[AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DC NEWS]
Fundador da Destina China, que conecta empresários brasileiros a oportunidades no maior centro de produção do mundo, Theo Paul Santana é consultor em negócios internacionais, especialista no país asiático – onde vive há 15 anos – e autor do livro O Brasileiro que Decifrou a China, que será lançado em São Paulo dia 10 de março (às 19h), na Livraria Drummond (avenida Paulista 2.073, Conjunto Nacional). Nele, Santana une relato pessoal, bastidores de negociações e análise cultural para explicar como o país funciona além dos estereótipos econômicos.
Para Theo Santana, entender o país hoje é entender o futuro dos negócios. “Traduzir a China é traduzir mentalidade, hierarquia, tempo, risco e, principalmente, confiança”, disse. “Muitos negócios fracassam não por preço ou qualidade, mas por falta dessa tradução cultural.” Fluente em mandarim, o especialista afirma que a China não pode ser lida apenas como mercado, mas como sistema – onde Estado, indústria, tecnologia e cultura caminham juntos. “Ela não pensa trimestre. Ela pensa década. E quem negocia com ela precisa sair da lógica imediatista.”
Uma parte da obra é dedicada a tratar da transformação pela qual o país passou nas últimas duas décadas. Theo Santana diz que ao chegar ao país, a China era conhecida como a fábrica do mundo. “Vi esse mesmo país se transformar em laboratório global de tecnologia, mobilidade elétrica e consumo digital.” A seguir, a entrevista de Theo Santana à Agência de Notícias DC NEWS.
AGÊNCIA DC NEWS – A China ainda pode ser considerada o principal motor do crescimento global ou entramos numa fase de desaceleração estrutural do país?
THEO PAUL SANTANA – A China continua sendo, de longe, o principal motor do crescimento global. Mas é um motor que mudou de marcha. Em 2025, o PIB chinês cresceu 5,0%, atingindo 140,19 trilhões de yuans, aproximadamente US$ 20 trilhões. Para dimensionar: a China contribuiu sozinha com cerca de 30% de todo o crescimento econômico mundial, segundo o FMI. Nenhum país se aproxima disso.
AGÊNCIA DC NEWS – O que mudou?
THEO PAUL SANTANA – A questão é que o padrão mudou. Não é mais o crescimento de dois dígitos impulsionado por construção civil e infraestrutura. O setor imobiliário, que já representou 14,5% do PIB, caiu para menos de 13%. A Evergrande foi liquidada em 2025. A Country Garden está em reestruturação judicial. Os investimentos em P&D, por outro lado, alcançaram US$ 550 bilhões, 2,8% do PIB, superando a média dos países da OCDE pela primeira vez. A China registra mais de 1,4 milhão de patentes domésticas por ano e lidera as solicitações internacionais pelo sexto ano consecutivo.
AGÊNCIA DC NEWS – A palavra não seria crise, mas mudança, então?
THEO PAUL SANTANA – Não é desaceleração estrutural no sentido de declínio. É transição de modelo: de crescimento extensivo baseado em construção e exportação de manufaturados de baixo valor para crescimento intensivo baseado em tecnologia, inovação e consumo interno.
AGÊNCIA DC NEWS – O que mais preocupa hoje Pequim: a desaceleração econômica interna, mesmo que pela mudança de modelo, ou o redesenho das cadeias globais fora da China?
THEO PAUL SANTANA – As duas coisas preocupam, mas acho que Pequim enxerga a ameaça externa como mais urgente do que admite publicamente. O redesenho das cadeias globais não é abstração, é algo concreto. Quando os Estados Unidos impõem tarifa média de 47,5% sobre produtos chineses, com picos de 100% para veículos elétricos, e a Europa taxa veículos elétricos chineses entre 27% e 45%, você está falando de um bloqueio coordenado às indústrias mais avançadas da China.
AGÊNCIA DC NEWS – Qual a resposta de Pequim?
THEO PAUL SANTANA – A resposta chinesa mostra a escala da preocupação: o investimento direto no exterior. Por exemplo, saltou para US$ 192 bilhões em 2024, alta de 8,4%. A BYD está investindo 4 bilhões de euros na Hungria e US$ 1 bilhão na Turquia. Fábricas chinesas estão sendo erguidas por Vietnã, Marrocos, Indonésia, Marrocos, México… Isso não é diversificação voluntária, é adaptação forçada a um mundo que está levantando muros contra a exportação chinesa.
