'Planejamento financeiro!': o que a formiga gritou para a cigarra quando passava apressada

Diante do acelerado processo de envelhecimento populacional e do avanço da agenda de direitos das pessoas com deficiência, torna-se imperativo integrar educação financeira inclusiva, planejamento ao longo do curso da vida e inovação institucional

Cid Torquato
14/Mai/2026
CEO do ICOM e ex-secretário municipal da Pessoa com Deficiência em São Paulo
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'Planejamento financeiro!': o que a formiga gritou para a cigarra quando passava apressada

Muito preocupante perceber que a fábula da cigarra e da formiga, criada cinco séculos antes de Cristo, na Grécia, por Esopo, mas que se tornou mundialmente conhecida pelo dramaturgo francês La Fontaine, 21 séculos mais tarde, bem como também adaptada por Monteiro Lobato, aqui no Brasil, no contexto do seu sítio, 150 anos atrás. E continua sendo um alerta subliminarmente explícito e absolutamente necessário.

De forma crescente, no mundo todo, com caras exceções, babyboomers, Xs e até millennials estão chegando à maturidade sem os recursos necessários para permitir-lhes autonomia, dignidade e condições financeiras para fazer frente a todas as obrigações até o fim de suas trajetórias corpóreas e terráqueas. Resultado: muitos idosos dependentes de seus filhos e netos, parentes, vizinhos, doações, favores, em tristes casas de repouso, sob a tutela do Estado em ILPIs e abrigos de quinta ou, pior ainda, literalmente nas ruas e praças, até virarem estatística e peças para estudos de anatomia nas faculdades de medicina por aí.

Por que? Improvidência financeira! Não guardaram e, por conseguinte, não possuem, não dispõem, não têm!

O debate internacional sobre longevidade é pacífico quanto à compreensão de que viver mais não pode ser dissociado, idealmente, da capacidade de autossustentar-se com autonomia, segurança econômica e poder de decisão durante toda a vida. Nesse contexto, se a realidade dos longevos em geral já é desafiadora, a situação das pessoas com deficiência exige atenção específica, uma vez que combina desigualdades estruturais persistentes, altos custos recorrentes e maior exposição a riscos financeiros em momentos críticos.

Este artigo busca contextualizar esta temática, tendo como referência e inspiração o trabalho desenvolvido sobre o tema pelo Centro de Longevidade da Universidade de Stanford, Califórnia, cujos princípios e propostas foram tropicalizados pelo NIA-InovaUSP, que é o nosso Núcleo de Inovação em Acessibilidade do Centro de Inovação da Universidade de São Paulo.

Os dados confirmam que pessoas com deficiência apresentam, em média, baixos níveis de escolaridade, menores taxas de participação no mercado de trabalho formal e rendimentos inferiores, quando comparados aos de trabalhadores sem deficiência. Essa trajetória laboral mais instável repercute diretamente na capacidade de poupança, nas contribuições previdenciárias e no acesso a instrumentos de proteção social, ou seja, seu padrão de vulnerabilidade econômica é ainda maior do que dos longevos sem deficiência, justamente em fases da vida nas quais as necessidades de suporte tendem a aumentar.

A esse cenário já preocupante soma-se um fator central, frequentemente negligenciado nas análises convencionais: os custos adicionais associados à deficiência. Gastos com tecnologias assistivas, medicamentos de uso contínuo, terapias de reabilitação, transporte acessível, adaptações arquitetônicas e, em muitos casos, apoio de cuidadores profissionais, não são episódicos, mas estruturais. Esses custos acompanham a pessoa ao longo de sua trajetória e tendem a se intensificar com o envelhecimento, reduzindo a margem financeira disponível para imprevistos e dificultando a acumulação de ativos. Assim, mesmo indivíduos com rendimentos estáveis podem enfrentar fragilidade financeira quando esses custos não são incorporados de forma sistemática aos planejamentos de curto, médio e longo prazos.

