Porto Digital de Recife poderia inspirar revitalização do Centro de São Paulo
Criado para reter talentos e atrair empresas de tecnologia, o empreendimento transformou o centro histórico de Recife em um polo de inovação

Na década de 1990, o centro histórico de Recife viu diversas indústrias e profissionais, principalmente da área de tecnologia da informação, deixarem a cidade rumo a São Paulo e ao Rio de Janeiro, evidenciando a perda de atratividade da região. Nesse contexto surgiu o Porto Digital, projeto criado para estimular a instalação de empresas de tecnologia e reter talentos na cidade.
O projeto, que se tornou um cluster global de inovação, foi apresentado como um case de sucesso durante reunião do Conselho de Inovação da Associação Comercial de São Paulo (CONIN) e do Pateo 76, realizada na última quinta-feira (12). O encontro contou com a participação de Tito Hollanda, presidente do CONIN; Claudio Marinho, diretor da Porto Marinho; Francisco Saboya, conselheiro do Sebrae e do Porto Digital; Alfredo Cotait, presidente da CACB e da Facesp; e Roberto Ordine, presidente da ACSP.
Localizado no centro histórico de Recife, o Porto Digital começou com apenas duas empresas e hoje reúne cerca de 500 companhias instaladas no parque tecnológico. O polo registra faturamento superior a R$ 6 bilhões, emprega mais de 21 mil pessoas e soma mais de 220 mil metros quadrados de imóveis retrofitados. Entre as empresas presentes estão Acumuladores Moura S.A., do Grupo Moura, Bradesco, Banco do Brasil e Deloitte.
O Porto Digital é resultado da união entre empresários, setor público e academia. Para consolidar a infraestrutura, o governo de Pernambuco investiu R$ 33 milhões, enquanto empresas de telecomunicações aportaram R$ 1 milhão e companhias privadas contribuíram com R$ 10 milhões. A iniciativa deu origem ao Núcleo de Gestão do Porto Digital (NGPD), responsável pela administração do projeto e formado por um conselho com 19 integrantes, entre representantes empresariais, do governo, universidades e especialistas.
De acordo com Marinho, além de atrair empresas de tecnologia, o projeto ajudou a revitalizar o centro histórico de Recife, impulsionando o mercado imobiliário e estimulando a abertura de restaurantes, hotéis e empreendimentos residenciais. Entre eles estão o Novotel Marina do Cais de Santa Rita, Apolo 181 e o YOLO Coliving, voltado para moradias de curta temporada. A região reúne hoje 113 estabelecimentos, entre bares, restaurantes e espaços culturais, a poucos minutos de caminhada.
Para o especialista, um dos fatores determinantes para o sucesso do Porto Digital é a proximidade entre trabalho, serviços e moradia, com deslocamentos curtos, de cerca de cinco minutos. Outro ponto é o valor cultural da área, já que o centro histórico tem forte ligação com a origem da cidade, o que ajudou a atrair empresas e organizações para a região.
O Porto Digital é aberto a empresas interessadas em instalar centros de tecnologia, mediante aluguel de imóveis cujos valores variam conforme o metro quadrado.
Segundo Saboya, um dos aprendizados do projeto foi compreender que a sociedade deixou de ter uma lógica industrial para se tornar intensiva em serviços. “Hoje, o cliente tem acesso a diversas informações e está mais preparado para tomar decisões. Antes, a oferta era empurrada ao consumidor; agora, a demanda é puxada pelo mercado”, afirma.
“Nesse cenário, identificamos um problema: muitas empresas estão digitalizando processos analógicos, inadequados aos novos tempos, o que reduz a competitividade”, diz. Para ele, as organizações precisam adotar estratégias digitais de negócios e atuar em ecossistemas colaborativos.
Nesse contexto, as cidades também precisam acompanhar essa transformação. Para atrair empresas, não basta boa localização ou recursos naturais: é necessário oferecer inovação e mão de obra qualificada.
“Cidades competitivas são aquelas que atraem pessoas de dentro e de fora, conectadas ao desenvolvimento de negócios, eficientes na oferta de serviços e infraestrutura e que são socialmente justas”, afirma Saboya.
São Paulo
Na avaliação de Marinho, investir em um setor que tenha relação com o objetivo da região é fundamental para revitalizar centros históricos. “Existe uma tendência de apostar no turismo nos centros urbanos, mas nenhuma cidade brasileira conhecida por essa atividade, como Rio de Janeiro ou Maceió, tem mais de 3% da massa salarial ligada a empregos formais em hotéis e restaurantes. A exceção é Gramado, com 28%. O turismo sozinho não resolverá o problema do centro histórico de São Paulo”, diz.
Para ele, três áreas da capital paulista têm potencial de revitalização. A primeira é a região da Praça Princesa Isabel, onde será instalado o novo Centro Administrativo do Governo de São Paulo, que pretende concentrar as secretarias estaduais em um único local.
Outra área é o entorno do edifício Copan, que já apresenta um movimento espontâneo de revitalização comunitária. A terceira é a Rua Boa Vista, próxima a edifícios históricos como o Pateo do Colégio e a Casa de Francisca.
Segundo Marinho, atrair moradias e empresas para o centro é essencial, já que hoje muitos empregos estão concentrados em regiões como Paulista e Berrini.
Inspirado no modelo do Porto Digital, ele defende a criação de polos de empregos de alta qualificação na região central, o que pode estimular novos projetos habitacionais e fortalecer o mercado imobiliário.
IMAGEM: divulgação