AGÊNCIA DC NEWS – E internamente?
THEO PAUL SANTANA – A desaceleração interna preocupa, mas Pequim tem instrumentos para gerenciá-la: política fiscal, estímulo monetário, controle estatal sobre grandes bancos.
AGÊNCIA DC NEWS – Já quanto às cadeias globais…
THEO PAUL SANTANA – O redesenho das cadeias é diferente. Depende de decisões de governos estrangeiros, o que a China não controla. Se o mundo se fecha, a China precisa garantir que sobrevive consumindo o que produz.
AGÊNCIA DC NEWS – Como o avanço do protecionismo nos EUA e na Europa tem alterado a estratégia econômica chinesa?
O protecionismo acelerou três movimentos que a China já planejava, mas que agora se tornaram urgência estratégica. O primeiro é a internacionalização industrial. A China está literalmente exportando fábricas. A BYD, que é o caso que eu conheço mais de perto por trabalhar no setor automotivo, está construindo plantas no Brasil, na Hungria, na Indonésia, na Tailândia e na Turquia. Simultaneamente. A fábrica de Camaçari, na Bahia, é a maior instalação da BYD fora da Ásia. A lógica é simples: se não pode exportar de dentro, produz de fora. Se a tarifa americana é de 100% para veículos elétricos vindos da China, mas o Mercosul permite exportação com 40% de conteúdo local, o Brasil vira trampolim para a região inteira.
AGÊNCIA DC NEWS – Qual o segundo movimento?
THEO PAUL SANTANA – O segundo é a autossuficiência tecnológica. As sanções sobre semicondutores e equipamentos de litografia forçaram a China a investir pesado em capacidade doméstica. O Big Fund III [programa chinês de incentivo], com US$ 47,5 bilhões, é maior que o Chips Act americano.
AGÊNCIA DC NEWS – E o terceiro?
THEO PAUL SANTANA – O terceiro é a diversificação de parceiros comerciais. O Brasil é beneficiário direto disso. Quando a China perde acesso à carne americana por sanções cruzadas, o Brasil exporta US$ 8,8 bilhões em carne bovina, alta de quase 48% em 2025. Quando as tarifas europeias encarecem os mesmos veículos elétricos chineses, o mercado brasileiro, com tarifas menores e demanda reprimida por eletrificação, se torna ainda mais atraente.
AGÊNCIA DC NEWS – A transição da China de ‘fábrica do mundo’ para potência tecnológica é limitada a alguns setores?
THEO PAUL SANTANA – É real, documentada e irreversível. Mas não é uniforme.
AGÊNCIA DC NEWS – Explique, por favor.
THEO PAUL SANTANA – Nos setores em que a China decidiu liderar, ela lidera de forma avassaladora.
AGÊNCIA DC NEWS – Por exemplo…
THEO PAUL SANTANA – Nos veículos elétricos. A China produz mais de 70% dos veículos elétricos globais. Em 2025, pela primeira vez, veículos elétricos ultrapassaram 51% das vendas de carros novos no mercado doméstico chinês. A BYD entregou 4,27 milhões de veículos em 2024 e desenvolveu um modelo novo do conceito à produção em 18 meses, contra mais de cinco anos de montadoras tradicionais. Juntas, as empresas chinesas controlam quase 69% do mercado mundial de baterias.
AGÊNCIA DC NEWS – Isso ocorre em quais outros setores?
THEO PAUL SANTANA – Em energia solar, a dominância é absoluta: 97% dos lingotes e wafers, 92% das células, 80% do polissilício. A China ultrapassou 1 terawatt de capacidade solar instalada em maio de 2025. Em drones, a DJI tem mais de 70% do mercado global. Em 5G, a Huawei fornece equipamentos para metade das redes de telecomunicações do planeta.
AGÊNCIA DC NEWS – Onde a transição ou a busca pela liderança é mais lenta?
THEO PAUL SANTANA – Em semicondutores de ponta (5nm ou menos), em software empresarial de classe mundial, em biotecnologia farmacêutica e em setores que dependem de inovação científica básica de fronteira [pesquisas que expandem os limites atuais do conhecimento]. A China investe mais que nunca em pesquisa fundamental [o repertório existente], mas construir ecossistemas de inovação de fronteira leva décadas.
