[SÉRIE Vozes da Economia] Felipe Salto, da Warren: "Brasil é pródigo em criar regras fiscais, mas não em cumprir"

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Setor produtivo está pronto para um ciclo de crescimento, mas depende das contas públicas
(Andre Lessa / Agência DC News)
  • Ajuste fiscal em 2027 é inevitável, e eleição não muda a matemática: país terá de rever gastos e estabilizar a dívida, diz o economista
  • Próximo governo herdará déficit acima de R$ 80 bilhões vindos de 2026, mantendo pressão sobre dívida, juros e crescimento
Por Melina Dias

[AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DC NEWS]
Com gasto federal próximo de 19% do PIB, déficit primário projetado acima de R$ 80 bilhões e juros ainda na casa de 15% ao ano, o Brasil vive — na avaliação de Felipe Salto,  economista-chefe da Warren Investimentos — menos uma crise de regra e mais uma crise de execução fiscal. O especialista, que também foi diretor da Instituição Fiscal Independente (IFI) do Senado, sustenta que o país acumula diagnósticos, mas evita o ajuste estrutural necessário para estabilizar a dívida. “O Brasil é pródigo em criar regras fiscais, mas não em cumprir”, afirma. Sem contenção real de gastos e revisão estrutural do Orçamento, disse ele, a necessidade de um ajuste fiscal em 2027 será inevitável – e não há resultados nas urnas que mude isso. A entrevista com Salto integra a série Vozes da Economia, especial da Agência DC News que reuniu sete especialistas para discutir as principais dores e entraves da economia brasileira.

O descompasso aparece na execução do próprio Arcabouço Fiscal, a atual régua para controlar gastos do governo. Quando lançou a regra em 2023, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, projetava que o País já alcançaria superávit primário de 0,5% do PIB em 2025, abrindo espaço para conter o avanço da dívida. Os dados finais, porém, mostraram movimento oposto: as despesas do governo central cresceram 3,37% em termos reais no ano passado, acima do limite de 2,5% previsto pelo arcabouço, sem acionamento de gatilhos de contenção graças a exceções incorporadas à regra, segundo relatório do Tesouro Nacional.

O governo federal, no entanto, aponta ter havido o cumprimento, já que R$ 48 bilhões ficaram fora do cálculo do resultado primário, permitindo cumprimento formal da meta mesmo com déficit maior na prática. Pelos números do Banco Central, o setor público encerrou o ano com rombo de 0,43% do PIB e dívida bruta próxima de 79% do PIB. Há três anos, a dívida estava em 71,68%. Para Salto, o episódio reforça um padrão recorrente: o Brasil cria regras fiscais sofisticadas, mas perde força na execução, mantendo o gasto elevado e adiando o ajuste estrutural. “Mais do que debater regras, temos de partir para um plano coeso e realista de ajuste fiscal, com efeitos permanentes.”

Nos últimos dez anos foram quatro programas amplos de controle das despesas, e nenhum teve o efeito prometido. Em 2016, houve o Teto de Gastos, que estabeleceu um limite para o crescimento das despesas federais por 20 anos. Em 2019, foi a vez da Reforma da Previdência, medida estrutural para reduzir o déficit previdenciário. No mesmo ano surgiu o Plano Mais Brasil, um conjunto de PECs focadas na desvinculação de recursos e ajuste fiscal. O mais recente, de 2023, foi o Arcabouço Fiscal, conjunto de regras para substituir o Teto de Gastos, com metas de resultado primário. Sem uma âncora bem construída, segundo Salto, o navio do Brasil não será capaz de zarpar na velocidade que poderia. “O país perdeu a capacidade de planejar, de forjar o futuro e, sem isso, não haverá crescimento econômico elevado ou perene.” Confira a entrevista.

AGÊNCIA DC NEWS – O problema fiscal é de regra ou de execução?
FELIPE SALTO – As regras fiscais sempre podem ser aprimoradas, mas o essencial, neste momento, é retomar a ideia de que um ajuste efetivo nas contas públicas é inescapável para o país crescer de modo mais intenso e perene, com juros civilizados. As regras atuais, principalmente o chamado Novo Arcabouço Fiscal (Lei Complementar nº 200/23) são boas, porque permitem o controle do crescimento do gasto público e estimulam a geração de resultado primário. A meu ver, poderiam ter uma melhoria nos parâmetros considerados, incluindo a taxa de crescimento máxima do gasto e a meta de resultado primário. Mas isso não servirá para muita coisa se não houver um programa de contenção do gasto para valer.

