O que os EUA ganham com o protagonismo do dólar?

Não falta quem diga, e com frequência, que é graças unicamente ao poder do dólar que os EUA conseguem administrar déficits comerciais persistentes

Paul Krugman
21/Ago/2015
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A China diz que não está desvalorizando o renminbi para ganhar vantagem competitiva. A ideia é agregar flexibilidade com o objetivo de preparar o yuan para seu novo papel de moeda de reserva internacional, tornando-se assim parte dos direitos especiais de saque do Fundo Monetário Internacional e assim por diante.

Essa me parece uma história pouco plausível sobre o que está acontecendo atualmente, mas pode ser verdade que o empenho da China em flexibilizar os controles sobre os capitais seja decorrência, em parte, de suas ambições monetárias globais. Mas, por que, exatamente, os chineses estariam interessados em gerir uma moeda de reserva internacional?

Mencionei recentemente em um post no meu blog um aforismo de Charlie Kindleberger, em que ele fala sobre a primeira mordida na cereja (leia aqui). Segue agora outro aforismo desse mesmo economista: "Quem passa muito tempo pensando em moedas internacionais acaba meio biruta."

Em outras palavras, existe alguma coisa nas moedas de reserva que leva as pessoas a acreditar que se trata de um assunto realmente importante — isto é, que o status especial do dólar é parte vital do poderio americano.

Aí temos manifestações do tipo em que o secretário de Estado John Kerry e o presidente Obama dizem que o grande risco de se rejeitar o acordo recente com o Irã (que eu apoio enfaticamente) é que o status de moeda de reserva do dólar ficaria ameaçado. Não, não ficaria. E, seja como for, quem se importa?

O que os EUA ganham com o protagonismo do dólar? Não falta quem diga, e com frequência, que é graças unicamente ao poder do dólar que os EUA conseguem administrar déficits comerciais persistentes. Sabe como é, as pessoas têm de trabalhar com nosso dinheiro.

No entanto, basta uma rápida olhada nas estatísticas da balança internacional de pagamentos dos países cujas moedas não têm nenhum papel de destaque para ver que são perfeitamente capazes de gerir déficits durante muito tempo.

O que conta é sua reputação de devedores confiáveis que oferecem boas oportunidades de investimentos.

Então, quais são as vantagens de ter uma moeda de reserva? A possibilidade de contrair empréstimos em moeda própria — mas até aí não há diferença alguma em relação a outros países (repito: tudo se resume à confiabilidade, e não ao status especial da moeda). E não há nada nos dados que indique a possibilidade de tomar emprestado a preços mais em conta do que os oferecidos por outros credores confiáveis.

O que sobra, basicamente, é a senhoriagem — o fato de que há algumas pessoas fora do país que têm reservas na sua moeda. Isto significa, na prática, que a taxa de juros sobre empréstimos nos EUA é zero em consonância com o montante de cédulas de dólar (principalmente notas de US$ 100) em mãos de sonegadores fiscais e de traficantes do mundo todo.

Em tempos normais, esse privilégio gira em torno de US$ 20 bilhões a US$ 30 bilhões ao ano. Não é um número pequeno, mas corresponde a uma pequena fração de 1% apenas do Produto Interno Bruto americano.

A questão é que, embora o status de moeda de reserva seja politicamente simbólico, ele é essencialmente irrelevante no plano econômico — e não vale a pena de modo algum manobrar as políticas de gestão para obtê-lo.

 

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