Venda online sem estoque ganha espaço entre pequenos negócios

Conhecido como dropshipping, modelo atrai pelo baixo investimento inicial e demanda gestão, marketing e planejamento

Cibele Gandolpho
18/Mai/2026
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Venda online sem estoque ganha espaço entre pequenos negócios

Na pandemia, a administradora de empresas Mariana Lopes, 34 anos, começou a vender produtos online sem manter estoque para complementar a renda. O que parecia um experimento virou negócio: hoje, ela fatura cerca de R$ 20 mil por mês, com margem líquida estimada entre 20% e 25%, após se concentrar em produtos para pets.

“Não é dinheiro fácil. Tem muito teste, erro, produto que não vende. Mas, quando você encontra um nicho que funciona, a escala vem rápido. Só que hoje é preciso ter muito mais controle de custos do que antes”, diz.

A experiência de Mariana ajuda a explicar o avanço do chamado dropshipping — um modelo em que o lojista vende sem manter estoque próprio e transfere ao fornecedor a responsabilidade pela entrega do produto ao cliente.

Com promessa de baixo investimento inicial, o sistema vem ganhando espaço entre brasileiros que buscam empreender no comércio eletrônico, especialmente em um cenário de juros elevados, crédito mais restrito e pressão sobre custos.

O modelo virou porta de entrada, sobretudo para microempreendedores e profissionais em transição de carreira que procuram alternativas de renda com menor exposição financeira.

No entanto, apesar do apelo, especialistas alertam: o sucesso depende menos da facilidade operacional e mais da capacidade de gestão, marketing e escolha de nicho — fatores diretamente afetados pelo ambiente macroeconômico e pelo custo crescente de fazer negócios no país.

No dropshipping, o lojista atua como intermediário. Plataformas como Shopify, Nuvemshop e Tray facilitam a criação das lojas virtuais, enquanto marketplaces internacionais e fornecedores nacionais dão suporte à logística.

Os empreendedores podem optar tanto pelo dropshipping nacional quanto pelo internacional, atuando como intermediários de fornecedores globais e acessando uma variedade maior de produtos exclusivos.

“Nos dois casos, a tecnologia de plataformas de e-commerce automatiza os pedidos, reduz erros e libera tempo para o marketing”, afirma Tiago Mazeto, diretor da Tray, plataforma de e-commerce da LWSA voltada para quem quer começar ou escalar um negócio digital.

Crescimento

Embora não existam dados consolidados específicos sobre o setor no Brasil, estimativas internacionais apontam avanço acelerado do modelo. Segundo a consultoria Precedence Research, o mercado global de dropshipping movimentou US$ 435 bilhões em 2025 e deve ultrapassar US$ 476 bilhões em 2026.

O avanço do dropshipping acompanha a expansão do próprio comércio eletrônico no Brasil, em meio à digitalização acelerada e às mudanças no comportamento do consumidor.

O e-commerce brasileiro faturou cerca de R$ 204 bilhões em 2024 e R$ 235,5 bilhões em 2025, segundo a Associação Brasileira de Comércio Eletrônico (ABComm).

A expectativa é de continuidade: as projeções apontam que o faturamento do comércio eletrônico brasileiro ultrapasse R$ 258 bilhões em 2026, consolidando o setor como um dos mais dinâmicos da economia nacional, mesmo diante das incertezas econômicas e do impacto dos juros sobre o consumo.

Dentro desse universo, modelos mais enxutos, como o dropshipping, acabam se beneficiando da entrada constante de novos consumidores online e da necessidade de empreender com menor capital inicial.

Segundo Ricardo Mendes, consultor de comércio eletrônico e transformação digital da Start Consultoria, o modelo cresceu impulsionado principalmente pelas redes sociais e pelo avanço do tráfego pago.

“É um formato que democratiza o acesso ao e-commerce, mas não elimina desafios clássicos do varejo, como margem, logística e atendimento — além dos impactos tributários e regulatórios”, afirma.

O atrativo inicial está justamente no investimento reduzido. Com poucos milhares de reais — ou até menos — já é possível testar produtos e iniciar uma operação, algo relevante em um cenário de crédito caro e seletivo para pequenos negócios.

Margens

A expectativa de ganho é um dos principais atrativos, mas também uma das maiores frustrações para quem entra no segmento sem planejamento.

Em média, a margem bruta no dropshipping varia entre 10% e 30%, podendo ser maior em nichos específicos. No entanto, custos com anúncios, taxas de plataformas, tributos e devoluções reduzem significativamente o lucro líquido.

“O faturamento do lojista está justamente na diferença entre o preço pago pelo cliente e o valor transferido ao fornecedor. É um modelo que atrai muitos brasileiros pelo baixo custo de entrada e pela possibilidade de diversificar produtos sem grandes investimentos”, explica o diretor da Tray.

