Carlino Ristorante: 143 anos de uma orgulhosa relação com o Centro e a Toscana
Em 2025, Carlino completará 20 anos no atual endereço, perto do Copan
(Divulgação)
Restaurante foi aberto em 1881 e está no atual endereço, o terceiro, há 19 anos. Os três donos vieram de Lucca, na Itália
Hoje administrada pelos filhos do último dono, casa atualizou o cardápio, mas continua recebendo (e atendendo) pedidos que não constam mais do menu
Por Vitor NuzziCompartilhe:
[AGÊNCIA DC NEWS]. Cecchini. Gianni. Marino. A história de 143 anos do Carlino Ristorante passa por três famílias. Começa com Carlo Cecchini, que originou o nome do estabelecimento. Ele abriu a casa em 1881, no Largo do Paissandu, na região onde fica a Galeria do Rock, oito anos antes da Proclamação da República. (O filho Odílio foi um dos fundadores do igualmente clássico Ponto Chic, também no Paissandu, em 1922.) Assim, o Carlino pode ostentar o título de restaurante mais antigo de São Paulo. O resistente restaurante preserva a tradição da culinária italiana no Centro paulistano, que já viu fechar casas como Capuano (1907-2018) e Gigetto (1938-2016).
Cecchini, o pioneiro, tocou os negócios durante 68 anos, até 1949, quando Marcello Gianni se tornou o novo proprietário. Foram mais 29 anos. Em 1978, Antonio Carlos Marino assumiu e lá ficou até morrer, aos 76 anos, em janeiro de 2021. Desde então, os filhos Bruno, 38, e Bianca, 35, cuidam do restaurante. Detalhe: havia uma condição, cláusula pétrea, para que o ponto trocasse de dono. O futuro dono tinha de ser de Lucca, cidade de 90 mil habitantes na Toscana, região central da Itália.
Bruno e Bianca são, por assim dizer, os primeiros não-toscanos a administrar o Carlino. Mas conheceram Lucca e fizeram cursos de gastronomia com os italianos. Atual chef do Carlino – o irmão cuida mais da parte administrativa –, Bianca lembra com carinho do Buca di Sant´Antonio, com seus piatti tipici della cucina lucchese. O restaurante foi aberto em 1782. Ou seja, 99 anos antes do Carlino. Já o ícone paulistano completará no ano que vem 20 anos no atual endereço, o terceiro em sua história, na Epitácio Pessoa. Era uma rua “erma”, como define Bianca, bem perto do Copan. Mas hoje a casa está rodeada de lugares badalados. Fica, por exemplo, em frente ao Hot Pork e à Sorveteria do Centro, dos chefs Janaina Torres e Jefferson Rueda. Ter várias casas conhecidas no entorno é algo bem visto por Bianca Marino. “Não vejo como concorrência. Acho que o comércio ajuda, um ajuda o outro.”
Ao centro, Antonio Carlos, que comandou a casa até 2021, e os filhos Bianca e Bruno: tradição (Divulgação)
Antes dessa mudança, o Carlino passou três anos fechado (2002-2005), devido à degradação na área onde estava instalado. Até então, e desde 1960, funcionava na outrora elegante avenida Vieira de Carvalho, entre o largo do Arouche e a Praça da República. A distância é inferior a um quilômetro. Nos tempos mais difíceis, não foram poucas as propostas de sair da região e se instalar nos Jardins, por exemplo. “Meu pai fazia questão de que fosse no Centro”, disse Bianca. Ainda assim, sabendo dos desafios de se manter um comércio na área da alimentação, queria que os filhos se dedicassem a outras atividades profissionais. “Mas a gente já vivia nesse mundo. Fomos criados dentro do restaurante.” Além disso, o patriarca havia transmitido outros ensinamentos: “A gente aprende a se resguardar nas dificuldades.” O Carlino foi um dos primeiros locais a receber o Selo de Valor Cultural, instituído em 2016 pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (Conpresp).
No antigo endereço da Vieira de Carvalho, onde funcionou de 1960 a 2002 (Divulgação)
Com sete funcionários e espaço para 60 clientes, o Carlino hoje só funciona para almoço. Abre às 11h e recebe fregueses até as 16h. À noite, a casa é reservada para eventos privados. Durante a semana, o público é formado por pessoas que trabalham na região e turistas. Aos sábados e domingos, vêm muitos clientes antigos, de décadas, filhos e até netos. Quase não há mesas com as tradicionais toalhas quadriculadas. Os irmãos introduziram inovações no cardápio, com pratos do Norte e do Sul da Itália e sobremesas não exclusivas da Toscana, mas tiveram de manter alguns pratos, sempre pedidos pelos frequentadores. Caso do coniglio alla luchese (coelho cozido com funghi, pomodoro e vinho tinto). E há também os que saíram do menu, mas que a cozinha prepara se alguém pedir, como o maccheroni ubriachi, flambado duas vezes. A chef Bianca gosta de criar pratos com carne de porco e à base de frutos do mar. O Carlino tem memória, mas se reinventa.