Seus eventos são acessíveis?

Por que eles têm potencial para acelerar a inclusão das pessoas com deficiência?

Cid Torquato
20/Jan/2026
CEO do ICOM e ex-secretário municipal da Pessoa com Deficiência em São Paulo
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Seus eventos são acessíveis?

Este período de tantas festas faz-me lembrar de um megaevento corporativo, já faz alguns anos, que prometia aos convidados “experiências inesquecíveis”. E cumpriu! Foi inolvidável, mesmo, mas não exatamente do jeito que seus organizadores esperavam. Logo no começo, uma inesperada participante surda sinalizante tentava acompanhar a abertura, enquanto o mestre de cerimônias falava a mil por hora, sem Libras, sem legenda, sem direitos básicos! Nunca imaginaram o justificado mal-estar que se instaurou até a organização providenciar um intérprete às pressas. Ou seja, o que era para ser positivo, mostrando as qualidades da marca, acabou revelando o contrário, com prejuízos generalizados, demissões merecidas e uma importante lição apreendida pela dor! 

Em outro episódio similar, um grupo de convidados cegos deixou o seminário promovido por um órgão público, quando se deu conta da baixíssima qualidade da audiodescrição disponibilizada. No caso, havia o recurso, mas era praticamente um insulto àqueles que dele necessitavam, por ser executado de forma amadora, por gente sem a menor ideia do que estava fazendo! Ainda sobre acessibilidade comunicacional, já cansei de ouvir reclamações também sobre o baixo nível de legendas em seminários, cada vez menos usando estenotipia e cada vez mais geradas por aplicativos de voice-to-text, pretensamente com inteligência artificial etc e tal, mas ainda precários quando ao vivo, em tempo real!

Menos comum nos dias de hoje é a falta de acessibilidade arquitetônica! Mas quantas histórias esdrúxulas eu já escutei e, infelizmente, já vivi, que vão desde “banheiro acessível com porta trancada e a chave com o zelador, que foi almoçar, mas volta logo”, até situações, várias, quando tive que palestrar da plateia, pois não havia rampa ou plataforma elevatória para o palco! Estes são apenas alguns exemplos singelos do que as pessoas com deficiência ainda enfrentam para participar do circuito de eventos no Brasil.

Além de violar direitos, inclusive no plano criminal, por discriminação, hoje, dá um tiro no próprio pé quem produz um evento sem acessibilidade, comprometendo a imagem de seus organizadores e gerando prejuízos imateriais às vezes irrecuperáveis! Em defesa dos inadimplentes, devo admitir que este tipo de informação ainda não está tão facilmente disponível, não é absolutamente pacífico o que deve ser feito ou não e falta fiscalização específica para assegurar o cumprimento da legislação! Precisamos de regras claras!

Mas a Lei Brasileira de Inclusão (LBI, 13.146/2015) está aí para mudar esse quadro, embora ainda não tenha avançado muito nessa missão. Seu artigo 42 estabelece o conceito à frente desse direito básico que as pessoas com deficiência têm de participar da vida cultural, do lazer e dos eventos “em igualdade de condições” com as pessoas sem deficiência. A temática é retomada nos artigos 70 e 71, que deixam cristalino que congressos, seminários e eventos científico-culturais devem disponibilizar recursos de acessibilidade comunicacional, especialmente quando financiados ou promovidos pelo poder público. Ou seja: sim, eventos têm a obrigação de serem acessíveis e, por favor, não me venham mais com desculpas!

Nosso problema é que a legislação é clara, mas a vida real é criativa! E, onde falta regulamentação, sobra improviso! Como ainda não temos norma técnica e regulamentação específicas sobre acessibilidade em eventos, cada organizador interpreta essas obrigações como quer ou como cabe no seu orçamento. Daí, surgem soluções do tipo “colocamos Libras no painel principal e pronto”, afastando a participação de pessoas com deficiência e prolongando no tempo o famoso catch de que “não tem demanda por isso não tem oferta — e não tem oferta porque não tem demanda”!

