Quer abrir uma franquia? Confira tendências e setores que devem estar em alta em 2026
Com consumidor mais cauteloso e custos operacionais elevados, ganham espaço as franquias móveis, microformatos bem estruturados e negócios híbridos focados em eficiência e recorrência

Começar a empreender está na sua lista de resoluções para 2026? Se sua resposta é sim, talvez o pontapé inicial para realizar o seu sonho esteja no mercado de franquias, que oferece opções de negócios com custo variado e em diversos setores econômicos. O faturamento do setor avançou de R$ 264,874 bilhões para R$ 293,535 bilhões nos últimos doze meses - um incremento de 9,1% na comparação com igual período em 2024, segundo a Associação Brasileira de Franchising (ABF).
Os setores que mais se destacaram dentro do mercado de franquias foram limpeza e conservação, saúde, beleza e bem-estar e alimentação saudável, que devem continuar em alta em 2026. Rodrigo Abreu, diretor de marketing e comunicação da ABF, afirma que estes setores refletem uma mudança estrutural no comportamento do consumidor, que passou a valorizar mais qualidade de vida, prevenção e conveniência. Esse movimento se traduz em academias, clínicas especializadas, alimentação funcional e serviços de autocuidado dentro do franchising.
CEO do Grupo Cherto, Marcelo Cherto concorda com a análise de Abreu sobre as expectativas nos setores de fast food, saúde e beleza e bem-estar, e acrescenta que educação e negócios com baixo investimento, especialmente aqueles que não exigem pontos comerciais tradicionais ou instalações caras, também devem receber mais investimentos em 2026.
Ele destaca que, diante do aumento dos custos operacionais, impostos em alta, dificuldades de crédito, juros elevados e um consumidor com menos dinheiro no bolso, modelos como dark kitchens e operações sem loja física ganham espaço como alternativa mais viável em 2026.
Franquias móveis e o avanço dos negócios sem ponto fixo
Um dos movimentos mais relevantes apontados por Marcus Rizzo, diretor da Rizzo Franchise, é o avanço dos negócios móveis, tendência que deve ganhar força já a partir de 2026. Segundo ele, tratam-se de franquias instaladas em veículos totalmente padronizados, como vans, caminhões ou motos, que atendem diretamente casas ou empresas.
“Vamos ter muitos negócios móveis, de todos os ramos de atividades, como já ocorre nos Estados Unidos, Austrália e boa parte da Europa. Eles são instalados em um veículo e a entrega é na casa (B2C) ou escritório (B2B) de clientes. No Brasil, estes negócios surgem como efeito pós pandemia, que gradativamente inviabilizou a instalação de lojas (instalações e aluguel muito caros) e um consumidor que se acostumou com o delivery.”
Rizzo destaca ainda que esse modelo surge como resposta aos altos custos de instalação de lojas físicas, e a um consumidor já habituado ao delivery desde a pandemia. Nesses formatos, o próprio veículo funciona como unidade de operação, com equipamentos, sistemas de cobrança e até um pequeno escritório embarcado.
Novo perfil de franqueado exige mais tecnologia e estratégia
O franqueado de 2026 chega mais bem preparado e informado. Para Cherto, esse empreendedor pesquisa mais antes de investir, é mais familiarizado com tecnologia e entende que o negócio hoje é físico e digital ao mesmo tempo, com forte presença de inteligência artificial.
A tecnologia, em sua avaliação, já está integrada a áreas como atendimento, recrutamento, treinamento, logística, precificação dinâmica e gestão do negócio. “Os números vão mostrar que quem usa tecnologia tem menor custo, mais padronização e mais eficiência”, afirma.
Na mesma linha, Abreu destaca que a maior oferta de informação e educação no setor fez com que franqueados passassem a cobrar mais profissionalização das redes, exigindo suporte estruturado, uso intensivo de tecnologia e modelos de gestão mais colaborativos.
Microfranquias: oportunidade ou armadilha?
As microfranquias seguem como porta de entrada para muitos empreendedores, mas o tema divide opiniões. Para Cherto, elas continuam sendo uma aposta válida, desde que não se aceite baixa qualidade no treinamento e na expertise oferecida pelo franqueador sob o argumento de baixo investimento. “Microfranquia não é desculpa para não oferecer treinamento robusto”, diz.
Já Rizzo é contundente ao criticar o modelo, afirmando que muitas microfranquias se tornaram uma “fraude”, usadas apenas como forma de captar taxa de franquia sem estrutura real de negócio.
Pela visão institucional, Abreu, da ABF, explica que, com teto de investimento de até R$ 135 mil, as microfranquias seguem relevantes, especialmente em serviços, educação, estética, limpeza, manutenção e alimentação enxuta. Ele alerta, porém, que são negócios como quaisquer outros e exigem dedicação, preparo, capital de reserva e gestão financeira eficiente.
“É importante salientar que tais modelos de negócio costumam ter operação mais simples, com menor infraestrutura, por vezes funcionando no formato home based ou virtuais, e na qual o franqueado também pode acabar atuando diretamente na execução”, diz Abreu.
Modelos híbridos deixam de ser diferencial
A integração entre físico e digital deixou de ser tendência e virou padrão. Para Cherto, isso já é uma realidade consolidada e depende mais da mentalidade dos executivos que comandam a rede do que do segmento em si.
