[SÉRIE Vozes da Economia]. Especialistas afirmam que problema do país é estrutural, não de conjuntura

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Barreiras brasileiras são as mesmas e impendem um crescimento de longo prazo
(Imagem gerada por IA)
  • Brasil cresce em média 2,4% ao ano desde 2000, segundo o IBGE, e caminha há décadsas sem alcançar tração econômica
  • Painel da Agência DC News reúne sete especialistas que apontam entraves persistentes e como combatê-los para o país sair da autoarmadilha
Por Paula Cristina

[AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DC NEWS]
A AGÊNCIA DC NEWS reuniu sete economistas de diferentes correntes de pensamento para submeter o Brasil a um teste simples e desconfortável. Em vez de projeções ou previsões de curto prazo, o painel partiu de três perguntas diretas: qual é hoje o principal entrave do país, qual consenso econômico pode estar errado e qual o indicador que mais preocupa – e por que precisamos ficar de olho em 2026. A proposta não era buscar respostas fáceis, mas medir o grau de convergência – ou de conflito – no diagnóstico de uma economia que cresce pouco, convive com juros elevados e entra em 2026 cercada de incertezas. Entre 2000 e 2025, o Brasil cresceu em média 2,4% ao ano, segundo série histórica do IBGE, ritmo que caiu pela metade desde 2011. É diante desse dado que os economistas convergem em um ponto: o problema brasileiro não é conjuntural, está na estrutura da nação. 

Para dar detalhes sobre suas perspectivas, Carlos Honorato (especialista em varejo e professor da FIA), Cássio Besarria (pesquisador em macroeconomia e membro do Ibre), Felipe Salto (economista-chefe da Warren Investimentos), Luciano Sobral (economista-chefe da Neo Investimentos), Murilo Viana (especialista em tributação e economista da GO Associados), Rafael Cortez (cientista político e sócio da Tendências Consultoria) e Rodolpho Sartori (economista da Austin Rating) darão suas impressões sobre os assuntos que devem dominar a cena econômica brasileira ao longo do ano.

O PRINCIPAL ENTRAVE – Apesar de partirem de diagnósticos distintos, as respostas convergem na ideia de que o Brasil enfrenta hoje um problema estrutural que limita crescimento, investimento e previsibilidade. Para parte do painel, o núcleo da dificuldade está no desequilíbrio fiscal e no tamanho do Estado. Para outros, na instabilidade política ou no ambiente internacional. O ponto comum é que o entrave não é conjuntural ele se repete ao longo dos ciclos.

“O desafio central está no lado fiscal”, afirmou Felipe Salto. Para o economista, não há evidência histórica de países que tenham sustentado desenvolvimento sem política fiscal sólida, e o Brasil acumula distorções que pressionam juros, dívida e capacidade de investimento. Na mesma linha, Carlos Honorato descreve o papel do Estado como o maior obstáculo estrutural de longo prazo. “Esse Estado mastodôntico, gastador, ineficiente, atrapalha muito a sociedade.”

A instabilidade macroeconômica aparece como outra camada do problema. Para Cássio Besarria, há clara contradição entre políticas monetária e fiscal. “O Banco Central tenta apagar o fogo, e o governo tenta acender.” Segundo ele, a economia brasileira vive uma “gangorra” que afasta investimento de longo prazo. Luciano Sobral associa o entrave à polarização política, que reduz o horizonte de planejamento e dificulta agendas consensuais. Já Rafael Cortez aponta o ambiente internacional como limite relevante para economias emergentes dependentes de commodities. O contraste entre as respostas não elimina o padrão: todos identificam um fator estrutural que impede a economia de ganhar tração sustentada.

O MAIOR ERRO – Se há convergência na percepção de entraves estruturais, o painel diverge ao discutir o que está sendo mal interpretado no debate econômico. Parte dos entrevistados rejeita leituras simplificadas que transformam um único fator em explicação total. Para os especialistas, o erro recorrente está menos na falta de informação e mais na busca por respostas únicas.

Segundo Salto, as “análises superficiais escolhem um único vilão para explicar nossas fragilidades”.Ele cita como exemplo os juros, que muitas vezes são tratados como causa isolada. Carlos Honorato vê distorção semelhante nas narrativas extremas. “As visões de que o Brasil já quebrou ou de que está vivendo uma maravilha estão erradas”, afirmou. “A realidade é complexa e exige análises com mais nuances.”

O erro também aparece na expectativa de soluções rápidas. Segundo Murilo Viana, a Reforma Tributária é tratada da mesma forma “O esforço inicial é de adaptação operacional, não de redução de carga tributária.” Para ele, a leitura de que a mudança já produzirá alívio imediato ignora o custo de transição e a complexidade de implementação. Luciano Sobral contesta outro consenso repetido: a ideia de que o país estaria condenado a conviver com os juros reais mais altos do mundo. “Há uma agenda relativamente simples para que as taxas caiam a patamares parecidos com o de outros países em desenvolvimento”, afirmou. Rafael Cortez, por sua vez, aponta erro de outra natureza: a interpretação de que os impasses econômicos decorrem apenas de falta de vontade política, leitura que, segundo ele, menospreza os obstáculos institucionais reais.

O GRANDE ALERTA – Se o entrave é estrutural e o erro está no diagnóstico simplificado, o alerta do painel se concentra no custo de manter o atual equilíbrio econômico. Juros persistentemente elevados, investimento fraco e crescimento modesto aparecem como combinação recorrente nas respostas um arranjo que, segundo os economistas, pode limitar a capacidade de expansão da economia por vários anos.

Luciano Sobral diz que “juros reais de mais de 10%, se continuarem prevalecendo por muito tempo, vão levar a uma recessão”. Rafael Cortez destaca o mesmo ponto sob outra ótica. “O Brasil tem custo de capital muito alto. Isso é muito desafiador para a retomada da atividade macroeconômica mais sustentável”, disse.

O risco também aparece na produtividade. Para Rodolpho Sartori, as barreiras comerciais e a lenta inserção internacional do país é algo a ser olhado com atenção. “A gente sempre acaba fechando a economia e diminuindo a produtividade.” Com o olhar atento dos especialistas, em uma visão ampla e sem respostas fáceis ou rápidas, o cenário de estagnação prolongada que o Brasil atravessa no século 21 se torna o padrão e reduz a capacidade de planejamento de empresas, governo e famílias.

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