Com 110 mil bares, São Paulo completa 472 anos – e a noite paulistana comemora por 365 dias seguidos

Uma image de notas de 20 reais
Cine Joia, no bairro da Liberdade, é uma das casas sob comando de Facundo Guerra
(Divulgação)
  • Com mais 110 mil bares e restaurantes, a noite de São Paulo é considerada a melhor do mundo, segundo a consultoria global Resonance
  • Lilian Gonçalves e Facundo Guerra, no topo da noite, descrevem as dores e as delícias de empreender quando as luzes da cidade acendem
Por Paula Cristina

[AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DC NEWS]
São Paulo completa 472 anos e a sua noite cumpre um papel que a cidade conhece bem: festejar os 365 dias do ano. Locais não faltam. A capital concentra cerca de 110 mil bares, restaurantes e similares, segundo a Abrasel SP, numa engrenagem que troca o dia pela noite e evolui junto com a população — mais diversa, mais conectada, mais exigente e mais interessada em experiências que vão além do prato e do copo. Nos últimos anos, a cena noturna viu as redes sociais romperem parte da intimidade da madrugada e acelerarem a popularização de endereços. Sentiu a alta gastronomia puxar a cadeira e se sentar de vez em centenas de mesas, ampliando o repertório de quem sai e de quem recebe. E, no meio desse movimento, uma transformação silenciosa mudou o jeito de viver a cidade depois que as luzes se acendem: a noite paulistana, que já teve muitos “donos” agora tem referências e inspirações. Empreendedores que construíram um império na calada da noite e mostraram ao mundo como São Paulo sabe acolher os mais variados públicos de braços abertos.

No topo dessa lista aparecem Lilian Gonçalves e Facundo Guerra. Pessoas de gerações diferentes, origens diferentes, que se encontraram no mesmo destino: a noite da cidade de São Paulo. Aos 77 anos, Lilian mantém cinco casas em operação, entre elas o Siga La Vaca e o Bar do Nelson, e carrega no currículo uma trajetória que começa em 1971, com a inauguração do Biroska, no Centro. Mineira, ela saiu de Brasília e chegou a São Paulo sozinha, aos 14 anos, trabalhou em bares, conheceu a noite paulistana em 1969, aos 16 anos, comprou o bar Toca da Angélica, num tempo em que empreender sendo mulher era peça rara. “Foi difícil. Passei por poucas e boas por ser mulher, mas eu nunca desisti”, disse. Ao longo de seis décadas de trabalho, Lilian, que é filha de Nelson Gonçalves, já teve 17 bares operando simultaneamente, e já somou mais 50 casas ao longo da trajetória. Ela é quem traz para a cultura da noite paulista conceitos populares até hoje, como a comanda individual e as tradicionais mesas nas calçadas. “Todo empreendedor precisa saber lidar com a adversidade. Essas ‘inovações’ foram fruto da necessidade”.

Facundo, aos 52 anos, nasceu na Argentina e chegou ao Brasil com 5 anos. Por aqui, coleciona formações. É engenheiro alimentar, jornalista e tem mestrado em políticas públicas. Passou por diversas multinacionais até, após uma demissão, encontrar no empreendedorismo uma saída. Foi com Facundo que a noite de São Paulo ganhou um novo contorno. Ele, que se diz emocional na escolha de suas casas, prioriza a experiência diferenciada. “Empreender também é se expressar através do seu produto. Ele precisa ser um pedaço de você”, disse. Atualmente, ele comanda casas como Bar dos Arcos, Blue Note, Cine Joia, Formosa, Love e Rolim, e já esteve no comando de outras dez operações. Para empreender, segundo ele, a intuição é fundamental. “Mesmo que as pessoas e o cenário externo dissessem que seria um erro, eu seguia”. Questionado se sua intuição nunca falhou, a resposta é de empreendedor nato. “A maior parte das vezes deu certo.”

Mineira, Lilian Gonçalves chegou a São Paulo aos 14 anos; Aos 16 comprou seu primeiro bar
(Andre Lessa)

As difíceis escolhas descritas por Lilian e Facundo se somam às mais de 110 mil empresas do ramo de bares e alimentação fora do lar que compõem a cidade de São Paulo. Deste universo, segundo a AbraselSP, bairros centrais como a Sé, República, Liberdade, Bela Vista e Consolação, totalizam 6,1 mil estabelecimentos. Essa pulverização de empresários, segundo Facundo, é algo extremamente positivo e o futuro da noite paulistana. “Não enxergo no futuro de São Paulo uma concentração de redes”, disse. De acordo com ele, o movimento atual mostra o valor que o cliente tem dado para o artesanal, o produto feito pelo próprio dono. “Redes podem tirar a alma do negócio.” Para ele, até mesmo os pequenos problemas trazidos por um trabalho manual, de uma pequena empresa, têm seu valor. “Em tempos de IA, onde somos expostos à perfeição o tempo todo, o defeito traz consigo uma beleza única.” 