A ausência de planejamento amplia riscos associados à perda de capacidade decisória, à exposição a fraudes, à judicialização de decisões patrimoniais e a conflitos familiares indesejados. Os estudos que fundamentam o Thinking Ahead Roadmap, desenvolvido em parceria entre os centros especializados das Universidades de Stanford e Minnesota, mostram que preparar-se para transições na gestão financeira não é apenas uma resposta ao envelhecimento, mas a melhor estratégia preventiva para a preservação da autonomia e a redução dos custos recorrentes em cascata.

Quando essa abordagem é aplicada às pessoas com deficiência, sua relevância se torna ainda mais evidente, pois as transições circunstanciais podem ocorrer de forma mais precoce ou intermitente, produzindo situações muito dramáticas para suas vítimas e seus entornos.

Mas não era para esse período da vida ser de descanso, de aproveitá-la com amores e familiares, de sabedoria e ensinamentos aos mais jovens? Na verdade, na prática, o sonho não raro vira pesadelo, mas não precisa ser necessariamente assim!

Existe uma solução básica, ideal, lógica e simples, mas de difícil implementação em larga escala, que é o exercício de tentar antecipar decisões, estruturar apoios e reconhecer que autonomia não significa ausência de suporte, mas capacidade de escolher como esses e outros recursos serão organizados. E, claro, temos que ter a responsabilidade de tentar economizar algo como 10% de nossos vencimentos todo santo mês, a vida toda!

Pouco se fala no assunto, mas imagine ter que fazer, além do próprio planejamento vitae, provisões e moradia vitalícias também para mãe e pai, avós, companheira ou companheiro, filhas e filhos sem, mas, principalmente, com alguma deficiência. A compreensão fica clara quando exemplificamos com a preocupação que devem ter os pais de filhos "especiais", sem possibilidade de viverem de forma independente e sem acompanhamento. Quando têm condições, conseguem contratar serviços especializados para cuidar de seus filhos por muitos anos após se forem. Mas e quem não têm essa disponibilidade ou outros filhos e parentes que assumam essa responsabilidade?

A experiência empírica de pessoas com deficiência no Brasil reforça esses receios. Ao longo da vida, decisões financeiras relacionadas à carreira, à forma de inserção no trabalho, à contratação de seguros, à organização patrimonial e à definição de apoios futuros raramente são fáceis e tranquilas. Infelizmente, quando não há planejamento, os custos financeiros, emocionais e institucionais tendem a ser mais elevados, recaindo "de surpresa" sobre a despreparada família ou, na ausência desse suporte, no limite, quando disponível, sobre a impessoalidade e precariedade do  serviço público. São cenários dramáticos, não desejáveis, mas, muitas vezes, inevitáveis, condenando pessoas com deficiência a situações absolutamente desumanas.

Diante do acelerado processo de envelhecimento populacional e do avanço da agenda de direitos das pessoas com deficiência, torna-se imperativo integrar educação financeira inclusiva, planejamento ao longo do curso da vida e inovação institucional. Precisamos chamar a atenção, sensibilizar e dar subsídios para que, mais e mais, todo o mundo possa entender o que está acontecendo, planejar o futuro e estar mais preparado para poupar e se estruturar para as incertezas do futuro até a morte com dignidade.

Planejar-se financeiramente, dever de todos, tem que ser compreendido como estratégia essencial, lógica e racional de proteção da autonomia, de sustentabilidade econômica e de cidadania, principalmente para quem vive com as limitações inerentes da deficiência. Incorporar essas perspectivas de forma estruturada é condição necessária para que a longevidade, no Brasil e no mundo, seja, de fato, uma conquista social compartilhada, e não uma temeridade.

Quanto ao que a formiga gritou, en passant, para a cigarra lá do título, só podemos supor que, apesar de não ter frequentado Stanford, sua espécie já "poupa" e se estrutura para o futuro desde tempos imemoriais. Ou seja, a dica só pode ter sido como a nossa neste artigo: planeje-se, viva uma vida plena e não morra na praia!


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