Tarifaço, clima, crédito caro: agro busca fôlego para crescer no mercado global

Teresa 'Teka' Vendramini, considerada uma das principais referências femininas no setor, que palestrou no Trade BR 2025, chama atenção para questões que estão travando a expansão da economia brasileira

Karina Lignelli
05/Dez/2025
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Tarifaço, clima, crédito caro: agro busca fôlego para crescer no mercado global

Em um cenário global que exige alta performance, o agronegócio brasileiro mostra sua força enquanto enfrenta desafios estruturais crônicos e a volatilidade do mercado internacional. Com produção estimada em 350 milhões de toneladas em 2025, o setor contribui com 30% do PIB nacional e produz alimentos que suprem aproximadamente 11% da população global.

No entanto, para garantir a expansão internacional, é necessário superar a insegurança jurídica e a logística onerosa, além de proteger os pequenos produtores, que representam mais de 80% dos 5,1 milhões de proprietários rurais em todo o país. 

O alerta foi feito pela empresária pecuarista Teresa 'Teka' Vendramini, primeira mulher a presidir a Sociedade Rural Brasileira (SBR), na palestra "O agro que conquista o mundo – oportunidades e desafios na expansão internacional", apresentada na última quarta-feira (3/12) no Trade BR 2025, realizado pelo Conselho Brasileiro das Empresas Comerciais Importadoras e Exportadoras (CECIEx) com a Apex-Brasil, e apoio da SP Chamber of Commerce da Associação Comercial de São Paulo (ACSP).

O Brasil, uma das 10 maiores economias do mundo, consolida-se como líder na exportação de commodities, registrando safras recordes e exportações que atingiram US$ 140 bilhões, destacou Teka, considerada uma das principais referências femininas do agro e conselheira de órgãos como Embrapa e Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável do Governo Federal. "A soja, com 180 milhões de toneladas, e o milho, com 128 milhões, são carros-chefe", afirmou.

Ao chamar de forma carinhosa o agro brasileiro de 'gigante', Teka lembrou que, proporcionalmente a esse gigantismo, o setor enfrenta inúmeros desafios não só internos, mas também no comércio global. O mais recente colocou a força exportadora do agro brasileiro à prova com o anúncio do "tarifaço", imposto pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

A sobretaxa, segundo ela, causou um susto muito grande, levando a uma queda imediata nos preços de produtos - caso da arroba do boi, contou. “No dia em que a tarifa saiu, a arroba estava US$ 310. No dia seguinte já eram US$ 210. Mas um mês depois já tinha voltado ao preço normal”, contou. Porém, o impacto inicial foi desumano para setores como o de frutas, que sofreu perda significativa no preço, coincidindo com a colheita de manga. "Houve muitas perdas, decréscimo de preço... Foi muito negativo."

Por outro lado, a crise forçou o agronegócio a acelerar a abertura e diversificação de novos mercados: o setor de café, por exemplo, encontrou novas rotas no México e no Vietnã. O mercado de pecuária realocou produtos para países árabes, e a China, por exemplo, aumentou suas compras do Brasil. A adaptação rápida demonstrou como o comércio exterior influencia positivamente a pauta do agro. "O Brasil aprendeu com o que estamos discutindo aqui hoje: a importância da exportação."

Crédito agrícola, seguro rural e os pequenos produtores

A expansão e a segurança do produtor rural dependem criticamente do crédito agrícola e do seguro rural, considerados o 'básico' para o produtor, segundo Teka Vendramini. A urgência do seguro rural é ampliada pela crescente questão climática, com períodos alternados de seca e regiões alagadas que trazem prejuízos muito grandes, afirmou.

Apesar da necessidade, Teka expressou pessimismo sobre o avanço concreto da política de seguro rural: quando questionada sobre novidades, ela responde que "não andou nada". A situação financeira também reflete a dificuldade atual: mais de 300 médios produtores rurais estão em recuperação judicial - o que é visto como uma "pauta negativa" para o setor, lembrou.

Além disso, a insegurança jurídica e a logística elevada estão listadas entre os maiores desafios. Teka apontou que o maior problema estrutural é a (falta de) segurança jurídica e o direito à propriedade privada. "Questões como a discussão sobre o marco temporal indígena e a invasão de fazendas trazem grande insegurança jurídica para quem produz."

O custo Brasil logístico, que hoje é de 60%, também foi apontado por Teka como obstáculo significativo à competitividade internacional. "A gente é mais caro que os Estados Unidos e 40% mais que a Argentina. A deficiência em armazenagem é tão grande que há safras em que pode faltar de 30% a 40% de capacidade, forçando a produção a esperar em cima de caminhões."

Ainda que o agronegócio seja um gigante, a empresária lembrou que ele é composto por 5,1 milhões de propriedades rurais, sendo 80% abaixo de 500 hectares - o que os caracteriza como pequenos produtores. "O foco na expansão e sustentabilidade demanda tecnologia e gestão, mas o pequeno produtor frequentemente está fora do jogo. É preciso mudar isso."

Entre as principais dificuldades dos pequenos apontadas por Teka estão: 

- Educação e Conhecimento: muitos produtores carecem do "nível de educação" necessário para acompanhar as inovações, como o uso de defensivos biológicos e a rastreabilidade, afirmou. 

- Rastreabilidade e Certificações: Teka lembrou que, embora essencial para mercados compradores, a rastreabilidade é uma "superdificuldade" para a maior parte do Brasil que ainda não está inserida nas cadeias mais exigentes.

- Gestão Empresarial: uma fazenda não é mais apenas um negócio de família, destacou a empresária, cuja família tem mais de 80 anos de experiência 'da porteira para dentro', destacou. "Para ser produtiva, exige gestão, planejamento e tecnologia."

- Custo de Sustentabilidade: práticas avançadas, como a Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF), são economicamente custosas - o que limita sua adoção a menos de 20% do Brasil rural.

A pecuarista reforçou que a solução para esses gargalos passa pela conscientização, uso da tecnologia (citando o papel da Embrapa) e, principalmente, educação para capacitar esses produtores.

Os desafios são inúmeros, segundo Teka Vendramini, mas a capacidade de o Brasil diversificar seus mercados e a crescente adoção de tecnologia - como o modelo AgriZone (espaço colaborativo e uma vitrine de tecnologias, inovações e boas práticas para agricultura de baixo carbono), apresentado na COP 30 e que será replicado na próxima, apontam que o agronegócio continuará sendo 'a bola da vez' na produção global de alimentos.

"A chave para o futuro é transformar a gestão das fazendas em empresas e garantir que os pequenos produtores recebam o apoio e a educação necessários para integrar essa cadeia global", sinalizou.

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IMAGEM: Karina Lignelli/DC

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