Com menos patrocínio este ano, 17º Festival In-Edit reflete crise e resiliência do cinema de rua em São Paulo
O publicitário Marcelo Aliche, que trouxe o In-Edit para o Brasil
(Andre Lessa / Agência DC News)
Para lidar com orçamento menor, Marcelo Aliche, diretor artístico do evento, fez cortes na programação internacional
Segundo o diretor artístico do festival, o público está cada vez mais exigente devido ao streaming
Por Bruno CirilloCompartilhe:
[AGÊNCIA DC NEWS]. Nas escadarias do Cine Olido, dentro da galeria de mesmo nome na avenida São João, o publicitário (e cinéfilo) Marcelo Aliche afirma que, até a primeira reforma do local, em 2004, o espaço era gratuito, abandonado e frequentado por pessoas em situação de rua que, não raro, dormiam na sala. Em 2016 o cinema entrou no recém-criado circuito da SPCine, agência municipal de fomento com 32 unidades na cidade, que atraiu o público e resolveu problemas estruturais, cobrando R$ 4 por ingresso. Foi somente em 2022, tendo atravessado a pandemia sem abrir as portas, que o Cine Olido – fundado em 1957 – ganhou ar-condicionado para refrescar até 239 pessoas nas sessões. Esse é um dos locais escolhidos para a exibição de filmes do In-Edit, o Festival Internacional do Documentário Musical.
O evento chega à sua 17ª edição entre 11 e 22 de junho. Aliche, seu diretor artístico, afirma que este ano perdeu um dos patrocinadores. A programação estrangeira, portanto, sofreu cortes. “Pela primeira vez temos um festival com mais filmes nacionais do que internacionais”, afirmou o produtor. Serão 43 películas brasileiras e 22 estrangeiras (ante 35 em 2024 ou cerca de metade da programação nos últimos anos). “Normalmente, também temos uma sessão temática. Este ano não tem”, disse. “Trabalhei o ano inteiro para fazer uma sessão de música e Guerra Fria. Aí não tivemos dinheiro. Não pôde ser.”
O 17º In-Edit terá 180 sessões espalhadas em seis cinemas. Segundo o diretor, a primeira exibição dos filmes de maior expressão (como a sessão de abertura do festival, Anos 90 – A Explosão do Pagode, na quarta-feira às 20h) foi direcionada para as salas bem equipadas da Cinemateca Brasileira, CineSesc e do Centro Cultural de São Paulo (CCSP), todas fora do Centro. A região central recebe o festival em três locais, no Olido e dois cinemas independentes, na Matilha Cultural (República) e no Cine Satyros Bijou, na Praça Franklin Roosevelt. Também haverá filmes em outro cinema da rede SPCine, o Paulo Emílio, na rua Vergueiro.
O Paulo Emílio, assim como outras 31 salas de cinema espalhadas por São Paulo, fazem parte do circuito criado pela prefeitura de São Paulo a partir de 2016. A SPcine completou 10 anos em 2025, com 12 salas entregues e recorde de 1.137 produções rodadas no ano passado. Desde o início do projeto, foram cerca de dois milhões de espectadores. Boa parte dos cinemas se encontra em CEUs, nas periferias, onde as pessoas não têm acesso aos circuitos comerciais, com ingressos gratuitos. Quatro unidades estão em antigos equipamentos da Secretaria de Cultura — o Cine Olido é o único cinema da rede no Centro. A agência de fomento também conta com streaming próprio, grátis, o Spcine Play.
O cinema da Olido foi o primeiro em São Paulo a funcionar dentro de uma galeria (Andre Lessa / Agência DC News)
Durante o evento serão exibidos 10 filmes brasileiros inéditos sobre diferentes expressões musicais do país. As películas concorrerão a uma première em Barcelona, na Espanha, onde o festival In-Edit foi criado em 2003. A iniciativa nasceu a partir de uma campanha do gim Beefeater, que inspirou um grupo de publicitários a idealizar o festival na Europa. Nos anos seguintes, um casal de chilenos amigos de Aliche levou a marca para Santiago e, em 2009, ele trouxe a ideia para São Paulo – atualmente, o evento está presente em seis países. Para a escolha dos concorrentes brasileiros, o júri é composto por três críticos. Já o público, segundo Aliche, são cinéfilos de todas as idades. “É gente que gosta de música, cinema e cultura. ” Ele cita que a programação envolve filmes de rock, chá, chá chá e jazz, muitas vezes em um único dia, no mesmo cinema. Segundo ele, nem o perfil do filme, nem o do público, é igual.
