Mulheres ocupam 16% dos assentos em conselhos de administração. Como aumentar o número?

Sonia Consiglio lança livro que, entre outros temas, trata de barreiras que ainda impedem o avanço feminino no mundo corporativo

Melina Dias
13/Mai/2026
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Mulheres ocupam 16% dos assentos em conselhos de administração. Como aumentar o número?

Em um cenário em que os Conselhos de Administração ganham relevância estratégica, cresce também a atenção sobre quem ocupa essas cadeiras e o desejo de se chegar a essa posição. No Brasil, mulheres representam cerca de 16% dos assentos em conselhos, aponta levantamento do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC) de 2025, um dado que ajuda a dimensionar o perfil de quem participa dessas instâncias de decisão.

Foi a partir de uma mudança inesperada na própria trajetória que Sonia Consiglio passou a olhar para esse universo. Depois de décadas no mundo corporativo, precisou rever caminhos e tomar decisões em um momento de incerteza, processo que deu origem ao livro "De Executiva a Conselheira – Você também pode!", (Editora Heloisa Belluzzo). O lançamento está marcado para essa quarta-feira, dia 13/05, às 19h, na Livraria da Travessa do Shopping Iguatemi (avenida Brigadeiro Faria Lima, 2232, São Paulo, Capital).

A autora falou com exclusividade ao Diário do Comércio sobre como sua mais recente obra pode inspirar mulheres empreendedoras. Sonia Consiglio atua com Sustentabilidade/ESG, Comunicação e Investimento Social Privado há mais de três décadas. É conselheira de Administração, membro de comitês de Sustentabilidade, articulista, palestrante, professora e comunicadora.

Foi reconhecida em 2016 pelo Pacto Global da ONU como SDG Pioneer, ou seja, uma das dez pessoas do mundo que trabalham pelo avanço dos ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável), sendo a primeira mulher brasileira a receber o título de 'Pioneira'.

Além do relato pessoal, o livro pretende ser um guia prático para profissionais, especialmente mulheres, que enfrentam o desafio de recalcular a rota. Sonia parte da pergunta 'Quem sou eu sem um sobrenome corporativo?' para discutir reposicionamento, tomada de decisão e construção de identidade ao longo da carreira.

“O livro é sobre liderança feminina e legado. Quero deixar algo de mim para quem o ler. Escrevo o que gostaria de ter lido quando fiz minha transição de carreira”, afirma.

Com experiências e dicas, a obra expõe os bastidores de uma mudança ainda pouco discutida no ambiente corporativo - a passagem do fazer para o orientar e decidir estrategicamente -, e seus impactos na forma como profissionais se posicionam.

A autora reforça que essa construção não deve estar atrelada apenas aos cargos ocupados, mas à consistência do repertório, dos valores e das decisões, e encerra o livro com "Dicas de Ouro” de 55 conselheiras que atuam em colegiados de grandes empresas do país.

É um convite à reflexão sobre encerramentos de ciclos, tomada de decisão e caminhos para quem busca reposicionar sua atuação profissional e ampliar a presença feminina nos espaços de poder e influência. Confira a entrevista a seguir:


Diário do Comércio - Quais foram os principais obstáculos percebidos na sua trajetória que tiveram de ser demolidos sob o viés feminino?

Sonia Consiglio - Eu gosto de falar em desafios. O principal desafio é a inteligência emocional. No meio corporativo, profissional, você tem de ter uma grande leitura de cenários porque não é só sobre o trabalho em si; fazer o trabalho é a parte mais simples. Você tem de se relacionar com as pessoas, conseguir entender as dinâmicas que estão permeando o ambiente onde você está, o perfil das pessoas.

Muitas vezes você tem um objetivo, mas terá de dar um passo para o lado e articular com outras pessoas. Tem todo um jogo político importante a ser feito na carreira profissional, e para isso você tem de ter inteligência emocional, ser uma pessoa com percepção porque você vai ter de lidar com frustração e decepção. Por isso, o principal desafio na minha trajetória sempre foi conseguir entender o cenário, o ambiente, o momento e, principalmente, as pessoas envolvidas, o que as sensibilizava, o que as impedia de poder me apoiar em determinado projeto, como é que eu poderia fazer uma articulação diferente para conseguir trazer estas pessoas para o meu lado.

As relações são sempre o principal desafio. Isso não tem necessariamente a ver com o gênero, isso independe de gênero, porém, as mulheres, sem dúvida, lidam bem com a intuição e sensibilidade, não que o homem não as tenha, mas esta inclinação natural acaba favorecendo as mulheres neste desafio dos relacionamentos.


