[AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DC NEWS]
Aos 85 anos, a Pizzaria Ideal aprendeu a se adaptar ao tempo sem abrir mão da essência que levou seus fundadores a apostar no negócio, em 1940, no Belém, bairro de origem operária da Zona Leste paulistana. Mantida na mesma esquina desde a abertura (na Av. Álvaro Ramos, 798) a casa atravessou gerações, ampliou o salão, incorporou o serviço de almoço e hoje utiliza mais de 1,2 tonelada de mussarela por mês em seus produtos. O espaço é comandado por Francisco Carvalho de Sousa, cuja família adquiriu a pizzaria em 1982 e desde então administra o negócio. “A gente não comprou só um ponto comercial. Comprou a história, a rotina e o compromisso com o bairro.” Essa trajetória de permanência e adaptação colocou o Ideal entre os 25 estabelecimentos homenageados pelo Prêmio Comércio Histórico, iniciativa da Agência de Notícias DC News, da Associação Comercial de São Paulo (ACSP).
A trajetória da família que hoje comanda a Pizzaria Ideal acompanha o fluxo migratório que atravessou o século 20 no Brasil. Vindos de Portugal, os avós de Francisco Carvalho de Sousa chegaram ao Brasil ainda jovens, acompanhados por familiares, em busca de trabalho e estabilidade. Fixaram-se na região do Belém, atraídos pela concentração de fábricas e pela rede de parentes e conhecidos que já viviam no bairro. O comércio sempre esteve no centro dessa história: antes da Ideal, a família passou por bares, lanchonetes e padarias, em diferentes pontos da cidade, acumulando experiência no atendimento diário e no ritmo do balcão. Em 1982, a família adquiriu a Pizzaria Ideal, um espaço que já conheciam e apreciavam. Com a decisão dos antigos donos de vender o local, o avô e pai de Francisco decidiram que era a hora de ter um negócio tradicional. E a decisão foi por manter exatamente como estava. Na mesma esquina, o mesmo cardápio, os mesmos insumos. “Quem é daqui sabe onde fica o Ideal. Vira ponto de orientação.”
O crescimento veio sem ruptura. A pizzaria, que na década de 1980 tinha pouco mais de 80 lugares, passou por uma ampliação estrutural no começo do século 21, incorporando imóveis vizinhos e alcançando cerca de 320 lugares, além de uma cozinha maior e novos fornos. Ainda assim, a lógica foi a de crescer para dentro, sem abrir filiais ou transformar o negócio em rede. A decisão, segundo a família, sempre esteve ligada à tentativa de preservar o ambiente, o ritmo de trabalho e a qualidade que fizeram da casa uma referência no Belém – a Ideal recebeu este ano o Selo de Valor Cultural da Cidade de São Paulo. “Pensamos em franquear [o negócio] mas como eu iria garantir a mesma qualidade que os clientes têm aqui?”. A opção, então, foi vender mais, e melhor, dentro do próprio espaço. Além da ampliação física, uma expansão nas vendas por delivery, a entrada em aplicativos de entrega de refeições e cardápio online deram ao espaço um verniz da modernidade, sem tirar a essência do negócio. Atualmente são vendidas cerca de 120 pizzas por dia, com picos de 350 às sextas-feiras, sábados e domingos.
A virada mais recente na história da Pizzaria Ideal veio em um dos momentos mais delicados para o setor de alimentação fora do lar. A pandemia interrompeu a rotina de uma casa que, até então, funcionava exclusivamente no período noturno. O fechamento forçado e a queda brusca no movimento quase levaram o negócio ao limite. “A gente quase quebrou. Saímos de uma situação confortável para assumir dívida”, disse Francisco, que viu um caixa de mais de R$ 300 mil se tornar uma dívida de meio milhão de reais. “Quase quebramos. Mas não desisti. Nossas prioridades ficaram claras desde o começo”, afirmou. Entre elas, a decisão de não demitir funcionários.
Se a pandemia exigiu ajustes, a relação com os funcionários ajudou a sustentar o negócio no momento mais crítico. Hoje, o Ideal mantém 42 funcionários registrados, muitos deles com décadas de casa. “Aqui, quem entra não sai. Entra para sair no caixão”, diz Francisco, em tom de brincadeira. Há pizzaiolos com mais de 35 anos de trabalho no local e garçons que acompanham a rotina da casa há três décadas. Para ele, a estabilidade da equipe é parte central da longevidade do negócio. “Eu prefiro formar quem está aqui do que trocar.”
Essa lógica de proximidade também se estende ao atendimento. No Ideal, clientes são chamados pelo nome, mesas são reservadas sem formalidade e pedidos fora do padrão fazem parte da rotina. “Tem cliente que vem desde criança e hoje traz o filho adolescente. Outros almoçam aqui todos os dias”, afirmou Francisco. Há frequentadores que mantêm a mesma mesa reservada toda semana e outros que se tornaram conhecidos por pedidos específicos – da farofa preparada sob encomenda ao prato que já chega sem precisar ser solicitado.
Com a retomada gradual das atividades, a família decidiu testar algo que vinha sendo adiado havia anos: a abertura no horário do almoço. O que começou como uma resposta emergencial acabou incorporado de forma permanente à operação. “A gente já servia comida à noite, então foi uma adaptação. O almoço veio para ficar”, diz Francisco. A mudança ampliou o público da casa, trouxe clientes mais jovens e ajudou a diluir a dependência do movimento noturno, sem descaracterizar a identidade da pizzaria.
Parte da identidade do Ideal está em elementos que não se transferem nem se reproduzem. O forno a lenha, que leva dias para esfriar completamente, funciona como uma espécie de relógio próprio da casa, marcando um ritmo que atravessa gerações. “Você pode montar o mesmo forno em outro lugar, com a mesma equipe e os mesmos ingredientes, mas não sai igual. Tem o clima, o ambiente, o tempo do lugar”, diz Francisco. Essa noção de tempo também aparece quando o assunto é o futuro do negócio. Sem sucessão definida, a continuidade do Ideal não é tratada como algo automático. “Não sei se vou estar aqui daqui a dez anos. Ninguém sabe o dia de amanhã”, afirma. Os filhos seguiram outros caminhos profissionais, e a permanência da casa passa menos por herança formal do que pela maneira como o trabalho foi construído ao longo das décadas.
O BAIRRO – Se a pizzaria tem história, o bairro que a abriga também tem. Nos primórdios do século 20, o Belenzinho, bairro da zona leste de São Paulo, ganhou forma dentro de uma São Paulo em rápida industrialização. Oficialmente criado em 1899, o espaço passou de uma estância de chácaras e ar puro para um polo de fábricas e moradias operárias, atraindo imigrantes portugueses, italianos e espanhóis em busca de trabalho nas oficinas e tecelagens que brotavam na região.
Uma das marcas mais fortes desse caráter operário foi a Vila Maria Zélia, idealizada pelo industrial Jorge Street para abrigar operários da Companhia Nacional de Tecidos de Juta – um dos maiores complexos fabris do lugar – e inaugurada em 1917 como uma das primeiras vilas operárias do país, com habitações, escola, capela e espaços coletivos pensados para trabalhadores e suas famílias.A presença de grandes grupos industriais, como os Matarazzo, e a intensa circulação de trabalhadores trouxeram ao bairro uma vida social e política vibrante, que se refletiu nas lutas e tensões urbanas da época, inclusive no contexto das revoltas e mobilizações operárias que marcaram São Paulo na década de 1920.