Permanência no trabalho: especialistas apontam caminhos para que empresas tenham funcionários mais longevos

Uma image de notas de 20 reais
O setor com maior rotatividade é o de Construção Civil (91,9%)
Crédito: Fauxels/Pexels
  • Segundo o Caged, em 2022 o número de saídas voluntárias no Brasil passou de 33% a 48%
  • “Nós acabamos sendo a própria escola para muitos que não estudaram", afirmou Denis Arita, gerente geral da pizzaria Speranza
Por Bruna Galati Compartilhe: Ícone Facebook Ícone X Ícone Linkedin Ícone Whatsapp Ícone Telegram

O Brasil tem o maior índice de rotatividade de trabalhadores do mundo. Em nenhuma outra nação do planeta, funcionários passam tão pouco tempo na mesma empresa quanto aqui. É o que aponta o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), divulgado pelo Ministério do Trabalho e Emprego. Em relatório de 2022, o Caged identificou que, em relação ao ano anterior, o número de saídas voluntárias no país passou de 33% a 48% do total de desligamentos nas empresas – alta de quase 50%. Entre as principais causas citadas pelos trabalhadores para esse movimento, estão a baixa qualidade do clima organizacional, a falta de alinhamento de expectativas e a ausência de reconhecimento e de um plano de carreira. 

O setor no qual essa onda ocorre com maior força é o da Construção Civil (91,9%), seguido da Agricultura (1,3%) e do Comércio (41,9%). A boa notícia é que, mesmo nesse ambiente de tanta rotatividade, há exemplos de colaboradores que passam décadas na mesma empresa. E o Comércio tem diversos casos assim. Para os especialistas, essas trajetórias demonstram estratégias que executivos e empresários podem adotar para manter seus times engajados e leais. Conheça, a seguir, a história desses profissionais que trabalham na mesma firma há mais de 20 anos.

CRESCIMENTO — Denis Arita, 48 anos, começou a trabalhar no restaurante Speranza, pizzaria da família italiana Tarallo, em São Paulo, em 1998. Sua primeira função foi como garçom, depois passou para recepcionista e maitre. Em quatro anos, assumiu a posição de subgerente e em 2005 ingressou no curso de administração no Centro Universitário Adventista de São Paulo (Unasp). Hoje, 26 anos depois, é gerente-geral – cargo que assumiu em 2015. Para ele, o segredo da longevidade dos colaboradores é a combinação de acolhimento, qualificação e perspectiva de crescimento, que fazem parte das estratégias da família Tarallo na administração. Um exemplo dessa postura é o que aconteceu durante o período pós-pandemia de Covid-19. Devido às restrições e à queda no movimento durante a crise do coronavírus, a direção da pizzaria precisou demitir 100 dos 146 funcionários. No entanto, quando as condições comerciais se normalizaram, 98 deles foram reintegrados – os dois que não retornaram optaram por se aposentar.

Escolhas do Editor

Na gestão de Denis, a qualificação é essencial. Para muitos dos funcionários da Speranza, a pizzaria é o primeiro emprego. Assim, enxergam no restaurante uma oportunidade de aprendizado e crescimento. Para seguir se aprimorando e trazer novidades ao time, o gerente participa de cursos e feiras. Além disso, promove atividades externas, levando os colaboradores para visitar outros estabelecimentos para entender como funcionam, tratam os clientes e trabalham com a massa da pizza. “Nós acabamos sendo a própria escola para muitos que não estudaram. Também incentivamos aqueles que estão em cargos iniciais, como lavador de pratos, a observar outras áreas, visando desenvolver habilidades para futuras posições, como maitre ou pizzaiolo”, disse Denis.

Para Denis Arita, da Speranza, qualificação é essencial
Crédito: Bruna Galati

RELACIONAMENTO — Ainda menina, Nilceia Queixada ia com os pais à Simon Calçados, loja de calçados e roupas, inaugurada em 1961, no bairro da Vila das Mercês, em São Paulo. Após mais de 10 anos trabalhando no setor fiscal, ela decidiu procurar um emprego mais próximo de casa e ficou sabendo que havia uma vaga de caixa na Simon. Era janeiro de 2005. Nilceia foi contratada e até hoje, aos 53 anos, trabalha na loja, no cargo de auxiliar administrativo. Quase 20 anos depois, ela costuma dizer que se sente parte da família Mallak, dona do estabelecimento. Por ter sido cliente da loja antes de integrar o posto de caixa, Nilceia já conhecia o atendimento do estabelecimento, que cita como um dos diferenciais da empresa. 

Uma de suas funções é acompanhar a chegada de novos funcionários. “Desde o processo seletivo, eu mostro ao candidato como lidamos com os consumidores, explico como é o nosso dia a dia e falo da nossa abordagem cordial e proativa”, afirmou. Para incentivar os colaboradores a realizar um bom atendimento, a loja implementou um esquema de ganhos adicionais baseado nas vendas, além do salário fixo. Com metas a serem alcançadas, o valor do bônus aumenta a cada conquista atingida. “Queremos aumentar o nosso negócio e que nossos funcionários participem disso. Conversamos bastante e damos dicas para melhorar as vendas”, disse. Com essa mentalidade, ela destaca que é muito raro demitir alguém e que todos os colaboradores que a empresa tem atualmente – são sete pessoas – estão na equipe há mais de três anos.

Nilceia Queixada, da Simon Calçados, defende participação da equipe
Crédito: Bruna Galati

LOCALIZAÇÃO José Roberto Piovani, 62 anos, iniciou sua trajetória na Casa Godinho, tradicional mercearia e padaria no centro de São Paulo, como vendedor, em 2004. Como já tinha experiência no setor administrativo de outras empresas, levou apenas dois anos para ser promovido a gerente comercial do estabelecimento. Hoje, 20 anos depois, ele segue no mesmo emprego e ressalta que há outros funcionários no local tão antigos quanto ele. Segundo Piovani, a chave para manter colaboradores por tanto tempo é um bom ambiente de trabalho e respeito à equipe. “É preciso tratar bem as pessoas e ajudar sempre que possível. A gestão tem de ser boa nesse sentido”, afirmou. Para ele, a localização da loja, com fácil acesso por metrô e ônibus, também contribui para que os funcionários permaneçam na empresa e que novas pessoas busquem a possibilidade de trabalhar no local.

Para garantir que o seu time se sinta valorizado e motivado, a Casa Godinho oferece oportunidades de crescimento de cargos dentro da empresa, oferecendo cursos e treinamentos. A política de feedback e comunicação constante também é prioridade na gestão de Piovani. “Conversamos e escutamos muito os colaboradores. Esse diálogo aberto ajuda a manter um ambiente de trabalho saudável e colaborativo, no qual as opiniões de todos são valorizadas”, disse. Atualmente com uma equipe formada por 23 pessoas, das quais vinte e uma estão na empresa há mais de dez anos, o gerente se orgulha ao falar sobre a baixa rotatividade do time. “Nossos funcionários se sentem parte da Casa Godinho. Para nós, isso é prioridade.”

Piovani, da Casa Godinho: diálogo aberto melhora ambiente
Crédito: Bruna Galati

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