AGÊNCIA DC NEWS – A confiança do investidor está frágil ou resistente?
FELIPE SALTO – A economia brasileira caminha bem, com desemprego bastante baixo e inflação sob controle. A confiança do investidor depende de uma série de variáveis, incluindo as perspectivas a respeito da política econômica e das diretrizes que serão adotadas nas principais áreas de interesse, sobretudo na questão fiscal. O ambiente, hoje, é positivo, mas o cenário eleitoral leva a uma certa apreensão geral, que acaba implicando certa resistência a decisões mais ousadas, que envolvam maior risco. Veja-se, por exemplo, que há muito tempo não temos aberturas de capital relevantes e, no caso da indústria, o setor vem andando de lado, o que é ruim para o país. O setor de serviços e comércio é pujante, mas sofre com a elevada e complexa carga tributária, problema cuja raiz está no gasto público elevado e crescente, sem contar o custo do crédito, em razão dos juros altos.

AGÊNCIA DC NEWS –  O empresário olha mais para Brasília ou para o caixa?
FELIPE SALTO – As duas dimensões são muito importantes e se correlacionam. O mundo político afeta as decisões das empresas, tanto pelo peso de novas legislações e decisões do Executivo ou do Judiciário quanto pelas indicações que as principais autoridades e lideranças dão a respeito da economia. Em um ano eleitoral, notadamente, as notícias de Brasília e os movimentos dos pré-candidatos e dos partidos “fazem preço”, como dizemos no jargão do mercado, e isso é acompanhado de perto pelo mercado financeiro e pelo setor produtivo. 

AGÊNCIA DC NEWS –  Há risco de choque de confiança em 2026?
FELIPE SALTO – Não vejo um risco de ruptura, no sentido de um cenário pessimista ganhar tração. A realidade da economia brasileira é muito conhecida e os problemas, amplamente debatidos. Os diagnósticos a respeito da situação das contas públicas, principal área a ser aprimorada no Brasil são muito claros. O que haverá, isso sim, é maior volatilidade, sobretudo pelos efeitos dos movimentos próprios do calendário eleitoral, a exemplo da confirmação de candidaturas e das pesquisas eleitorais. Isso pode implicar movimentos mais abruptos na taxa de câmbio, por exemplo, mas serão temporários. Em geral, as condições do balanço de pagamentos e as condições domésticas da economia nacional são positivas. O problema central e a resposta que se espera dos candidatos à Presidência da República é sobre sua capacidade para apresentar um plano de voo que pare de pé e não esconda da população os problemas e as soluções, muitas vezes, amargas. 

AGÊNCIA DC NEWS –  O arcabouço fiscal é melhor que o teto de gastos?
FELIPE SALTO – Costumo dizer que o Brasil é pródigo em criar regras fiscais, de escrever uma legislação de contas públicas. Mas não é tão pródigo para observar, para cumprir as regras aprovadas. A contabilidade criativa maculou as finanças do país, entre 2008 e 2014, e isso, de certo modo, está voltando, com descontos contábeis nas metas estipuladas, fundos orçamentários e outros. Mais do que debater regras, temos de partir para um plano coeso e realista de ajuste fiscal, com medidas que proporcionem efeitos permanentes sobre a dinâmica da dívida pública brasileira. Isso requer compromisso com a contenção do crescimento do gasto, revisão de incentivos fiscais e combate ao que eu tenho chamado de piloto automático no Orçamento público. Hoje, quase tudo é mandatório, obrigatório, de modo que o grau de liberdade para uma boa gestão fiscal está tendendo a zero. O Novo Arcabouço Fiscal ganha do antigo Teto, a meu ver, pela sua flexibilidade, amparada, inclusive, na literatura mais recente de regras fiscais. Não adianta ter regra excessivamente dura para, ato contínuo, adaptá-la ou contorná-la. 

AGÊNCIA DC NEWS –  Em ano eleitoral os gastos costumam subir, como isso impacta nas contas públicas este ano?