Qual a sua visão em relação aos desafios da mulher que deseja empreender?

Sonia - Acho que aqui tem uma questão de macrocenário do país, porque há períodos mais favoráveis e é importante se atentar a estes movimentos. Mas, principalmente, é uma questão de organização. É preciso fazer uma pesquisa de mercado importante, ver se há espaço para a atividade que a pessoa deseja empreender, fazer todos os estudos que um curso, um guia de empreendedorismo traz.

Mas talvez a reflexão mais importante seja se essa mulher tem o perfil empreendedor. Há competências que se espera de quem deseja empreender, tais como resiliência, persistência, foco e disciplina. Vale uma reflexão profunda.


Sobre assédio moral e assédios em geral no ambiente de trabalho, você teria algum conselho para dar em busca de ambientes mais saudáveis?

Sonia - Muitas vezes acontecem situações e a gente não percebe. Isso já aconteceu comigo ao longo da minha carreira, duas ou três vezes, fatos que não chegaram a ser assédio, mas fatos de viés inconsciente, em que fui preterida em relação ao homem, seja no aumento de salário ou tratamento durante uma reunião, por ser mulher. Eu já senti isso na minha carreira e percebi que isso, geralmente, não era deliberado, de propósito, e que na maioria das vezes eram vieses inconscientes mesmo, condicionamentos.

Então, o primeiro conselho é para a gente ficar atenta e consciente destas realidades para que estes fatos não passem batido. E ainda bem que hoje a gente tem um cenário no mundo, na sociedade, em que a gente fala sobre isso. Na época em que comecei na minha carreira não se falava em assédio moral, não se falava sobre essas coisas. O que aconselho é não se calar se algo acontecer, mas, claro, procurar os canais mais adequados, como Recursos Humanos, e no caso de uma empreendedora, uma entidade de classe, por exemplo.

Devemos buscar a justiça e o diálogo. Pode ser uma oportunidade para a gente ajudar, sempre que possível, o outro a evoluir, para construir uma sociedade mais humana, com relações mais respeitosas. 


Você é especialista em sustentabilidade. Em que momento estamos nesse quesito? É possível um mundo mais sustentável tanto em grandes empresas quanto no nosso dia a dia e dos micro e pequenos empreendedores?

Sonia - Para mim, sustentabilidade é transformação de modelo de mundo. É assim que eu defino, ou seja, um mundo que ainda é predominantemente econômico, financeiro, mas que caminha para um modelo em que questões sociais, ambientais e de governança tenham o mesmo peso nos negócios, no comportamento no consumo, que os fatores econômicos. Assim como foi a Revolução Industrial lá atrás, assim como foi quando surgiram os conceitos relacionados à qualidade total, em que trouxeram uma série de conteúdos novos, que a gente aprendeu, absorveu e hoje fazem parte de qualquer produto e serviço. Estamos em um momento bastante avançado nestas questões.

Essa não é uma jornada que começou agora, e hoje não há empresa pequena, média ou grande que não olhe para as questões de sustentabilidade em maior ou menor grau, porque se tornou uma questão de competitividade. Isso é importante dizer. Jovens talentos escolhem suas empresas a partir também desta agenda. Investidores estão olhando mais empresas com estas práticas para poderem direcionar recursos, novas legislações vêm surgindo, seja no Brasil ou na Europa. Se você é um empreendedor e seu negócio começa a crescer, e você começa a fazer negócios com outros mercados internacionais, alguns deles, principalmente Europa, pedem critérios socioambientais em suas atividades.

Então, também é uma questão que passa por poder competir neste meio. É claro que ela sofre os impactos de questões macro: quando se tem uma guerra, o impacto é em questões de energia, tem questões geopolíticas muito fortes. Claro que tudo isso faz diminuir o ritmo das atividades.

O lançamento do livro de Sonia está marcado para essa quarta-feira, dia 13/05, às 19h, na Livraria da Travessa do Shopping Iguatemi

 

E como isso se insere na realidade do MEI, das micro e pequenas empresas?

Sonia - É muito importante dizer que esta agenda também é para os pequenos empreendedores, porque, no fundo, a gente está falando sobre como questões sociais e ambientais podem ser aplicadas no nosso negócio. Essa é a resposta que tem de ser buscada. Quando a gente fala de economia de energia, eu vou trocar ali no meu pequeno estabelecimento comercial as lâmpadas por lâmpadas mais eficientes energeticamente. 