AGÊNCIA DC NEWS – É possível fazer um paralelo com o Brasil?
THEO PAUL SANTANA – O ponto que sempre trago é: enquanto empresas brasileiras ainda tratam a China como ‘fábrica de produto barato’ estão olhando para uma realidade que acabou há pelo menos dez anos. A China de hoje registra mais patentes que qualquer país do mundo, investe 2,8% do PIB em P&D [Pesquisa & Desenvolvimento] e forma mais engenheiros por ano que EUA e Europa combinados. Não é mais Made in China. É Designed in China.
AGÊNCIA DC NEWS – A relação econômica entre Brasil e China continua excessivamente concentrada em commodities?
THEO PAUL SANTANA – Sim, e a concentração é preocupante. Cinco produtos (soja, petróleo, minério de ferro, carne bovina e celulose) representam 90% de tudo o que exportamos para a China. A soja sozinha responde por US$ 34,5 bilhões, e 76% de toda a soja brasileira vai para o mercado chinês. Manufaturados representam apenas 10% da pauta para a China.
AGÊNCIA DC NEWS – Quais os riscos?
THEO PAUL SANTANA – Os riscos são três. O primeiro é a vulnerabilidade de preço: quando a soja cai 20% no mercado internacional, o superávit brasileiro com a China derrete. O segundo é a substituição: a China anunciou planos de aumentar em 75% a produção doméstica de soja até 2033. Se conseguir metade disso, será uma pressão enorme sobre a demanda por soja brasileira. O terceiro risco é o mais estrutural: enquanto exportamos matéria-prima, importamos tecnologia. A balança comercial bilateral mostra superávit de US$ 29 bilhões, mas é superávit de commodities que esconde déficit crescente em manufaturados. Esse padrão, historicamente, é o de economia dependente, não de parceiro estratégico.
AGÊNCIA DC NEWS – Existe espaço real para o Brasil exportar mais produtos manufaturados ou serviços para a China?
THEO PAUL SANTANA – Existe, mas é menor do que o discurso oficial sugere. E exige esforço real. Hoje o espaço mais concreto está em proteína animal processada, celulose de especialidade, aeronaves – a Embraer tem operação consolidada na China – e serviços ligados ao agronegócio, como certificação de sustentabilidade e rastreabilidade.
AGÊNCIA DC NEWS – Você observa algum movimento para ampliar esses segmentos e mudar um pouco o cenário a favor do Brasil?
THEO PAUL SANTANA – Há sinais recentes de diversificação: no primeiro trimestre de 2025, a participação de manufaturados nas exportações para a China subiu para 23%, o dobro do padrão histórico. Mas isso precisa ser analisado com cuidado, porque parte desse aumento vem de celulose processada e alimentos industrializados, não de máquinas ou tecnologia.
AGÊNCIA DC NEWS – O que impede que esse movimento ganhe tração?
THEO PAUL SANTANA – O problema de fundo é competitividade. A China não precisa de manufaturados brasileiros. Ela precisa do que não consegue produzir: recursos naturais, terra arável, proteína.
AGÊNCIA DC NEWS – O que o Brasil deveria fazer para ter uma pauta de maior valor agregado?
THEO PAUL SANTANA – Para exportar valor agregado para a China, o Brasil precisaria competir com a própria indústria chinesa ou com os alemães, japoneses e coreanos que já estão lá. Sem política industrial séria, sem desburocratização radical, sem investimento em inovação, esse espaço continuará existindo mais no discurso do que na prática.
AGÊNCIA DC NEWS – Uma agenda de longo prazo… Haveria uma janela de oportunidades de curto prazo?
THEO PAUL SANTANA – A oportunidade mais inteligente, na minha visão, é agregar valor dentro das cadeias em que já somos competitivos: carne com selo de sustentabilidade, soja com certificação de carbono, celulose de aplicação técnica, café especial posicionado como premium.
AGÊNCIA DC NEWS – Como a China enxerga o Brasil hoje: parceiro estratégico, fornecedor confiável ou oportunidade geopolítica na América Latina?
THEO PAUL SANTANA – As três coisas simultaneamente, e é ingênuo pensar que a China separa essas dimensões.
