[Série: Tirando o Crachá #02] Vanessa Pimentel, da Templo: "A carreira é sua, não do seu gestor"

  • Plano de carreira linear adoece profissionais e cria expectativas irreais, afirma Vanessa Pimentel em episódio do Tirando o Crachá
  • Professora da FDC defende inteligência contextual, boa política e networking orgânico como fatores-chave para avançar na carreira
Por Anna Scudeller

[AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DC NEWS]
Carreira profissional é uma trajetória individual e pouco linear – o que torna o plano de crescimento algo visado pelas empresas para maior retenção de colaboradores. Segundo a pesquisa Loved Companies, realizada pela ILoveMyJob, 20,4% dos entrevistados apontam a possibilidade de crescimento dentro das empresas como principal característica de um emprego ideal. No novo episódio do Tirando o Crachá, uma parceria da AGÊNCIA DC NEWS com Felipe Ladislau, fundador da Black H. Office, a conversa foi Vanessa Pimentel, professora da Fundação Dom Cabral (FDC) e head de recursos humanos na Templo, empresa voltada para o uso de IA b2b. Ela afirma, porém, que dificilmente essa promessa de linearidade tem frutos positivos. “Faz com que muitas pessoas adoeçam e criem expectativas que não necessariamente vão ser atingidas”, disse. “A carreira é sua. A carreira não é da organização, não é do seu gestor.”

Pimentel afirmou que é necessário romper com a mentalidade tradicional de considerar apenas a formação acadêmica na hora das empresas avaliarem os candidatos. “Mas também vejo uma inabilidade por parte de quem está se candidatando de conseguir [fazer isso]”, disse. A executiva conta que há dificuldade em analisar a própria trajetória e notar competências que podem ser aplicadas em diferentes funções. “E eu acho que, em grande parte, é porque isso exige uma certa maturidade”, afirmou. “Hoje as novas gerações vão ter em média cinco carreiras ao longo da vida.” Ela destaca que essa inteligência contextual é essencial para avançar na carreira, inclusive mais importante do que a entrega isolada de resultados em fases mais seniores.

Durante o bate-papo, Pimentel desmonta o mito meritocrático: apresentar resultados é uma condição necessária, mas não garante mobilidade nem crescimento. “Existe essa falsa ideia de que eu entrego e naturalmente eu avanço”, disse. Então a profissional sugere estar atento à política organizacional da empresa. Ela propõe uma distinção entre “politicagem” e “boa política” no ambiente de trabalho, em que a boa política é uma competência estratégica tanto para o negócio quanto para a sustentabilidade da carreira. Pimentel sugere isso para deslocar o debate do campo moral para um mais funcional: organizações são sistemas de poder, interesses, recursos escassos e visões distintas. Ao ter isso em mente, o colaborador está melhor preparado para discutir e negociar seus interesses. “Existe a ‘boa política’ no sentido de negociação. Isso é importante para o negócio e para a nossa carreira”, afirmou. “Você só influencia quem confia em você.”

A fim de não romantizar a questão, Pimentel reconhece que há ambientes tóxicos e jogos vazios de poder, mas defende que a política “só vira problema quando existe por ela mesma e não gera resultado”. Na definição de Pimentel, “trânsito político”, não é necessário “jogar o jogo”, mas entender o tabuleiro. Ela destaca as principais características do bom “trânsito político”:

  • Saber quando falar e quando escutar;
  • Entender quem decide;
  • Adaptar a linguagem sem perder a essência;
  • Construir alianças sem perder integridade.

Outra questão corporativa abordada pela professora é o networking. Ela destaca que o networking é construído ao longo do tempo, como um “ecossistema”. Networking, segundo Pimentel, não deve ser usado como uma ferramenta oportunista. “Quanto mais fluido você descobre isso, mais fluido o caminho se torna”, disse. “Não é networking forçado, é uma rede de troca.”

CURIOSIDADE – Um aspecto importante destacado durante a entrevista é a curiosidade como traço de identidade. “Imaginar é coisa dos grandes”, afirmou. Segundo ela, ser curiosa é uma característica essencial de sua trajetória, mais ainda que cargos ou títulos. “Sou uma pessoa supercuriosa e essa curiosidade me acompanhou a vida inteira”, disse. “Muitas vezes a gente perde as características de essência ao longo da jornada corporativa.” A AGÊNCIA DC NEWS divulga os episódios toda sexta-feira, que também estarão disponíveis no Spotify e YouTube.

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