Wilson Poit, conselheiro da Fiesp: "O pequeno e médio empresário é muito solitário, precisa de apoio"
Wilson Poit: precisamos baixar os juros, porque está difícil até de renegociar as dívidas
(Andre Lessa/Agência DC News)
Presidente do conselho que representa a micro e pequena indústria diz que correção do Simples é "urgente"
Empreendedor de origem, Poit mantém desconfiança sobre a Reforma Tributária. E critica proposta de redução da jornada
Por Vitor NuzziCompartilhe:
[AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DC NEWS] Wilson Poit define-se como empreendedor em série. “Passei 30 e poucos anos como empreendedor, inclusive apoiado pelo Sistema S, fui aluno do Senai”, afirmou. “Fui muito apoiado pelo Sebrae, depois vendi a empresa [Poit Energia, vendida em 2012 para a inglesa Aggreko], fui para o governo. Uma trajetória rica de aprendizado.” Ele atuou em prefeituras paulistanas de colorações distintas: Fernando Haddad, João Doria e Bruno Covas, como secretário de Desestatização e presidente da São Paulo Negócios. Depois foram quatro anos no Sebrae de São Paulo, onde foi superintendente. Desde janeiro, é presidente do Conselho Superior da Micro, Pequena e Média Indústria (Compi) da Fiesp. Reconduzido ao comando da entidade após quatro anos – foi presidente de 2004 a 2021 –, Paulo Skaf montou um “ministério” com 19 conselhos, incluindo nomes como Roberto Campos Neto (Economia) Sergio Moro (Segurança), Michel Temer (Estudos Nacionais e Política), Tereza Cristina (Agronegócio) e Mendonça Filho (Educação). Esses colegiados têm quase mil integrantes – voluntários, destaca Poit. Para ele, três assuntos estão na parte de cima da pauta do Compi, onde atuam 40 pessoas: crédito, Reforma Tributária e educação financeira.
A questão do Simples Nacional também está radar do conselho. Duas semanas atrás, a Câmara dos Deputados aprovou requerimento de urgência para o Projeto de Lei Complementar (PLP) 108/2021, que aumenta o teto de faturamento dos microempreendedores individuais (MEIs) e o limite de contratação (de um para dois funcionários). Agora, o projeto está pronto para ser votado no plenário. Várias entidades foram a Brasília para reivindicar a votação. “Outras caravanas serão feitas”, disse Poit. “Essa correção do Simples é extremamente importante para manter essa máquina virando, para termos empresas pequenas mas saudáveis.”
Nas pesquisas da Fiesp, dois temas costumam aparecer com mais frequência: a questão tributária e o endividamento. Poit acrescenta um terceiro fator: solidão. “O pequeno e médio empresário é muito solitário. Ele precisa de ajuda, precisa estar junto das associações, precisa de apoio” “, afirmou. “As grandes empresas têm conselho, tem comitês e tal. O pequeno empresário acorda de noite com todos esses problemas.” A gestão da Fiesp vai se empenhar nisso, ‘para que esse empresário tenha com quem conversar”.
Poit: o pequeno empresário precisa separar o bolso esquerdo do direito (Andre Lessa/Agência DC News)
AGÊNCIA DC NEWS – Segundo o Sebrae, atingimos o número recorde de 24 milhões de CNPJs ativos. O Brasil é o país das grandes indústrias e dos pequenos negócios? WILSON POIT – O Brasil é o país em que a grande maioria é dos pequenos negócios. A importância é vital e daqui para a frente, mais ainda. Quem vai gerar os empregos que o Brasil precisa, que o estado de São Paulo precisa, são os pequenos e médios empresários. Ainda mais agora, com inteligência artificial, com tanta coisa acontecendo. As pequenas e médias empresas precisam de apoio, precisam de mais facilidade. Os gigantes, você está acompanhando o que acontece, não só por causa da IA, mas a cada dia automatiza mais, tem mais robô, tem mais coisa e está desempregando muito.
AGÊNCIA DC NEWS – Qual é o caminho? Formação? WILSON POIT – A gente tem um trabalho de incentivar o ensino, a casa aqui tem bastante expertise nisso. Nós queremos inspirar os jovens a pensar em terminar a escola e gerar empregos – e não só procurar empregos. Na minha época e até mais recentemente, todo mundo está terminando a faculdade e fazendo currículo. Todo respeito a essas pessoas, mas nós precisamos ter mais gente que saia da faculdade para criar um negócio, criar uma startup. Fortalecer o pequeno negócio. E a gente vem nessa gestão com bastante força, com bastante apoio do presidente Paulo Skaf, que voltou, como a gente fala?, ligado no 220, mandando mensagem de madrugada e com muita vontade de ajudar.