AGÊNCIA DC NEWS – Por quê?
THEO PAUL SANTANA – O Brasil é fornecedor insubstituível de insumos críticos para a segurança alimentar e energética chinesa. São US$ 100 bilhões em exportações em 2025, sendo que 76% da soja, 45% do petróleo e mais da metade da carne bovina que a China importa vem do Brasil. Não existe substituto para esse volume no curto prazo. Ao mesmo tempo, o Brasil é a maior economia da América Latina, presidiu os BRICS em 2025, sediou a COP30 em Belém, e tem posição geopolítica de destaque num momento em que os Estados Unidos estão pressionando aliados a se afastarem de Pequim.
AGÊNCIA DC NEWS – Um cenário positivo, então?
THEO PAUL SANTANA – Xi Jinping declarou em agosto de 2025 que as relações Brasil-China estão no “melhor momento histórico”. Isso é mensagem tanto para o Brasil quanto para Washington.
AGÊNCIA DC NEWS – E o que deve ser lido nas entrelinhas?
THEO PAUL SANTANA – O que precisamos entender é que a China opera com visão de longo prazo. Os US$ 55 bilhões investidos em infraestrutura brasileira na última década criam vínculos que transcendem ciclos eleitorais.
AGÊNCIA DC NEWS – Por exemplo…
THEO PAUL SANTANA – A ferrovia Brasil-Peru, anunciada em julho de 2025, conectando o Centro-Oeste brasileiro ao Pacífico, dando à soja e ao minério brasileiro rota direta para a Ásia. Isso é parceria estratégica. Mas é também influência estrutural de longo prazo, algo que o Brasil precisa administrar com inteligência, e não apenas com gratidão.
AGÊNCIA DC NEWS – O Brasil poderia se beneficiar mais dos investimentos chineses sem comprometer sua autonomia econômica e industrial?
THEO PAUL SANTANA – Sem dúvida.
AGÊNCIA DC NEWS – De que maneira?
THEO PAUL SANTANA – A chave está em condicionalidades inteligentes. Os investimentos chineses no Brasil totalizaram US$ 4,18 bilhões em 2024, mais que o dobro de 2023, com 39 projetos recordes. A visita de Lula a Pequim em maio de 2025 trouxe mais de US$ 4,5 bilhões em compromissos. O Brasil é o terceiro maior destino global de investimentos chineses. O capital está disponível e disposto.
AGÊNCIA DC NEWS – O que pode ser feito a favor dessa agenda?
THEO PAUL SANTANA – O que falta é visão estratégica brasileira sobre o que queremos desses investimentos. Quando a BYD investe R$ 5,5 bilhões em Camaçari, gera empregos e produção local, é algo bom, mas se a fábrica opera com componentes 90% importados da China, estamos replicando o modelo que o México conhece bem: montagem sem transferência real de tecnologia.
AGÊNCIA DC NEWS – Como agir?
THEO PAUL SANTANA – O caminho é condicionar benefícios fiscais e acesso ao mercado a contrapartidas concretas: percentuais mínimos de fornecedores locais, investimento em centros de P&D no Brasil, formação técnica de mão de obra, parcerias com universidades brasileiras… A Coreia do Sul fez isso nos anos 1970 e 1980 com capital japonês e americano. A China fez isso nos anos 1990 e 2000 com capital ocidental. Não é protecionismo, é política industrial com inteligência.
AGÊNCIA DC NEWS – Mas não é o que fazemos…
THEO PAUL SANTANA – O que mais me preocupa é o contrário: aceitar investimentos passivamente, sem exigir nada em troca, e acordar daqui a dez anos dependente de tecnologia chinesa em energia, telecomunicações, transporte e e-commerce sem ter desenvolvido capacidade própria.
AGÊNCIA DC NEWS – Particularmente no setor automotivo, estratégico para a economia brasileira da indústria ao varejo, você vê a entrada agressiva de carros chineses no Brasil como ameaça ou uma oportunidade para o consumidor e para a indústria nacional?
