou nomes indicados por parceiros do projeto, com foco na inserção no primeiro emprego. A escola ainda oferecerá oficinas e cursos de capacitação para o restauro pretendendo atingir 3 mil participantes ano.

A Escola está em fase de captação de recursos via Lei Rouanet, com um teto aprovado de R$ 42 milhões em um plano plurianual de quatro anos. A Coordenação acadêmica estará a cargo do Instituto Sarasá. Dentro dessa sinergia, será utilizada a sede do Instituto na Vila Prudente, onde serão destinados 1,6 mil metros para essa formação técnica. As aulas serão práticas e o foco será o centro de São Paulo.

3 - Fórum de Desenvolvimento

Presente na reunião, Alessandra Andrade, presidente da SP Negócios, apontou que a revitalização do Centro de São Paulo exige boas intenções urbanísticas e, sobretudo, um ecossistema financeiro robusto e organizado. Por essa razão, a presidente da SP Negócios diz ter em pauta algo novo envolvendo planejamento estratégico.

De acordo com Alessandra, a agência está estruturando um fórum de investimentos inédito para a região central, e a expectativa seria lançá-lo no segundo semestre de 2026. O objetivo é criar uma plataforma que mapeie todos os investimentos já em curso na região e conectar fundos de investimento a incorporadores privados.

"O Centro é um projeto extremamente importante e precisamos de recursos para sustentar essa transformação. O fórum será o elo para aportar capital nos prédios que estão nascendo e consolidar o novo eixo econômico da cidade", afirma Alessandra.

O projeto em discussão na SP Negócios, segundo Alessandra, pretende transformar a região em um catálogo vivo de oportunidades para o mercado imobiliário e de serviços. Ao trazer investidores privados e fundos de pensão, a iniciativa busca dar escala aos projetos de retrofit e a novas edificações, garantindo que o fluxo de capital acompanhe a demanda por habitação e escritórios modernos.

Segundo Alessandra, o mapeamento detalhado do que já está acontecendo no território é o primeiro passo para gerar confiança e atrair novos aportes, posicionando o Centro não apenas como um patrimônio histórico, mas como o destino mais estratégico para investimentos de alto impacto na capital paulista.

Na reunião do CPU, compuseram a mesa, além dos palestrantes, Roberto Mateus Ordine, presidente da ACSP, Antonio Carlos Pela, vice-presidente da ACSP e coordenador do CPU, Marcos Nascimento, vice-presidente da ACSP, e Milton Santos, presidente da ACCredito.

 

IMAGEM: Cesar Bruneli/ACSP

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