Vinicius Lummertz: 'Sem visão estratégica, Brasil perde oportunidades no turismo'
O ex-ministro do Turismo esteve na ACSP e destacou que o país tem o maior potencial natural do mundo para o setor, mas é freado por um ambiente de negócios ruim

Reconhecido por suas belezas naturais, o Brasil recebeu o recorde histórico de 6,6 milhões de estrangeiros em 2024. Entretanto, esse número se mantém relativamente constante desde 2015, sendo que oito em cada 10 dessas visitas foram registradas em aeroportos de São Paulo ou do Rio de Janeiro.
Embora o cenário seja considerado bom, Vinicius Lummertz, ex-ministro do Turismo e presidente da Embratur (2015-2018), vê potencial para o setor crescer muito mais, até porque, segundo ele, o desempenho do país tem sido inferior ao crescimento global.
Para o ex-ministro, o que afasta a concretização desse potencial é o risco interno. Lummertz é enfático ao afirmar que, apesar de o Brasil ter o maior potencial natural e estar entre os dez maiores potenciais culturais do mundo para o turismo, a instabilidade econômica e, principalmente, a insegurança jurídica colocam o país entre os piores ambientes de negócios do setor.
Nesta quarta-feira (05/11), Lummertz foi recebido pelo Núcleo de Turismo (NUT), que faz parte do Conselho de Política Urbana (CPU) da Associação Comercial de São Paulo (ACSP). Roberto Mateus Ordine, presidente da ACSP, Antonio Carlos Stefano, coordenador adjunto especial do CPU, Alessandro Azzoni, coordenador adjunto responsável pelo CPU e Núcleo de Estudos Socioambientais (NESA) da entidade, neste ato representando o vice-presidente e coordenador do CPU Antonio Carlos Pela, e Virgílio Carvalho, coordenador do NUT, acompanharam a reunião.
Um dos pontos de destaque mencionados por Lummertz foi o volume de recursos injetados pelo turismo estrangeiro, que atingiu R$ 32,5 bilhões em 2024, o maior resultado da história.
Ele citou também que, segundo o Conselho Mundial de Viagens e Turismo, o setor será o maior empregador do planeta até 2035, respondendo por 25% dos novos empregos. E que o turismo de natureza será o segmento que mais crescerá na próxima década - hoje, o turismo cultural já representa cerca de 40% da atividade mundial.
Outra crítica de Lummertz é que, mesmo diante dessas estimativas, o setor não aparece de forma explícita no Programa de Aceleração do Crescimento do governo federal e segue com crédito público reduzido, enquanto setores como o agronegócio dispõem de um orçamento sólido e muito superior.
"É preciso compreensão estratégica sobre esse sistema econômico amplo e interligado com planejamento de longo prazo que garanta posicionamento internacional consistente. O Brasil precisa tomar uma decisão política definitiva sobre o papel do turismo no desenvolvimento nacional, reconhecendo o setor como componente central da redenção econômica do país", afirmou.
Ao falar sobre a lentidão do crescimento brasileiro em comparação com o ritmo mundial, ele criticou a falta de prioridade, citando a Arábia Saudita, que investe US$ 3 trilhões na conversão para serviços e turismo, e a China, como exemplos de países que colocam o setor no centro do desenvolvimento.
Sobre gargalos, Lummertz apontou como obstáculos imediatos ao desenvolvimento a ausência de um plano de conectividade aérea eficaz e a desunião do trade turístico para montar uma pauta nacional coesa. Citando os grandes eventos, o ex-ministro enxerga o Brasil como uma potência reconhecida pelo Carnaval, o São João, a Oktoberfest, o Rock in Rio, o The Town, o Réveillon no Rio de Janeiro, além dos grandes shows internacionais realizados no país. O que ainda falta, segundo ele, é a formação de um ecossistema competitivo, infraestrutura moderna e desburocratização dos investimentos que dão suporte ao turismo com promoção permanente.
"Essa infraestrutura turística é um bem de utilidade pública e deve ser entendida como investimento estratégico de interesse nacional, com prioridade em licenciamento e garantias de sustentabilidade ambiental e social", disse.
Enquanto isso, ele apontou que, em outros lugares do mundo, essa visão está consolidada em legislações de distritos turísticos, que integram turismo, urbanismo e meio ambiente em um mesmo marco regulatório. A China foi um dos exemplos citados, pois o país interliga regiões culturais e naturais com trens de alta velocidade, parques temáticos, infraestrutura hoteleira e roteiros de natureza.
De acordo com o ex-ministro, cidades como Lijiang, Wuhan e Jingdezhen receberam investimentos significativos em cultura, tecnologia e meio ambiente, descentralizando o desenvolvimento e criando milhões de empregos regionais.
Por fim, criticou a forma como o Brasil tem se afastado do sentido mais elevado de produtividade e competitividade ao se tornar uma nação sem capacidade de pensar o todo, "que desconfia da eficiência, evita a produtividade e teme mudar, enquanto o mundo avança."
O problema, na opinião do ex-ministro, está justamente no ritmo. E cita que, enquanto a China faz reformas todos os anos, o Brasil discute cada uma por uma década. E enquanto lá se multiplicam os investimentos em infraestrutura e tecnologia, "aqui se multiplicam os carimbos e as restrições".
"As outras nações não fizeram um milagre, mas sim um processo contínuo de reformas econômicas e institucionais. Abriram zonas econômicas especiais, atraíram investimento estrangeiro, liberalizaram o câmbio, investiram em infraestrutura, educação e inovação. Cada década trouxe um novo ciclo de simplificação e expansão. Aqui temos medo e vivemos a estagnação", afirmou Lummertz.
IMAGENS: Cesar Bruneli/ACSP