THEO PAUL SANTANA – Para o consumidor, é inequivocamente uma oportunidade. Os carros chineses provocaram o que chamo de efeito BYD: concorrentes foram forçados a baixar preços em até R$ 100 mil, ampliar conteúdo tecnológico e lançar campanhas que não existiam quando o mercado era um oligopólio confortável. Pela primeira vez, em décadas, o consumidor brasileiro tem acesso a veículos elétricos abaixo de R$ 120 mil. O BYD Dolphin Mini preencheu um vácuo que as montadoras tradicionais ignoraram por anos.
AGÊNCIA DC NEWS – Uma explosão.
THEO PAUL SANTANA – Os números falam por si: o Brasil vendeu quase 224 mil veículos eletrificados [elétricos e híbridos] em 2025, crescimento de 26%, dez vezes acima da expansão do mercado total. Em dezembro, elétricos e híbridos alcançaram 13% das vendas, número recorde. A infraestrutura de recarga expandiu 59%, com mais de 16 mil pontos em quase 1,5 mil cidades. O mercado está se transformando em velocidade que ninguém previa.
AGÊNCIA DC NEWS – Para o consumidor, ganhos… Já para a indústria?
THEO PAUL SANTANA – Para a indústria nacional, a resposta é mais complexa. A BYD investiu R$ 5,5 bilhões em Camaçari, a GWM prometeu R$ 10 bilhões em dez anos em Iracemápolis, a GAC anunciou US$ 6 bilhões [ampliado para R$ 7,4 bilhões]. São fábricas reais, empregos reais, produção local. Mas a Anfavea tem razão em perguntar: qual o grau de nacionalização dessa produção? Se os componentes de maior valor, como baterias, motores elétricos, eletrônica continuarem vindo da China, o Brasil ganha montagem, mas não ganha indústria.
AGÊNCIA DC NEWS – Os veículos elétricos chineses conquistaram mercado com vantagem tecnológica ou principalmente com preços artificialmente competitivos?
THEO PAUL SANTANA – Os dois. E é fundamental entender por que os dois caminham juntos. A vantagem tecnológica é real. A BYD não é apenas uma montadora, é uma empresa de tecnologia que fabrica carros. Ela produz internamente baterias, semicondutores, motores, eletrônica, software e até os navios que transportam seus veículos. Essa integração vertical permite ciclos de desenvolvimento de 18 meses contra ciclos de cinco anos das [montadoras] tradicionais. A BYD registrou 38 novos modelos para aprovação regulatória em um único ano. A Volkswagen registrou seis. A CATL, que fornece baterias para metade das montadoras do mundo, lançou a bateria Shenxing PLUS com 1 mil km de autonomia e carregamento ultrarrápido. Isso não é subsídio, é inovação.
AGÊNCIA DC NEWS – Junte-se a isso o preço.
THEO PAUL SANTANA – Os preços são artificialmente competitivos no sentido de refletir um ecossistema construído por duas décadas de política industrial deliberada. A China investiu trilhões de dólares em subsídios, incentivos fiscais, infraestrutura de recarga, compras governamentais e formação de engenheiros para criar a cadeia de veículos elétricos mais completa do mundo. O preço das baterias caiu de US$ 200/kWh para US$ 80 a US$ 90/kWh em grande parte por causa da competição chinesa.
AGÊNCIA DC NEWS – Uma arma de guerra questionável, essa artificialidade de preços, não?
THEO PAUL SANTANA – Chamar isso de artificial é ignorar que os EUA fizeram o mesmo com semicondutores nos anos 1960, o Japão com automóveis nos anos 1970 e a Coreia com eletrônicos nos anos 1980.
AGÊNCIA DC NEWS – O que as montadoras tradicionais instaladas no Brasil devem olhar?
THEO PAUL SANTANA – As montadoras tradicionais não conseguem replicar no curto prazo não é só preço. É o ecossistema completo: escala de produção, verticalização, velocidade de desenvolvimento e capacidade de adaptação. A BYD já está desenvolvendo híbrido flex com etanol para o mercado brasileiro, tecnologia inédita criada em parceria com engenheiros brasileiros. Isso não é dumping. É competência industrial.
AGÊNCIA DC NEWS – O Brasil corre o risco de repetir no setor automotivo o que ocorreu com eletroeletrônicos no passado?
THEO PAUL SANTANA – No caso dos eletroeletrônicos, o Brasil perdeu completamente a capacidade produtiva. A Zona Franca de Manaus virou, em muitos segmentos, linha de montagem de componentes importados com incentivo fiscal que não gerou competitividade real. O país ficou sem marcas nacionais relevantes, sem capacidade de inovação e sem inserção nas cadeias globais de valor.