Apesar do movimento mais fraco, tradicional do varejo, Lilian também segue otimista com o setor de bares na capital paulista. Para este ano, a empresária trabalha em uma reestruturação do negócio, com ampliação das receitas e do fluxo de clientes na casa dos 50%. “Vamos conseguir. Nada me parou até aqui. É só mais uma etapa”, afirmou. O bom momento vislumbrado pela empreendedora acompanha o humor do setor. De acordo com a Abrasel nacional, em dezembro, 47% dos empresários relataram lucro, enquanto 36% operaram em equilíbrio. Outros 16% fecharam o mês no prejuízo e 1% não existia no período. Segundo a entidade, o número de empresas no azul é o mais elevado dos últimos dois anos, apenas um percentual abaixo do registrado em janeiro de 2024. Segundo Paulo Solmucci, presidente-executivo da Abrasel, o setor encerrou o último trimestre de 2025 com um cenário bastante positivo, o que cria uma base mais sólida para 2026. “O verão e o Carnaval são apenas o ponto de partida. Outras datas importantes, como a Copa do Mundo, manterão a atividade alta.”

TOP OF THE WORLD – Corrobora com esse bom momento da cidade de São Paulo a pesquisa World’s Best Cities 2026, ranking global elaborado pela consultoria Resonance, que avaliou 100 cidades no mundo. A capital paulista ocupa a 18ª posição geral nesta edição, um salto expressivo em relação ao ano anterior, quando estava em 75º lugar. No recorte do estudo, o desempenho de São Paulo se apoia na combinação de força cultural, gastronomia e capacidade de atrair interesse. Nesse ponto, inclusive, São Paulo lidera. O ranking coloca a cidade como número 1 do mundo em Nightlife, dentro do eixo de Lovability (vibrância e qualidade percebida), citando regiões como Vila Madalena e Baixo Augusta como áreas movimentadas sete noites por semana. A lógica do indicador reforça que a noite paulistana deixou de ser só agenda de bares e casas: virou termômetro de desejo, circulação e experiência urbana e, para São Paulo, um ativo tão econômico quanto simbólico. Segundo o relatório, “São Paulo voltou à era do neon e possui grande engajamento nas redes sociais, com frequentadores muito satisfeitos”.

Para Facundo Guerra, a tedência é que São Paulo receba cada vez mais bares menores e mais personalizados
(Divulgação)

POR TRÁS DO BALCÃO – Além do glamour que a noite vende, o empreendedorismo no setor costuma ser uma maratona de risco. Facundo Guerra, que já passou por adversidades deste tipo, resume o desafio de forma objetiva: “O maior desafio de operar a noite é sobreviver. O maior desafio é não falir”. Para ele, o mercado está cheio de promessas fáceis — e é justamente aí que mora o perigo. “Não tem uma bala de prata”, disse. Segundo Facundo, o que sustenta uma casa é a soma de variáveis que precisam funcionar ao mesmo tempo: produto consistente, relação custo-benefício positiva para o cliente, formação de comunidade, trabalho bom de marketing e curadoria, além de “um ambiente legal, gestão, equipe — é um pouco de tudo”. 

Esse cuidado com a comunidade também é algo presente em toda a trajetória de Lilian. Ela (que cirula pela rua Canuto do Val todos os dias) faz questão de fechar, todas as noites, o caixa das cinco casas que possui. Nesse processo de décadas uma coisa nunca se perdeu, a tomada de decisão segue um exercício menos racional e mais instintivo — e que nem ela sabe explicar. “Eu olho e falo: é aqui. Vamos inaugurar. É impressionante. No caso dela, esse “felling” não é discurso: virou método de sobrevivência, expansão e reinvenção. Já Facundo, mesmo com formações e trajetória corporativa, também rejeita a ideia de tratar casas como números. “Escolher uma casa para investir, pra mim, é totalmente emocional. Eu nunca vi meus lugares como portfólio”, afirmou. 

Na leitura de Lilian, São Paulo é mais do que cenário de trabalho: é pertencimento. “São Paulo é meu amor. Eu amo São Paulo, sou apaixonada por São Paulo, louca por São Paulo”, afirmou. “Defendo a cidade e defendo demais o centro. Sempre defendi”. Desde os anos 1970, na rua Canuto do Val, Lilian precisou contratar seguranças, ampliou a calçada, comprou briga com prefeitos, fez abaixo-assinados. Tudo para defender a região. Para ela, a cidade ainda é um lugar em que vale insistir — pela força de quem empreende, pela circulação de gente e pelo papel que bares e restaurantes têm no cotidiano. “Não quero estar em outro lugar. Nunca quis. Me encontrei aqui”, disse.

Facundo enxerga essa mesma potência por outro ângulo: o da diversidade que transforma a noite em referência global. Para ele, São Paulo oferece uma variedade de estilos e experiências capazes de competir com capitais consagradas. “A noite de São Paulo é a melhor noite do mundo”, afirmou, citando que a cidade “bate de frente” com lugares como Berlim e Londres quando o assunto é repertório e pluralidade. Na prática, isso significa uma cena que acolhe diferentes gostos musicais, formatos e tribos — do bar de calçada ao palco, do encontro casual ao destino planejado — e que ajuda a explicar por que, aos 472 anos, São Paulo segue celebrando a própria vitalidade quando o dia termina e a cidade escolhe continuar. “São Paulo é única. São muitas noites dentro de uma única noite.”

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