O aperto continua: Selic sobe pela quinta vez e vai a 13,25% ao ano
A inflação resistente foi decisiva para o aumento da taxa básica de juros em 0,50 ponto percentual. Alencar Burti, presidente da Facesp e da ACSP, qualificou decisão de equivocada

Em decisão unânime, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) decidiu aumentar a taxa básica de juros da economia em 0,50 ponto percentual (p.p.) - ou seja, a mesma dose de elevação dada em março. A Selic saltou para 13,25% ao ano e teve sua quinta alta consecutiva na reunião desta quarta-feira (29/4).
Apesar da alta da inflação, "a decisão do Copom de elevar novamente a Selic foi equivocada, porque o impacto dos aumentos anteriores da taxa ainda não se fizeram sentir integralmente sobre a economia. Além disso, todos os indicadores da atividade econômica, da produção industrial, das vendas do varejo e do desempenho dos serviços mostram sensível desaceleração”, afirma Alencar Burti, presidente da Facesp (Federação das Associações Comerciais do Estado de São Paulo) e da ACSP (Associação Comercial de São Paulo).
Ele chama a atenção para os fatores agravantes e para a situação a que pode chegar a economia brasileira. “O quadro atual é agravado pelo aumento do desemprego, pela redução da renda e pela queda da massa salarial, o que, com a retração do crédito e o alto custo dos financiamentos, pode levar o país a uma recessão prolongada. Esperamos que o Banco Central tenha encerrado o processo de elevação dos juros e que o governo implemente efetivamente o ajuste fiscal com cortes de gastos - e não com aumentos de impostos - para que a economia possa se recuperar mais rapidamente”, finaliza.
O percentual de aumento coincidiu exatamente com a expectativa do mercado. Isso porque, de um lado o governo está corrigindo os preços administrados que estavam reprimidos, como o de combustíveis e de energia, que impulsionaram a inflação. De outro, tenta controlar a alta do índice com o remédio amargo dos juros.
Até agora, a inflação oficial não deu sinais de ter sido domada pelos aumentos da Selic. Em 12 meses até março o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) subiu 8,13%.
De acordo com o relatório Focus, o IPCA encerrará 2015 em 8,25%. O patamar ainda está longe do teto da meta estipulado pelo governo de 6,5% e mais longe ainda do centro da meta, que é de 4,5%. O próprio Banco Central assumiu que, nesse processo, o IPCA vai ficar em 7,9% ao ano no final de 2015, segundo o Relatório de Inflação.
Em relatório divulgado na tarde desta quarta-feira (29/4) o FMI (Fundo Monetário Internacional) havia elogiado as medidas de ajuste fiscal e de aperto monetário (aumento de juros) em curso no Brasil.
Na reunião de primavera do Fundo, que terminou no último dia 19 em Washington, Christine Lagarde, a diretora-gerente da instituição elogiara o ajuste na economia e ainda recomendou reformas estruturais no Brasil.
A avaliação é que, mesmo com a elevação das taxas de juros, o BC continua enfrentando a tarefa de reforçar a credibilidade do arcabouço de política monetária, já que a inflação persiste em patamar alto.
A previsão do FMI é que o IPCA suba 8% este ano, acima da previsão divulgada anteriormente pela instituição de 7,8%. Para 2016, a previsão é de alta de 5,4%, abaixo dos 5,9% do documento anterior.
André Perfeito, economista da Gradual Investimentos, diz acreditar que o aperto deve continuar, até porque a expectativa de inflação para o ano que vem ainda está acima do centro da meta. "Sendo um ano de ajuste, é preferível que suba bastante o juros agora para poder cortar mais no ano que vem", afirma. Ele estima que a Selic chegue a 14,5% até o fim do ano.
Com a nova alta, a Selic atinge o maior percentual desde janeiro de 2009, quando atingiu 13,75% ao ano. Além de ser um instrumento de controle da inflação, a Selic guia as decisões de investimentos na economia. Essa elevação, desta forma, enfraquece a produção e o consumo e fortalece a tese de uma recessão mais profunda.
O FMI também admitiu que o Brasil pode ter a pior desaceleração da economia em mais de duas décadas. "Apesar disso, o país terá de ser perseverante com os atuais esforços para conter o aumento da dívida pública e repor a confiança no quadro da política macroeconômica", disse em documento.
Os economistas do FMI projetam que o PIB (Produto Interno Bruto, a soma de bens e serviços produzidos pelo país) encolha 1% em 2015, um dos piores desempenhos entre as principais economias mundiais. Para 2016, a expectativa é de uma recuperação moderada, com o PIB crescendo 1%.
Para a CNI (Confederação Nacional da Indústria), o aumento da Selic desestimulará ainda mais os investimentos e o consumo das famílias, o que reforça as dificuldades para a retomada da produção da indústria.
A direção da entidade argumenta que o fraco desempenho da economia, a valorização do real frente ao dólar e o ajuste nas contas públicas são suficientes para reduzir as pressões sobre a inflação. "Diante desse quadro, o Banco Central poderia rever a trajetória de aumento dos juros", disse a CNI em nota.
Para a Fecomércio/RJ (Federação do Comércio do Estado do Rio de Janeiro), ao elevar a taxa básica de juros da economia, o Banco Central lança mão de mais do mesmo na condução da política monetária.
"Encarecer ainda mais a tomada de financiamentos por parte de consumidores e empresários vai na contramão do quadro exposto pelos principais indicadores de mercado: desemprego em alta, consumo e confiança em baixa, crédito historicamente caro, atividade em queda", diz.
Miguel Ribeiro, diretor executivo de Estudos e Pesquisas Econômicas da Anefac (Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade) diz que o aumento da Selic se somará aos demais ajustes que foram repassados ao crédito de empresas e consumidores.
Ele elaborou uma simulação que mostra que, no caso das empresas, a alta da Selic fará com que a taxa de juros média para capital de giro aumente 0,62 p.p., para 31,99% ao ano.
Os juros das linhas de desconto de duplicatas, por sua vez, passarão de 38,32% para 38,96%. No caso da conta garantida, a taxa de juros média subirá de 116,29% para 117,27%.
*Com informações de Estadão Conteúdo
Atualizado às 14h49