AGÊNCIA DC NEWS – O setor automotivo brasileiro pode repetir o fracasso da Zona Franca de Manaus, que praticamente só produziu renúncia fiscal?
THEO PAUL SANTANA – No setor automotivo, a situação é diferente.
AGÊNCIA DC NEWS – Por quê?
THEO PAUL SANTANA – Por dois motivos. Primeiro, o mercado brasileiro é grande demais para ser atendido apenas por importação: são 2,5 milhões de veículos por ano, e as montadoras chinesas estão investindo em produção local porque precisam do Brasil como base de custos e plataforma de exportação para a América Latina. Segundo porque o Brasil tem uma vantagem única: o etanol. Os híbridos flex representam uma oportunidade tecnológica que não existe em nenhum mercado do mundo. A GWM declarou que o Brasil será hub de P&D para desenvolver tecnologias adaptadas à América Latina.
AGÊNCIA DC NEWS – O setor automotivo está imune aos riscos, então?
THEO PAUL SANTANA – Não. O risco existe, sim. Se a produção local for montagem CKD com componentes importados, se não houver desenvolvimento de fornecedores de baterias e eletrônica no Brasil, se as montadoras tradicionais continuarem reagindo com lobby, em vez de inovação, o Brasil pode acabar como mercado de escoamento do excedente chinês. Exatamente o que a Anfavea alerta.
AGÊNCIA DC NEWS – O que deve ser feito para evitar o erro cometido pelo setor de eletroeletrônicos?
THEO PAUL SANTANA – A diferença entre repetir o erro dos eletroeletrônicos e criar uma nova indústria automotiva depende exclusivamente de política industrial. Mas, nesse ponto, o histórico brasileiro não inspira otimismo.
AGÊNCIA DC NEWS – O risco para o setor industrial pode ter paralelo no setor varejista, com o avanço de plataformas chinesas de e-commerce?
THEO PAUL SANTANA – É um setor que já está se consolidando como estrutural. A Shein tem entre US$ 3,8 bilhões e R$ 7,2 bilhões em receita no Brasil, 30 mil vendedores brasileiros no marketplace e comprometeu R$ 750 milhões em investimentos locais. A Temu, que chegou em junho de 2024, já é a segunda maior plataforma de e-commerce do país, com 142,9 milhões de visitas mensais e crescimento de 11.000% em um ano. A Shopee tem mais de 3 milhões de vendedores brasileiros, com 90% das vendas originadas de comerciantes locais.
AGÊNCIA DC NEWS – O que torna esse modelo sustentável?
THEO PAUL SANTANA – Não é marketing, é modelo de negócio. Essas plataformas conectam a capacidade manufatureira chinesa diretamente ao consumidor final, eliminando camadas de intermediação que encarecem o varejo tradicional. A Shein lança de 2 mil a 10 mil produtos novos por dia, contra 4,5 mil por ano da Zara. A Temu transforma compras em entretenimento via gamificação. São modelos que a indústria varejista brasileira simplesmente não consegue replicar na mesma velocidade.
AGÊNCIA DC NEWS – Difícil enfrentar essa dinâmica, não?
THEO PAUL SANTANA – Modelo sustentável não significa invulnerável. A Taxa das Blusinhas somada a 17% a 20% de ICMS, totalizando até 50% de carga tributária, já reduziu o volume de encomendas internacionais em 11% e tirou 14 milhões de brasileiros das classes C, D e E do consumo em plataformas estrangeiras. A Shein respondeu nacionalizando 60% das vendas e integrando vendedores brasileiros. Ou seja: a regulação não eliminou a plataforma, mas a forçou a investir no ecossistema local. É o tipo de resultado que, se bem administrado, pode beneficiar os dois lados.
AGÊNCIA DC NEWS – Há concorrência justa entre plataformas chinesas e varejistas brasileiros, considerando impostos e regras locais?
THEO PAUL SANTANA – A Taxa das Blusinhas corrigiu parte dessa distorção: a carga tributária total sobre compras internacionais subiu e o governo arrecadou R$ 2,9 bilhões em 2024. Mas a concorrência continua desequilibrada por outros fatores. As plataformas chinesas operam com escala que nenhum varejista brasileiro consegue igualar. A Shein tem acesso a cadeias de produção que entregam produto acabado em três a sete dias a custos muito inferiores.