FELIPE SALTO – Na Warren Investimentos, projetamos crescimento real do gasto de 3,7%, em 2026, depois de um aumento de 4,1% em 2025. Na média de 2023 a 2026, o avanço real do gasto terá sido de 4,9% ao ano, pelas nossas contas. Em percentual do PIB, o gasto público federal situa-se na casa dos 19% do PIB, um patamar elevado. A melhora do resultado fiscal observada desde 2023 deve-se ao conjunto de medidas de recuperação de receita, principalmente, que permitiram estancar um pouco a sangria. Mesmo assim o próximo presidente deve herdar um déficit primário de mais de R$ 80 bilhões. A dívida/PIB, por sua vez, continua a crescer. O problema só será resolvido a partir de uma política que busque recobrar a geração de superávits primários suficientes para equilibrar a dívida como proporção do PIB ou da receita. Este deve ser o principal desafio. Ao longo do ano corrente, o Orçamento aprovado já é bastante generoso, em termos de políticas sociais, transferências e das famigeradas emendas parlamentares, que ultrapassarão a marca de R$ 60 bilhões. Não vejo grandes riscos de estripulias, além disso, até porque temos as limitações da Lei Eleitoral e da Lei de Responsabilidade Fiscal.

AGÊNCIA DC NEWS –  Com a Selic  ainda em dois dígitos e cortes monetários incertos em 2026, o Brasil está à beira de um ‘novo normal’ de juros altos ou há espaço real para quedas que mudem o ciclo de investimento e crédito?

FELIPE SALTO – Entendo que os juros começarão a diminuir a partir de março deste ano. O nível de partida é bastante elevado, de 15% ao ano, olhando o juro de curto prazo, o que corresponde a uma taxa real de dois dígitos, também. A redução da Selic, entretanto, só poderá ser mais intensa na presença de propostas de ajuste fiscal críveis, que levem à ancoragem das expectativas quanto à capacidade do governo de buscar o equilíbrio da dívida/PIB. Além disso, é preciso promover um debate sobre a meta de inflação, hoje em 3%, nível bastante agressivo para o caso da economia brasileira. Isso também explica o juro excessivamente alto no país, e não apenas a questão fiscal. 

AGÊNCIA DC NEWS –  Ano de eleição frequentemente comprime o ajuste fiscal — você vê o Brasil caminhando para mais garantias de credibilidade nas contas públicas ou para mais gastos?

FELIPE SALTO – Para 2026, não há a menor chance de uma mudança (para melhor) na política fiscal. O padrão do atual governo segue a lógica do mínimo necessário, nessa matéria, isto é, uma espécie de arroz com feijão para evitar um quadro pessimista ou coisa equivalente. Nesse sentido, não aposto em um quadro de “pé na jaca”, mas sou realista, no sentido de que o espaço existente para gastar será usado. Na verdade, entendo, neste momento, que será preciso uma alteração da meta fiscal estipulada na Lei de Diretrizes Orçamentárias, um superávit de mais de R$ 34 bilhões. Isso porque nossas projeções apontam déficit expressivo e, mesmo quando consideramos a banda inferior da meta e a possibilidade de abatimentos contábeis, o contingenciamento de despesas discricionárias (não obrigatórias) teria de ser tão elevado que poderia paralisar a máquina. Dito de outro modo, entendo que o atual governo vai usar de todos os mecanismos e de todo o espaço orçamentário possível para se reeleger, mas não irá além do que está na Lei Orçamentária Anual. Mesmo o Bolsa Família, que possivelmente será reajustado, deve se valer do próprio espaço previsto no Orçamento. A peça orçamentária indica um total de quase R$ 160 bilhões para o programa. Sem reajustes, o gasto tenderia a ficar em torno de R$ 7 bilhões menor do que esse montante. É precisamente isso que deve ser usado para conceder alguma benesse, dentro das regras. Respondendo mais diretamente à sua pergunta, aposto num quadro de mais do mesmo, para este ano, e numa imposição da realidade, em 2027. Ganhe quem ganhar a eleição, o desafio de ajustar as contas públicas já está contratado. Há um encontro marcado para 1º de janeiro, quando o vencedor das eleições precisará apresentar um plano coeso de consolidação fiscal.

AGÊNCIA DC NEWS –  Com crescimento global moderado e riscos geopolíticos intensos, o Brasil pode atrair capital produtivo ou está fadado a fluxo de curto prazo e fuga em choques?

