[DC NEWS TALKS #90] Prado, Iemi: "Consumo de vestuário sobe 42% em 25 anos. Indústria pode dobrar de tamanho, se país não punir empresário"
Mesmo com varejo têxtil em R$ 295 bi, produção nacional cai 20% em cinco anos; importados já respondem por 20,9% do consumo no Brasil
Para o IEMI, o setor de moda pode dobrar de tamanho, mas só se o país enfrentar o Custo Brasil e a tributação anti-indústria
Por Bruna Lencioni | Letícia CassianoCompartilhe:
[AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DC NEWS] A consultoria Iemi – Inteligência de Mercado monitora cerca de 20 mil empresas da indústria e do varejo e desenvolve aproximadamente 300 estudos por ano para mais de 400 empresas, entre elas grandes varejistas, que estão entre seus principais clientes. Sócio-diretor da companhia há 36 anos, Marcelo Villin Prado afirma que o cenário da indústria de moda no Brasil, olhando para frente, é positivo, mas condicionado a um fator já conhecido: o Custo Brasil. “Se o país não punir o bolso do consumidor e do empresário, essa indústria tem potencial para dobrar de tamanho”, afirmou em entrevista ao DC News Talks, o videocast da AGÊNCIA DC NEWS.
Levantamento realizado pelo Iemi a pedido da DC NEWS, sobre o comportamento do consumidor e as transformações dos setores industrial e do varejo, coloca na mesa dados que corroboram com a análise do especialista. “Nos últimos 25 anos, o consumo interno de vestuário cresceu 42%”, disse Prado. A linha adulta teve alta de 45%, e as linhas infantil e bebê, 28%. Houve outro fenômeno no período, especialmente pós-pandemia. A busca por trajes mais leves e confortáveis – isso explica o boom dos tênis também. Roupas sociais perderam 26% de mercado, roupas de malha ganharam 5%. Esse mix de roupas informais teve avanço de 49% de share, indica o estudo.
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Segundo ele, toda a análise histórica mostra, portanto, que o segmento industrial que abastece o varejo de moda ainda tem amplo espaço para crescer. “Crescemos uma Argentina em 25 anos, em termos populacionais, com 40 milhões de habitantes a mais”, disse. “Seja abastecendo o mercado interno ou o externo, a brasilidade é um diferencial.” O especialista também destaca oportunidades em nichos específicos, como o universo fitness – também destacado no estudo. “Nos anos 2000, tínhamos cerca de 900 mil alunos matriculados em academias. Hoje, são mais de 10 milhões.” Para ele, esse movimento ajuda a explicar o crescimento acelerado do mercado de moda fitness (cresce duas vezes mais do que a média). “Isso reflete uma mudança de comportamento social e de expectativa de vida.” Para ele, essa é mais uma virada de chave. “A economia prateada está posta, e parte do mercado já começa a entender esse fenômeno.”
DADOS – Segundo o levantamento mais recente do Iemi, o varejo têxtil nacional movimentou R$ 295 bilhões em 2024, crescimento nominal de 6% em relação ao ano anterior. Descontada a inflação, porém, a alta real foi de 1,3%. De acordo com Marcelo Villin Prado, o avanço moderado reflete um país desindustrializado e com forte concorrência de produtos importados. Entre 2019 e 2024, a participação dos importados no consumo interno passou de 14,5% para 20,9%. “O Brasil perdeu share”, disse. Essa retração está diretamente associada a um ambiente nacional pouco favorável à indústria. “No caso da cadeia produtiva, a tributação é anti-indústria”, afirmou o executivo.
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A vestimenta é o terceiro item mais consumido nos lares brasileiros, atrás de alimentos e veículos, e a presença de produtos importados nos guarda-roupas do país vem crescendo. Desde a pandemia de Covid-19, a participação das importações no consumo interno avançou de 14,5% para 20,9%. “A indústria brasileira perdeu participação de mercado. Após a pandemia, a China ampliou ainda mais sua posição como principal fornecedora global de têxteis”, avaliou o sócio-diretor. Segundo ele, grandes varejistas chinesas possuem elevada capacidade de reação. “Tudo o que o governo chinês pôde fazer para recuperar sua indústria no período pós-pandemia, fez.” Na avaliação do entrevistado, mesmo após a implementação da chamada Taxa das Blusinhas (Lei 14.902/2024), a produção têxtil nacional ainda não conseguiu recuperar o espaço perdido com o avanço das exportações chinesas.
PROBLEMAS E OPORTUNIDADES – Na ponta do varejo, Marcelo Villin Prado afirma que há duas queixas comuns entre os varejistas que recorrem ao Iemi em busca de diagnósticos e soluções. “Geralmente, o varejo enfrenta dois problemas. O primeiro é a localização”, afirmou. Redes com lojas padronizadas – com o mesmo mix de produtos, posicionamento de preços e até design semelhante – podem apresentar desempenhos bastante distintos entre unidades. Segundo ele, o fator determinante costuma ser o ponto comercial e a compreensão do fluxo de consumidores. “Uma loja vai bem, outra vai mal. É preciso entender em que momento do dia o consumidor passa e compra.”
O segundo desafio está relacionado ao giro de mercadorias. Produtos com margens atrativas podem não vender, permanecer em estoque e comprometer a operação. Para o executivo, a principal solução passa pelo conhecimento profundo do consumidor. A partir da escuta ativa de quem frequenta as lojas, o varejo consegue identificar falhas e oportunidades ao longo da jornada de compra. Entre seus métodos de análise, o Iemi utiliza a pesquisa de consumidor oculto, na qual o pesquisador vivencia toda a experiência de compra dentro do ponto de venda. “Não se trata apenas de números. Hoje, a experiência tem peso central”, afirmou. Segundo ele, o uso estratégico das redes sociais e o fortalecimento do relacionamento com o público são fatores decisivos para a fidelização do consumidor. Confira a entrevista.