AGÊNCIA DC NEWS – Mas o desequilíbrio permanece.
THEO PAUL SANTANA – A Abit (Associação Brasileira da Indústria Têxtil) aponta que 75% das empresas do setor citam a concorrência sem isonomia tributária como principal desafio. O déficit comercial têxtil piorou 15,7% em 2025, atingindo US$ 5,7 bilhões. Portanto, apesar dos avanços regulatórios, a competição ainda não é justa no sentido pleno.
AGÊNCIA DC NEWS – Qual a solução?
THEO PAUL SANTANA – A solução não é barrar as plataformas chinesas, mas criar condições para que o varejo brasileiro compita com armas iguais: simplificação tributária, redução do Custo Brasil e incentivos para digitalização da indústria nacional.
AGÊNCIA DC NEWS – Até lá o modelo atual não pode levar a uma desindustrialização do setor nacional?
THEO PAUL SANTANA – Pode, se não houver resposta estratégica. Mas é importante ser honesto: a desindustrialização brasileira não começou com a Shein ou a Temu. A participação da indústria de transformação no PIB caiu de 31,3% em 1980 para cerca de 11% em 2024. São 20 pontos percentuais perdidos em quatro décadas, um processo que começou muito antes de qualquer plataforma chinesa de e-commerce existir.
AGÊNCIA DC NEWS – Nos próximos cinco anos, qual deve ser o maior desafio da relação Brasil–China?
THEO PAUL SANTANA – O maior desafio é a diversificação. Se em 2030 a pauta exportadora para a China ainda for 90% commodities, teremos desperdiçado a janela mais favorável da história para reposicionar o Brasil como parceiro de valor agregado. É uma fragilidade que, em algum momento, vai cobrar preço.
AGÊNCIA DC NEWS – E a maior oportunidade?
THEO PAUL SANTANA – A maior oportunidade está na transição energética. Em 2024, 70% dos investimentos chineses no Brasil foram direcionados a sustentabilidade e energia verde. Adiciono uma segunda oportunidade que é menos discutida: o Brasil pode se tornar hub industrial da China para a América Latina. Com tarifas de 100% nos EUA e 45% na Europa, o Mercosul é uma das poucas portas abertas. Se o Brasil condicionar esse acesso a transferência real de tecnologia, desenvolvimento de fornecedores locais e investimento em P&D, pode capturar valor que vai muito além de montagem.
AGÊNCIA DC NEWS – E isso depende de…
THEO PAUL SANTANA – …Brasília ter visão estratégica.
AGÊNCIA DC NEWS – O que parece existir em Pequim, mas não em Brasília. Porque se hoje a China define preços, tecnologia e plataformas no mercado brasileiro, quem de fato está escrevendo a estratégia industrial do Brasil?
THEO PAUL SANTANA – Pequim tem estratégia. É um país que planeja em horizontes de dez, 20, 50 anos. Brasília, por outro lado, opera em ciclos de quatro anos, com agenda dominada por emergências fiscais, crises políticas e pressões de curto prazo. Não há documento público que equivalha a uma estratégia industrial brasileira para os próximos dez anos que integre comércio com a China, transição energética, indústria automotiva elétrica e soberania digital.
AGÊNCIA DC NEWS – Mais uma janela desperdiçada.
THEO PAUL SANTANA – Eu vivo entre Brasil, China e Alemanha há muitos anos. O que aprendi é que países com estratégia capturam valor da globalização. Países sem estratégia são capturados por ela.
AGÊNCIA DC NEWS – O que deveria estar na mesa de planejamento do país para sair da segunda opção?
THEO PAUL SANTANA – A pergunta que faço sempre é: o que o Brasil quer ser quando crescer? Fornecedor de soja e minério para sempre? Ou parceiro que agrega valor, transfere tecnologia e constrói capacidades próprias?
AGÊNCIA DC NEWS – Quem deve trazer essa resposta?
THEO PAUL SANTANA – A resposta a essa pergunta deveria vir de Brasília. Por enquanto, quem está respondendo é Pequim. E Pequim, naturalmente, responde no interesse de Pequim.