FELIPE SALTO – As condições da economia brasileira são positivas. O balanço de pagamentos marca-se por uma balança comercial robusta e o déficit em conta corrente, apesar da piora recente, é bem coberto pelos investimentos externos diretos. Claro, essa realidade não é imutável, mas o ponto de partida é bom. Isso se combina com um nível elevado de reservas internacionais e um juro real atrativo também. Mesmo em um cenário internacional conturbado, podemos atrair capitais de melhor qualidade se conseguirmos mostrar ao mundo capacidade de elaborar e executar uma política econômica mais austera, que corrija as distorções do Orçamento. Isso significa reduzir e conter o avanço dos gastos tributários, debater as vinculações e indexações, reduzir emendas parlamentares, cortar subsídios creditícios e financeiros, combater os supersalários, reformar a previdência (sim, mais uma vez) e por aí vai. Há uma lista enorme de medidas que terão de ser tomadas.

AGÊNCIA DC NEWS –  Crescimento de 2% (ou algo em torno disso) pode mascarar fragilidades na economia real — você diria que o PIB está inflado por choques setoriais ou que ele de fato traduz uma base na atividade econômica atual?

FELIPE SALTO – A economia brasileira provavelmente tem um potencial maior do que boa parte de nós, economistas, imaginávamos. O crescimento do primeiro biênio do atual mandato chegou a quase 7%, em termos acumulados. A desaceleração em curso reflete nossas debilidades estruturais, que acabam resultando em juros reais estratosféricos, como sabemos. Não vejo o PIB inflado. Me preocupa, isso sim, a acomodação das expectativas e das esperanças da sociedade em torno de uma taxa tão pífia quanto essa. Um crescimento em torno de 2%, em 2026, é medíocre. Estamos nos contentando com pouco e isso é sério. O país perdeu a capacidade de planejar, de forjar o futuro e, sem essa capacidade, não haverá crescimento econômico mais elevado e perene. 

AGÊNCIA DC NEWS –  Se o crédito segue caro, a produção ainda não engrena e o consumo está embrulhado em cautela, qual seria a ‘verdadeira causa raiz’ que a maioria dos diagnósticos ignora — e por quê?

FELIPE SALTO – A causa principal do baixo crescimento, numa perspectiva de prazo mais longo, é a combinação equivocada de política econômica, com política fiscal frouxa e o lado monetário sistematicamente apertado. O principal obstáculo ao crescimento está na questão das contas públicas. A dívida é extremamente alta, quando comparada ao nível dos países emergentes, e não é apenas o juro que explica essa situação. Mesmo no caso desse fator, o lado fiscal também pesa. A reorganização das contas públicas para retomar uma política de geração de superávits primários é parte central do processo. Em um primeiro momento, o ajuste fiscal tem efeitos negativos para a atividade, mas o custo se transforma em benefício à coletividade em um segundo momento, porque os juros podem se situar em patamares mais baixos, as expectativas melhoram e a qualidade dos investimentos melhora. Sair do equilíbrio ruim e migrar ao novo é tarefa difícil, pois demandará liderança política e boas propostas, além de articulação com um Congresso cada vez mais voltado apenas para discussões menores, a exemplo da partilha de emendas. Aliás, esse é um ponto que precisa entrar na discussão do ajuste também.

AGÊNCIA DC NEWS –  Qual é hoje a maior fonte de incerteza econômica — política fiscal, política monetária, cenário eleitoral ou economia internacional? Como ela se traduz na economia real?

FELIPE SALTO – Todos esses componentes importam. Hoje, o cenário internacional guarda uma série de fatores de risco. Veja o recente caso da Venezuela, sem contar os diversos episódios envolvendo a política tarifária dos Estados Unidos. Por ora, o saldo tem sido positivo para o Brasil, porque o dólar perdeu força e, relativamente, o real ganhou, o que proporcionou uma bela ajuda para o controle da inflação doméstica. Mas isso não é necessariamente uma condição permanente. Do ponto de vista doméstico, tomando como base aquilo que está ao alcance dos governos, o desafio é muito claro: promover uma consolidação das contas públicas capaz de restabelecer o equilíbrio, a sustentabilidade da dívida/PIB. E isso é só o começo. Para crescer com consistência, também importará, e muito, a qualidade da política de comércio exterior. Só há dois jeitos de elevar o crescimento: aumentando fortemente as exportações líquidas de importações e turbinando os investimentos.

AGÊNCIA DC NEWS –  O mercado de trabalho ainda está sustentando o consumo, como o emprego deve se comportar em 2026?

FELIPE SALTO – O mercado de trabalho apresenta um desempenho muito positivo. A hipótese de que tivemos ganhos de produtividade e de que as mudanças demográficas podem estar produzindo efeitos sobre isso é importante. Claro que há, também, o peso das transferências sociais, com o forte crescimento do Benefício de Prestação Continuada e o Bolsa Família em um nível bastante alto, em que pese o ajuste recente nos benefícios deste último. Mas o fato é que o emprego deve continuar bom em 2026. Neste momento, entendo que temos de concentrar esforços para pensar o futuro. Isto é, como garantir uma política econômica mais sólida para a partir de 2027, que, na verdade, já é amanhã.