Isso é economia, sustentabilidade. Quando a empresa fala em contratar fornecedores locais, e a gente está falando de pequenos fornecedores, pequenos empreendedores trabalhando para grandes empresas, essa é uma prática dentro de uma lógica de empoderamento de negócios locais, que passa por toda a questão de sustentabilidade. Não é uma agenda só de grandes empresas porque passa por estratégia e visão, e isso serve para empresas como para uma pessoa ou para uma multinacional.

 

Qual o seu conselho principal para quem deseja mudar de carreira, abrir um negócio, alcançar uma promoção ou se tornar conselheira?

Sonia - É buscar autoconhecimento. Fazer uma reflexão profunda sobre suas competências, os seus valores, os seus desejos, o seu perfil. Você tem perfil para ser conselheira? Você tem competências para ser uma empreendedora? Esse autoconhecimento guia todos os seus passos. A partir daí, se fortalecer suas competências, desenhar, mapear os pontos fortes e o que precisa desenvolver, você estará mais preparada para atuar.

Porque, no fim, é importante deitar a cabeça no travesseiro e estar feliz. Acordar de manhã e poder realizar uma atividade de que gosta. E a gente só vai fazer isso se a gente tiver um conhecimento profundo de quem somos e do que podemos realizar dentro desta atividade que a gente escolheu.


Você escreve que a transição para os conselhos exige competências diferentes da carreira executiva. Qual foi a habilidade mais difícil de desenvolver nesse processo?

Sonia - Primeiro, a principal diferença quando você se torna conselheira é que você olha a empresa não do ponto de vista da execução. Você não está mais na linha de frente, você não está operando, você não está desenvolvendo planos na prática. Você olha mais do ponto de vista estratégico, de rumos, de direção, de orientação macro, de longo prazo, então, o papel de conselheira tem outra perspectiva. E a habilidade mais difícil é relacionada a isso. A pessoa tem de ter o perfil. Tem pessoas que são muito boas e gostam de executar, fazer e acontecer. Se a pessoa for assim, gostar de fazer projetos, fazer planos, gerir equipes, ela não será uma boa conselheira. Voltamos ao autoconhecimento.

Eu não diria que é a atividade mais difícil porque, quando você passa a ser demandada na perspectiva de conselho, é desafiador porque é novo. Você tem que ter leituras de cenários mais amplos da empresa, você tem de olhar todas as temáticas. 

 

Dê um exemplo.

Sonia - Eu sou especialista em sustentabilidade, mas, uma vez que eu ocupo uma cadeira no conselho, eu sou chamada a opinar em demonstrações financeiras, em matriz de risco, em gestão de pessoas... Então, você tem de ter uma visão mais ampla de todos os temas daquela companhia. Isso, sim, é um desafio importante a se desenvolver. Uma habilidade de ver o negócio como um todo, de estudar o que você não conhece e adquirir mais habilidade naquilo. Isso, sem dúvida nenhuma, é a perspectiva que tem que ser olhada.

Além disso, sem dúvida nenhuma, habilidade de relacionamento, porque em um conselho as decisões são colegiadas e idealmente em consenso. Você tem de saber ouvir, saber a hora de se calar. A pior coisa que um conselheiro pode querer fazer é falar sobre tudo, opinar sobre tudo, monopolizar uma reunião. Não é isso que se espera de um bom conselheiro. Espera-se, sim, uma pessoa que emita uma opinião na hora em que ela for importante. O ponto vai ser decisivo. Essa habilidade, que volta ao autoconhecimento, de perceber que, na hora em que você não precisa falar sua opinião porque alguém já expressou e você concorda com aquilo, e aquele ponto está colocado.

A habilidade do conjunto.  A habilidade de perceber que o “nós” é mais importante do que o “eu” quando você está em um conselho. Aí entram todas as habilidades de relacionamento, de entender diferentes perfis, de poder compor dentro disso. E também tem a ver com inteligência emocional. É isso: visão ampla, perspectiva de todas as temáticas da empresa, do ponto de vista estratégico e não operacional, habilidades de relacionamento e de leitura de cenários.

 

Em um ambiente em que apenas 16% das cadeiras em conselhos são ocupadas por mulheres, quais barreiras invisíveis ainda impedem esse avanço feminino?