AGÊNCIA DC NEWS – Considerando a sua experiência como empreendedor, é mais fácil abrir e manter um negócio hoje? WILSON POIT – Do meu tempo para cá, melhorou. O tempo de abertura da empresa melhorou, mas continua um país burocrático, com dificuldades. Ainda é preciso fazer muitas coisas, seja na esfera municipal, estadual ou federal. A gente tem uma missão aqui de divulgar, para quem quer abrir ou seu negócio, que existem caminhos para facilitar isso. Existem muitos cursos hoje, gratuitos, disponíveis online, uma parte presencial, mas tem muito apoio, muita mentoria, muitos eventos. Tem mais sorte quem procura ajuda. Desde como abrir o negócio, como dar os primeiros passos, até como aprender a se organizar, fazer um fluxo de caixa.
AGÊNCIA DC NEWS – Quais áreas são mais procuradas? WILSON POIT – O comércio e parte de serviços, aquilo que exige menor investimento inicial, é mais procurado hoje em dia por quem está começando agora. Mas nós temos uma quantidade de pequenas indústrias que andaram de lado, nos últimos tempos, e que já tem alguma estrutura. Com um pouco de ajuda, um pouco de incentivo, pode se renovar e crescer. Mas, lógico, quem está começando o micronegócio, o MEI, quem está no Simples, que precisa de menos capital inicial.
AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DC NEWS – Esse é um nó? WILSON POIT – A gente sempre aconselha que não é só o primeiro investimento, mas saber fazer um fluxo de caixa. É como vai sobreviver depois, porque tem gente que só tem o dinheiro pra começar. E a gente ajuda muito a se planejar, a dar os primeiros passos, a fazer conta e fazer a engenharia financeira, buscar um dinheiro mais barato possível.
AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DC NEWS – Quais serão os efeitos da Reforma Tributária?Aumentam os dilemas dos pequenos empresários? WILSON POIT – O primeiro dilema é entender como vai ficar, porque nós temos algumas coisas bastante defasadas nos últimos anos. Até para não ter mais informalidade, para toda a cadeia produtiva ser beneficiada. Estamos esperando também as definições do governo agora, porque tem coisas que ainda não estão costuradas.
AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DC NEWS – Já é possível afirmar que a reforma será positiva para o setor produtivo, ou não? WILSON POIT – Nós somos otimistas. Faltam alguns pontos para serem definidos, regulamentados. Mas pode ser benéfico se as regras forem bem claras. Porque ou eles caem na informalidade sempre, ou vão para a inadimplência. A complexidade tributária era muito grande. Então, a gente sempre pensa que uma Reforma Tributária traga simplificação e correção dos valores, seja pro MEI, seja para o pequeno, o médio empresário. Isso vai ajudar. Mas não está claro ainda. Estamos esperando a regulamentação.
AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DC NEWS – E o projeto de lei de atualização do Simples, que motivou caravanas de empresários para Brasília? WILSON POIT – Essa correção é extremamente importante. Para manter essa máquina girando, para que a gente tenha mais empresas pequenas, mas saudáveis, com cadastro em dia. O Simples tem um mérito enorme. Outras caravanas serão feitas. A urgência disso está declarada lá [na tramitação do projeto], mas a urgência é também aqui na vida real.
AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DC NEWS – E os juros? O Copom reduziu os juros depois de quase dois anos. Também temos a questão da guerra, que pode influenciar o preço do petróleo. WILSON POIT – Atrapalha muito [juros altos]. Hoje é um dos grandes problemas, nós estamos fazendo pesquisas, tanto o Compi como o Dempi [Departamento da Micro, Pequena e Média Indústria], e uma das grandes preocupações é esse juro elevado. O pessoal está endividado. Mesmo com essa pequena redução, mas com tantas outras variáveis que a gente não tem controle, a guerra, o custo da energia, tudo que está acontecendo com o dólar, o cenário internacional, também atrapalha os pequenos.
AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DC NEWS – O acesso ao crédito… WILSON POIT – Se você pensar bem no custo de qualquer investimento, qualquer máquina nova que a gente precisa comprar, uma linha de produção que a gente precisa melhorar, e se a gente não tiver juros subsidiados, se a gente não tiver uma ajuda, como no passado existiam linhas para os pequenos, seja do BNDES, seja do Finep, fica difícil. E conseguir investidor mais ainda, porque o pessoal prefere deixar o dinheiro parado e virar rentista do que ajudar a linha produtiva.
AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DC NEWS – A taxa Selic já poderia ter caído antes? WILSON POIT – Não está claro para nós que vai continuar nesse viés de caída, até pelo cenário internacional. Mas nós precisamos baixar os juros. A gente sabe de toda a conjuntura, mas os juros em cima de tanto endividamento… E eles precisam vender. Hoje está difícil até para renegociar as dívidas. Taxa de juros e endividamento aparecem no topo da nossa pesquisa. E também aparece muito, por incrível que pareça, gente.
AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DC NEWS – Falta mão de obra? WILSON POIT – Encontrar gente boa para trabalhar na indústria, no pequeno e médio negócio, está bastante difícil. Gente qualificada. Tem muita gente procurando emprego. A casa ajuda muito com o Senai, com os cursos técnicos, o governo tem por exemplo o [Centro] Paula Souza. O pessoal sai empregado desses lugares. Só que o funil é muito grande para entrar, uma dificuldade danada para entrar, e quando sai sai empregado, nós precisamos de mais vagas para ensino técnico, para qualificação. Principalmente nessa parte de informatização. Jovens que querem aprender a programar, a utilizar IA. Falta mão de obra qualificada aí e sobra mão de obra em outros setores. Então, as grandes dificuldades do pequeno negócio na nossa pesquisa são Reforma Tributária, endividamento, encontrar gente e até solidão.
AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DC NEWS – Solidão? WILSON POIT – Tem um problema grave de solidão. O pequeno e médio empresário é muito solitário, o empreendedor, não só aqui no estado de São Paulo. Precisa de ajuda, precisa estar junto das associações, precisa de apoio. As grandes empresas têm conselho, têm comitês e tal, e o pequeno empresário acorda de noite com todos esses problemas. Estamos muito empenhados em tirar o pequeno e médio empresário da solidão, que ele tenha com quem conversar, que ele tenha o nosso apoio. Acho que é a mesma preocupação da Associação Comercial. Às vezes ele fica muito sozinho e acaba tomando uma decisão errada. Ou está meio desesperado.
AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DC NEWS – Qual é a perspectiva para a economia? Desaceleração, inflação relativamente controlada, mas já com um salto nas últimas edições do Focus… WILSON POIT – Eu sou sempre otimista, mas este é um ano complexo. Guerra, eleição, muita coisa acontecendo aí que fica difícil fazer prognóstico. Tenho ido aos eventos que os bancos promovem, os economistas, aqui mesmo nós tivemos uma reunião com participação do Roberto Campos. Está difícil fazer previsão.
AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DC NEWS – Até para os bancos? WILSON POIT – Estão com dificuldade. Se você fizer uma pergunta direta hoje para os bancos qual é a estimativa… Bom, a que eles mais erram é a do dólar. Se você perguntar como está a estimativa para o final do ano, de inflação, de juros, quando vai baixar esses juros, quanto vai estar o dólar, a gente tem um ano difícil de fazer previsão. Acho que o remédio para isso é a gente trabalhar bastante, fazer todo o empenho junto ao governo para lembrar dos pequenos e médios empresários. O mais difícil é lidar com aquilo que a gente não tem controle. Mas tem algumas coisas que no Brasil daria para ajudar mais.
AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DC NEWS – Eleição ajuda ou atrapalha? WILSON POIT – Tem os dois cenários. Por exemplo, essa questão da jornada de trabalho nos preocupa bastante.
AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DC NEWS – A proposta de terminar com a jornada 6×1? WILSON POIT – Colocar isso em votação na véspera de uma eleição. Nosso presidente tem dito todo dia que decidir isso nessa hora é quase uma bola perdida. Fica difícil para um deputado, um senador, votar contra isso. Principalmente para os pequenos e médios, traz um grande problema. Precisa contratar mais gente, reduzir a sua jornada, quando está precisando vender mais. O que salva um negócio pequeno é vendas. Você pode organizar, arrumar a parte tributária, conseguir algum empréstimo, mas se não vender você está ferrado. O contrário funciona: se você vender até mais do que pode, mais que tem capacidade, arruma alguém para ajudar. Foi assim na minha vida como empresário. Só que para vender mais você precisa estar com a porta aberta há mais tempo e não aumentar sua despesa. Porque é uma conta muito simples.
AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DC NEWS – Qual é a conta? WILSON POIT – A gente ajuda muito aqui o empresário a separar o bolso direito do bolso esquerdo, saber bem o que é o dinheiro do negócio, o que é o dinheiro do fluxo do caixa, do dia a dia do seu negócio, o que é o dinheiro das despesas pessoais, da vida dele. É uma preocupação muito grande nossa que ele não perca esse controle, porque é por aí que quando ele consegue empréstimo às vezes ele se perde. Nós procuramos muito ajudar aqui na educação financeira, na alfabetização tributária. Não só dos pequenos negócios, mas dos contadores, das associações, para todo mundo.
AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DC NEWS – Há muita incerteza ainda? WILSON POIT – Tem gente que ainda não sabe direito o que é CBS, o que é o IBS, como é que vai ficar, para quanto vai o Simples, quanto vai ficar a carga [tributária] final depois de toda essa arrumação. E o que isso vai impactar para o pequeno e para o médio, que é a grande massa que emprega no estado.