Mas há luz no fim do palco! Embora ainda sejam exceções, alguns organizadores de eventos vêm investindo cada vez mais em receber de forma correta as pessoas com deficiência e o fazem porque entenderam que acessibilidade não é despesa, mas, sim, estratégia, inovação, propósito e valor. Já temos eventos com áreas adequadamente reservadas, não aqueles cercadinhos escondidos atrás das pilastras, como sempre foi o caso. Mapas táteis, audiodescrição e Libras profissionais, legendagem simultânea de qualidade, recepcionistas treinadas, crachá com Braille, sites e aplicativos acessíveis, sinalização inteligente e materiais em múltiplos formatos são itens inclusivos cada vez mais presentes.

Vejo com muita alegria que alguns produtores mais iluminados vêm criando experiências imersivas acessíveis, multisensoriais e multidimensionais, como é a própria definição de acessibilidade! Esses recursos estruturam o evento ao mesmo tempo que passam a ser atrações e exemplos para toda a sociedade! Não há melhor forma de promover a inclusão do que pelo desenvolvimento de atividades nas quais todas as pessoas, sem exceções, possam participar juntas e misturadas!

Permitindo-me um parêntese pessoal: quando fui Secretário da Pessoa com Deficiência de São Paulo, criamos, sob coordenação da então secretária-adjunta Marinalva Cruz, uma prática cartilha de acessibilidade em eventos, que virou referência, até hoje usada por organizadores, governos e empresas, bem como serviu de base para outros documentos do gênero. Também criamos a CAC - Central de Acessibilidade Comunicacional, para atender às demandas de toda a prefeitura, acessibilizando eventos de todos os tipos. Foi nessa época que shows e festivais, como a Virada Cultural e o Aniversário de São Paulo, começaram a apresentar interpretação em Libras de forma pioneira! Em outras palavras, não estou, aqui, a inventar a roda, mas, sim, tentando fazer com que gire mais rápido, mais longe e sem deixar ninguém para trás!

E o momento é muito propício! Estamos vivendo a era dos eventos: aniversários, festivais, premiações, summits, conferências, encontros, feiras, ativações, shows, seminários! Evento é a grande mídia presencial em tempos de transformação digital! É onde as organizações e as pessoas mostram "quem" são, presencialmente, apresentando seu lado humano, para além dos discursos e construções virtuais. Por sua crescente relevância como vitrine, por que não colocamos, definitivamente, os eventos a serviço da inclusão?

E é por estas e outras tantas que defendo a criação imediata de grupo de trabalho junto à ABNT - Associação Brasileira de Normas Técnicas para o desenvolvimento urgente de nosso protocolo oficial sobre Acessibilidade em Eventos, abarcando todas as modalidades, daqueles corporativos até os eminentemente culturais. Chega de improviso! Chega de depender do bom humor do produtor ou da paciência do público! Precisamos de padrões claros, idealmente seguindo os critérios multidimensionais propostos pelo saudoso pensador Romeu Sassaki: arquitetônicos/urbanísticos, comunicacionais/digitais, metodológicos, instrumentais/tecnológicos, naturais/ecológicos, programáticos e atitudinais, sendo este último lastreado pelo desejo essencial pela abolição total do capacitivo! Com a norma técnica brasileira, ficará mais fácil regulamentar a legislação vigente e, finalmente, estabelecer segurança jurídica para todas as partes envolvidas!   

Urgentemente, precisamos transformar o conjunto dos recursos de acessibilidade em produto estruturado, empacotado e patrocinável, soluções que eventos possam contratar, empacotar e marcas queiram patrocinar com orgulho, sabendo que estão deixando um grande legado!

Afinal, eventos devem celebrar encontros e não excluir pessoas! Podemos e devemos transformar cada auditório, cada palco, cada premiação em vitrine viva de acessibilidade e zona de confluência de todas as pessoas, todas mesmo, sem exceções! Aí, sim, estaremos produzindo experiências realmente engrandecedoras e inesquecíveis!

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IMAGEM: Freepik

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