Abreu reforça que o consumidor transita naturalmente entre os canais, e as franquias que conseguem integrar vendas, relacionamento, fidelização e eficiência operacional no digital tendem a capturar mais valor, especialmente em alimentação, educação, serviços e saúde.
Rizzo, por outro lado, alerta para o uso distorcido do discurso omnichannel, que, na avaliação dele, muitas vezes transforma a franquia em simples canal de revenda, sem transferência real de conhecimento operacional ao franqueado.
“O ideal seria que o processo seguisse dessa maneira: franqueadores desenvolvendo sistemas digitais que ampliam e melhoram as vendas, tendo incialmente adotado em suas unidades próprias e aprendido, e este aprendizado ser repassado para a rede franqueada com treinamento.”
Mais tecnologia e dados, menos intuição
A gestão orientada por dados ganha cada vez mais espaço. Para Cherto, o franchising caminha rapidamente para um modelo data driven, no qual decisões deixam de ser tomadas no “feeling” e passam a se basear em análises apoiadas por dados e inteligência artificial.
Abreu, da ABF, complementa que ferramentas como gestão financeira, CRM, automação, delivery e soluções baseadas em dados ajudam o franqueado a ganhar eficiência e reduzir erros. Segundo levantamento da ABF, 38% das redes ainda estão em estágio intermediário de transformação digital, com uso crescente de IA, principalmente em chatbots e assistentes virtuais.
Outro estudo da ABF aponta que, entre as ferramentas mais utilizadas, chatbots e assistentes virtuais lideram, estando presentes em 75% das franqueadoras. Logo em seguida vêm as ferramentas de IA generativa de textos, como o ChatGPT, adotadas por 71% das redes. Mas, é importante salientar que trata-se de um apoio à gestão, não uma substituta do olhar humano.
Sustentabilidade: entre discurso e prática
Na visão de Marcelo Cherto, o crescimento sustentável das redes já avançou, mas ainda há mais discurso do que prática. Ele acredita que o movimento deve levar a uma expansão mais criteriosa focada em unidades rentáveis, e não em crescimento indiscriminado.
Marcus Rizzo é mais cético, e afirma que no Brasil o impacto ainda tende a ser pequeno, já que a renda média mais baixa reduz o peso desse critério na decisão de compra.
Por sua vez, Abreu aponta que práticas como redução de desperdício, eficiência energética e embalagens responsáveis já geram ganhos reais de imagem e, muitas vezes, de custo, enquanto ações pontuais sem consistência são percebidas apenas como marketing.
Serviços sob demanda e a cultura da assinatura
Os serviços sob demanda seguem em forte expansão. Para Cherto, além de manutenção, estética, saúde, educação e pet services, cresce também a cultura da locação e da assinatura, em que o consumidor prefere alugar ou assinar produtos e serviços em vez de comprar.
Rizzo reforça que esse crescimento está diretamente ligado aos modelos móveis e à conveniência, enquanto Abreu destaca que as maiores oportunidades estão em negócios escaláveis, com operação simples, alta recorrência e pouco ou nenhum ponto físico tradicional.
O que avaliar antes de investir em uma franquia em 2026
Para Cherto, o erro mais comum é a preguiça de investigar. Ele recomenda conversar pessoalmente com vários franqueados da rede, fazer perguntas diretas sobre satisfação, rentabilidade e suporte, e nunca investir apenas por indicação de influencers.
Rizzo acrescenta que é essencial verificar se o franqueador tem experiência real no negócio, com unidades próprias operando há pelo menos dois anos e um modelo único, sem variações confusas.
“É preciso aferir e conferir se o franqueador tem conhecimento e experiência operacional no negócio. Duas maneiras fáceis de conferir são: investigar com franqueados e ex-franqueados - eles vão te contar tudo -, e se o franqueado tem várias unidades próprias há pelo menos dois anos e totalmente iguais. Nunca acredite na oferta de modelos de negócio pequeno, médio, grande, contêiner, balcão. Modelo é um só”, orienta Rizzo.
Abreu reforça a importância de analisar a Circular de Oferta de Franquia (COF), planejar capital de reserva, avaliar a dedicação exigida e verificar se há sinergia entre o perfil do empreendedor e o segmento escolhido.
Ele destaca também que, entre os principais erros que um futuro-empreendedor costuma cometer estão não verificar se há sinergia entre o segmento no qual pretende investir e seu perfil, e ter apenas o valor inicial sem fazer um planejamento financeiro que contemple uma reserva para enquanto o negócio não atinge seu ponto de equilíbrio. “Também é preciso verificar a saúde financeira da marca franqueadora e quais os níveis de suporte oferecidos.”
Copa do Mundo: impulso pontual, não novo segmento
Os três especialistas concordam que a Copa do Mundo não cria segmentos no franchising. Para Cherto, o evento tende a impulsionar delivery, bares e restaurantes nos dias de jogo. Rizzo alerta para promessas oportunistas ligadas a eventos sazonais. Já Abreu destaca que a Copa do Mundo potencializa formatos ligados à alimentação, bebidas, entretenimento e experiências coletivas. Especialmente para redes preparadas para ações sazonais bem estruturadas.