FOMENTO NECESSÁRIO– Financiado pelo Itaú e agora sem o patrocínio de uma agroindústria, o In-Edit é um festival que custa, em média, R$ 1,2 milhão – mas teve R$ 700 mil disponíveis este ano. A expectativa de público é alta: algo entre 16 mil e 20 mil pessoas. No ano passado, foram 18 mil. Esses espectadores, que não pagam para assistir aos filmes, estão cada vez mais exigentes, de acordo com Aliche. “Hoje, você tem a internet com inúmeras plataformas de streaming”, afirmou. “Outro dia vi uma que se chama Thunder Flix, só de heavy metal. É só show e documentário de metal.” Para Aliche, a segmentação dos filmes faz a indústria evoluir. Com o streaming, segundo ele, o setor cinematográfico como um todo deu um grande salto, puxando o mercado de documentários musicais. “O público tem mais opções. A demanda por filmes aumenta e, de alguma maneira, a oferta também.”
O mesmo não se pode dizer sobre a evolução dos cinemas no Centro de São Paulo. Aliche cita como exemplo o Cine Dom José, na rua Dom José de Barros. “Fizemos uma visita técnica e é lamentável o estado”, disse. Eles também visitaram o Cine Marrocos, na rua Conselheiro Crispiniano, que em 2016 foi ocupado pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST). “Hoje, uma coisa são os cinemas do SPCine, outra coisa são os cinemas do Centro”, disse Aliche. O próprio Cine Olido, escolhido pelo festival e que faz parte da rede SPCine, teve uma sessão de Gimme Shelter (documentário sobre os Rolling Stones) abarrotada de gente no In-Edit de 2011 – e todos devem ter passado algum calor pois, à época, o cinema só possuía ventiladores.
Segundo Aliche, não é possível fazer cinema e manter bons espaços de exibição sem o fomento público e a participação de financiadores do setor privado. Ele diz que a importância do poder público é muito grande, em especial para festivais como o dele, que se abastece, basicamente, da Lei Rouanet. “Esse dinheiro é de incentivo, então é a renúncia de um imposto que iria para o governo.” Aliche destaca ainda os editais do Proac, que também compõem a receita do In-Edit.
17º Festival Internacional do Documentário Internacional (In-Edit) Quando: 12 até 23 de junho Onde: CineSesc, Cinemateca Brasileira, Spcine Olido, Spcine Paulo Emílio (CCSP), Cine Bijou e Cine Matilha (Matilha Cultural) Preço: Grátis Programação:https://br.in-edit.org/
Não sabe o que assistir? Confira as quatro dicas do diretor Marcelo Aliche
Qual filme deve bombar?
Revival69: The Concert That Rocked The World, Ron Chapman (2022). “É um filme sobre o John Lennon, o primeiro show solo dele, enquanto ainda estava nos Beatles, ao lado de Little Richard, Jack Berry e Jerry Lewis.”
Qual filme será reexibido?
O Rap do Pequeno Príncipe Contra as Almas Sebosas, Marcelo Luna, Paulo Caldas (2000). “É uma homenagem aos 25 anos de um filme que estreou em Veneza e foi muito famoso naquela época.”
Qual filme estrangeiro não perder?
One to One: John & Yoko, Kevin Macdonald e Sam Rice-Edwards (2024). “É sobre aquele episódio [em 1969], quando Lennon e a Yoko Ono ficaram naquele lance da cama [o protesto Bed-in, lançado em Amsterdã pelo casal durante sua lua de mel e contra a Guerra do Vietnã.]"
Qual filme brasileiro não perder?
As Dores do Mundo: Hyldon, Emílio Domingos e Felipe David Rodrigues (2025). “O Emílio botou quatro filmes na praça este ano: Hyldon, A Explosão do Pagode e Os Afro-Sambas, que estão na mostra, e ainda o Vini Jr., que está no Netflix.”