AGÊNCIA DC NEWS –  Se você tivesse que apontar UM entrave principal do Brasil hoje, qual seria — e por que ele domina todos os outros?

FELIPE SALTO – Trata-se do desequilíbrio fiscal. Isso é quase um consenso. Não há evidência histórica de países que tenham conseguido promover o desenvolvimento perene sem uma política fiscal sólida. Sim, temos uma política monetária excessivamente rígida, mas isso está associado também aos erros na definição das metas de inflação. De todo modo, o desafio central está no lado fiscal. E são diversas as frentes de batalha: promover uma reforma orçamentária que devolva o Orçamento à sociedade; conter o avanço do gasto obrigatório; respeitar regras fiscais e aprimorá-las; evitar a contratação de gastos novos sem avaliação e monitoramento; desenhar políticas públicas a partir de estudos quantitativos e qualitativos, e não ao saber dos eventos. Há uma avenida de mudanças que tem de ser pavimentada. E é urgente.

AGÊNCIA DC NEWS – Qual é o consenso econômico mais repetido hoje que você acha que está errado — e por quê?

FELIPE SALTO – Não vejo algo assim evidente. O que existe é, por vezes, um conjunto de análises mais superficiais, que escolhem um único vilão para explicar nossas fragilidades, como no caso dos juros, que são um problema, mas talvez apenas reflitam, no fundo, uma estrutura distorcida a ser corrigida. Nada é tão simples, contudo, e o que me parece claro, de todo modo, é o caráter inevitável de uma reorganização das contas públicas. 

AGÊNCIA DC NEWS –  O Brasil está com Selic de 15%: qual é o custo invisível disso na economia real que ainda não entrou no debate público?

FELIPE SALTO – Os juros altos refletem, como disse, uma série de problemas. A meta de inflação excessivamente dura, o desequilíbrio fiscal, a baixa capacidade de ampliar as condições de oferta e de poupança da economia, entre outros. Evidentemente, juros nominais e reais tão altos representam veneno para o setor produtivo em geral. O custo de oportunidade do investimento é elevado nesse contexto. Um exemplo prático: o dono de uma padaria dificilmente conseguirá expandir o seu negócio e abrir filiais se o retorno esperado desses projetos não conseguir atingir ao menos esses 15% ao ano. Torna-se mais palatável investir os recursos eventualmente disponíveis em renda fixa. E isso vale para comércio, pequeno e grande, e para a indústria. A questão é que a mudança dessa realidade passa por uma nova política de gastos públicos. Nesse aspecto, iniciativas como o “Gastômetro”, da Associação Comercial de São Paulo, devem ser louvadas, porque colocam luz sobre o problema e ajudam a conscientizar a população. Isso é duplamente importante em um momento como o atual, véspera de eleição.

AGÊNCIA DC NEWS – Muito se fala em investimento em tecnologia, quebra de barreiras, indústria 2.0. Na sua opinião, as empresas brasileiras estão ficando mais produtivas — ou por enquanto apenas mais caras?
FELIPE SALTO – O Brasil, como em muitas ocasiões, está atrasado nesses quesitos. Estamos parados no século passado em termos de enfrentamento dos desafios econômicos, e isso dificulta avançar no debate sobre os temas novos. A questão da incorporação de novas tecnologias, da regulamentação da Inteligência Artificial etc. acabam ganhando pouco espaço, relativamente, e isso prejudica o país. Vejo o nosso setor produtivo, em geral, como bastante competitivo, potencialmente falando. Mas só vamos conseguir, de fato, nos colocar como uma economia à altura dos competidores internacionais, quando houver uma coalizão, um esforço conjunto, guiado por lideranças efetivamente preocupadas com o futuro do país, que enfrentem para valer os problemas. Não dá para continuar a sustentar benefícios fiscais, por exemplo, para amigos do rei, que se apropriam de nacos do Orçamento Geral, enquanto o restante do setor produtivo enfrenta alta carga tributária, péssima infraestrutura e elevado custo de crédito. Ultrapassar essas barreiras é fundamental para entrarmos de cabeça nas novas discussões. Estamos perdendo o bonde da história.

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