Sonia - São muitas barreiras ainda, porque elas são históricas e estruturais. A gente aprendeu ao longo dos séculos a achar que o poder estava no masculino, no homem, na decisão. Existem vieses inconscientes que só o tempo vai derrubar, de que sim, a mulher é capaz de tomar uma boa decisão, ela também pode ter poder, mas de um jeito diferente do homem. Não tem certo e errado. A mulher, muitas vezes, tem outras características, não menos importantes. Ela não é menos assertiva por ser menos
impositiva, por exemplo. Enfim, acho que uma barreira é essa histórica de como a sociedade se desenhou ao longo do tempo, que é uma sociedade que olha o masculino como fonte de poder, o provedor do lar, tudo isso que não é mais realidade, mas que segue escondidinho no nosso inconsciente e, quando a gente vai para um ambiente como Conselhos, de decisões importantes e
estratégicas, pode ser que ainda quem contrate conselheiros possa pensar que precisa muito mais de um homem nessa posição do que de uma mulher.

 

O livro parte da pergunta “quem sou eu sem um sobrenome corporativo?”. Em que momento essa reflexão se tornou inevitável para você?

Sonia  - Essa reflexão “quem sou eu sem o sobrenome corporativo” surge justamente quando combino a transição, o encerramento do meu ciclo na Bolsa de Valores, e me vejo apenas com uma atividade, em que eu era membro de um comitê que assessorava o conselho da Petrobras e ia ter de começar a desenvolver essa nova carreira. Eu já tinha o plano. Mas, como eu falo no livro, aconteceu antes essa transição, pelo menos dois anos antes do que eu pretendia. Daqui a alguns meses, seis meses, eu ia ser a Sonia, não mais da Bolsa... Essa é uma pergunta estrutural, essencial, porque eu acho que a gente tem de se fazer esta pergunta ao longo da carreira executiva. E, de uma certa forma, eu fazia porque eu tinha muita clareza, por exemplo: quando perguntavam 'podemos fazer uma reunião na sua sala?' Eu respondia 'a sala não é minha, é da Bolsa, mas podemos fazer'. Eu sempre procurei ter uma noção de que aquela estrutura, aqueles benefícios que eu tinha enquanto executiva eram uma questão porque eu estava naquela empresa. Essa pergunta vem efetivamente quando percebo que vou iniciar uma outra carreira. Então, a minha sugestão é fazer esta pergunta enquanto ainda está na cadeira de executiva para que esta transição aconteça da melhor forma possível.

 

Muitas profissionais vivem transições de carreira não planejadas. Como transformar uma ruptura profissional em oportunidade de reinvenção?

Sonia - Esse foi exatamente o meu caso. A transição de carreira não estava planejada para aquele momento. Ela estava, sim, pré-planejada para pelo menos dois anos adiante. Ela aconteceu antes. E como é que eu me reinventei? Eu fui entender quem eu era sem o sobrenome corporativo. Quais são as minhas competências? O que eu faço bem? O que eu desenvolvi ao longo da minha carreira inteira? Onde as pessoas veem valor? Onde posso fazer diferença? Todas essas perguntas me ajudaram a entender que sim, eu era muito mais que um crachá, muito mais que um sobrenome corporativo. Eu só precisava construir este novo caminho. E aí eu tracei uma estratégia: eu construí um perfil em redes sociais, fiz contatos e fui dando os passos que conto no livro para poder me reinventar e construir um novo momento de carreira. Eu acho que a transformação desta ruptura profissional em oportunidade de reinvenção passa por perceber que você é importante, independentemente daquela empresa. A opinião do outro não te define. Eu falo isso no livro. Você tem que se conhecer, se valorizar e se planejar para buscar um outro caminho e, principalmente, saber bem o que você gosta, o que vai te realizar, aproveitar esta oportunidade de encerramento de ciclo e início de outro para realmente fazer aquilo que vai te dar realização. Acreditar que você pode.

 

Ao reunir “Dicas de Ouro” de 55 conselheiras, houve algum conselho ou aprendizado que especialmente a surpreendeu ou mudou sua própria visão sobre liderança?

Sonia - Impossível destacar uma ou outra dica. Mas o que me chamou a atenção foi a generosidade das 55 conselheiras em compartilhar ali o seu conselho, a sua preocupação de que o conselho era relevante. Algumas me mandaram duas ou três dicas, a preocupação em ajudar a outra, em trazer um conteúdo realmente relevante para quem vai ler o livro. São mulheres altamente competentes. São as principais conselheiras do Brasil. São mulheres que eu admiro, não só pela competência, mas pelo caráter. O mais importante, além da competência, é como a pessoa se comporta, quais são os valores. Elas foram generosas, preocupadas em realmente fazer a diferença. Eu só tenho a agradecer a cada uma delas por essa entrega e por fazerem parte do Executiva a Conselheira - Você também Pode! para a gente mostrar para todo mundo que ler o livro que você também pode!

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