Além disso, o aumento do custo de aquisição de clientes — pressionado pela concorrência e pelo encarecimento da publicidade digital — vem se tornando um dos principais desafios para os empreendedores.

“Hoje, quem não domina marketing digital dificilmente consegue sustentar a margem. O custo de aquisição subiu muito e isso pesa ainda mais em um ambiente econômico mais apertado”, afirma Mendes.

Riscos tributários

Apesar do apelo de baixo investimento e da promessa de operação simplificada, o dropshipping também exige atenção à tributação — especialmente nas operações internacionais.

Segundo o advogado tributarista Roberto Moreira Dias, do escritório Moreira Dias Advogados, há o risco de a Receita Federal e o Fisco Estadual entenderem que a empresa brasileira responsável pela intermediação da venda também responde por tributos ligados à importação, como IPI/COFINS/PIS e ICMS.

Ele explica que, além dos custos, isso pode afetar a experiência do consumidor, já que há casos frequentes em que mercadorias ficam retidas até o pagamento de tributos pelo destinatário final. “Em operações internacionais, o consumidor final pode ser chamado a recolher esses tributos para liberar a mercadoria, o que afeta prazo de entrega e gera desgaste para o lojista”, diz.

Outro ponto de atenção está na formalização do negócio. Mesmo sem manter estoque, o vendedor continua sujeito a obrigações fiscais, como escrituração do faturamento e recolhimento de tributos sobre a atividade de intermediação.

“Muitos começam de maneira informal, mas isso pode gerar autuações e até cobrança de imposto de renda da pessoa física”, alerta.

Segundo Dias, o ideal é atuar por meio de um CNPJ, geralmente enquadrado no Simples Nacional — embora o modelo não possa operar como MEI. “Quem trabalha com dropshipping precisa estruturar minimamente a operação para reduzir riscos fiscais e tributários”, aconselha.

Dias também avalia que o cenário ficou mais complexo com o programa Remessa Conforme e as mudanças previstas na Reforma Tributária. O endurecimento das regras de importação reduziu parte da competitividade do dropshipping internacional. Vale destacar que, na semana passada, por Medida Provisória (MP), o governo federal acabou com a cobrança de impostos federais (taxa das blusinhas) sobre importações feitas por meio do Remessa Conforme.

“A partir de 2027, com as mudanças tributárias previstas para o consumo (CBS e IBS), acredito que deve haver uma transformação importante na tributação do comércio eletrônico”, afirma.

No caso do dropshipping nacional, os riscos ao consumidor são menores, mas, segundo o advogado, o intermediador continua responsável pelo correto enquadramento da operação e pelo cumprimento das obrigações fiscais.

Pontos críticos

Outro desafio do dropshipping está no prazo de entrega, especialmente quando os produtos vêm do exterior — situação que também expõe o negócio às variações cambiais e a possíveis mudanças regulatórias nas importações.

Consumidores mais exigentes têm pressionado por entregas rápidas, impulsionando a procura por fornecedores nacionais, ainda que isso represente custos maiores.

Além disso, como o lojista não controla estoque nem qualidade do produto, eventuais problemas afetam diretamente a reputação da loja — um fator cada vez mais sensível em um ambiente de consumo cauteloso.

Para os especialistas, mais do que nunca é necessário olhar o negócio de forma estratégica, considerando custos totais, ambiente regulatório e cenário econômico antes de ampliar a operação.

Profissionalização

O que antes era visto como uma forma rápida de ganhar dinheiro passou por um processo de amadurecimento. A concorrência aumentou e consumidores estão mais atentos a prazo de entrega, qualidade e reputação das lojas.

Ao mesmo tempo, fatores como juros, inflação, tributação e regras do comércio eletrônico passaram a ter peso cada vez maior na viabilidade do modelo.

“O dropshipping, ainda assim, é uma solução para quem quer começar no e-commerce sem muitos recursos, mas também para empresas que desejam ampliar portfólio e aumentar lucratividade”, destaca Mazeto. “Ele deixou de ser apenas uma solução oportunista e passou a exigir visão de negócio, planejamento e estratégia.”

Como começar

Para quem deseja entrar no segmento, plataformas do setor, como a Nuvemshop, recomendam começar pela escolha de um nicho de mercado e fornecedores confiáveis, além de estruturar um plano de negócio e reservar verba para marketing digital.

Outro ponto de atenção é o atendimento ao cliente, já que atrasos e falhas de entrega podem afetar diretamente a reputação da loja. Em um mercado mais competitivo e profissionalizado, especialistas alertam que vender sem estoque pode reduzir custos iniciais, mas já não elimina a necessidade de planejamento e gestão.

 

IMAGEM: Freepik

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