Kings Sneakers: internacionalização, franquias, marca infantil e receitas a caminho dos R$ 360 milhões

Uma image de notas de 20 reais
Igor começou ajudando o pai em loja de discos, até descobrir o caminho dos tênis
(Andre Lessa/Agência DC News)
  • Empresário quer tornar global a marca que criou em 2006. O primeiro passo da internacionalização começa na terra do rap: os Estados Unidos
  • Para ele, segredo do sucesso é saber recuar. Com 170 lojas, empresa faturou R$ 300 milhões em 2024 e espera crescer 20% neste ano
Por Vitor Nuzzi Compartilhe: Ícone Facebook Ícone X Ícone Linkedin Ícone Whatsapp Ícone Telegram

[AGÊNCIA DC NEWS]. Quando Igor Morais lançou o livro Nada Vem Fácil, em 2019, a Kings Sneakers, especializada em sapatos, tinha 60 lojas. Passados seis anos, são 170 unidades espalhadas pelo país – todas no sistema de franquia –, com faturamento de R$ 300 milhões em 2024 (+9% sobre o ano anterior) e perspectiva de crescimento de 15% a 20% neste ano, podendo chegar a R$ 360 milhões. Um ano que marca o primeiro passo da empresa criada em 2006 no mercado internacional: a rede iniciou em julho operação de e-commerce nos Estados Unidos, com investimento inicial de US$ 500 mil (aproximadamente R$ 2,7 milhões). As medidas tarifárias anunciadas por Donald Trump, apenas 15 dias depois de iniciada a operação, assustaram, mas não desanimaram o empresário, já habituado aos desafios. A plataforma, segundo a Kings, terá atendimento em inglês e português, “com políticas de trocas e suporte alinhados aos padrões dos EUA”, além de ações de influenciadores. O plano é tornar a marca global, apostando na força da moda streetwear.

“Esse passo [EUA] era um sonho antigo”, disse Morais. Já vinha de 2013, mas, ele conta, com planos de abrir um loja em Los Angeles, a pirataria atrapalhou. “A operação meio que subiu trocando pneu com o carro andando. Agora, está de pé. Vamos pra cima.” A expectativa é pequena por enquanto. “Neste primeiro ano, quase zero, 1%, 2% [do faturamento]. Nem é a nossa meta. A gente quer mesmo cravar uma espada lá.” O ‘lá’, os Estados Unidos, é onde o empresário considera o palco ideal para começar um projeto de expansão internacional. “Foi ali que a cultura street nasceu, é o berço do hip-hop, do basquete de rua, da arte urbana.” Esse é um terreno em que Morais, 44 anos, pisa desde cedo. “Eu mergulho nessa fonte desde o começo.” Ele estava entre os jovens que se aglomeravam no Largo São Bento, Centro da cidade, quando o movimento hip-hop despontou. Quando ele nasceu, em 1981, o palco era a rua 24 de Maio, perto da Galeria do Rock. Nem a ditadura conteve os jovens. Essa agitação foi até o final dos anos 1990, quando ele era adolescente. Ainda antes disso, com 10 anos, ele já estava atento aos sons do Racionais MCs, que lançou seu primeiro LP, Holocausto Urbano, em 1990. Também teve seus tempos de DJ. “Até hoje tenho aparelhagem, coleciono vinil. Deixei esse chapéu para meu irmão.”

“Juntava uma grana e comprava revistas importadas”, disse. “Sabia o que os rappers estavam usando, quais eram as marcas.” A veia empresarial já se manifestava. Ele crava: “Nasci para ser empresário. Desde pequeno tinha um mapeamento na minha cabeça de onde queria chegar”. Por um lado, ele se surpreende quando pensa onde chegou. Ou nem tanto: “Algo dentro de mim já dizia que a gente ia ser relevante no mercado, de alguma forma”. O rapper Criolo, autor do prefácio do livro, destaca a trajetória do amigo: “Existe um novo empreendedorismo que não está na academia, mas que pode dialogar com as ideias que lá se encontram”. Morais conheceu Criolo, Emicida e outros na agitação da São Bento. O CEO resume sua prática com o slogan “adapte-se ou morra”, um manual de sobrevivência de quem veio da rua e entrou para o mundo dos negócios. “Para mim, o único caminho sempre foi ir lá e agir. Do melhor jeito possível. Sem margem de erro.”

Escolhas do Editor

Ele costuma diferenciar o empreendedor – a pessoa que planeja, cuida da gestão e da imagem –, do comerciante, alguém que, na sua visão, está mais preocupado em fechar as contas no dia a dia. Este era seu pai, seu João, por exemplo, com duas bancas de jornais e, mais tarde, uma loja de discos. Não é uma crítica. “Para mim, ele era um gênio.” Um preto pobre vindo do interior do Maranhão que soube ganhar a vida em São Paulo, como define Morais. A mãe, dona Rosa, também era de lá. João e Rosa nasceram na cidade de Fortuna, com aproximadamente 17 mil habitantes em 2024. Mas foram se conhecer em São Paulo, com seus mais de 10 milhões de moradores. Depois do casamento, foram morar em uma quitinete de 29 metros quadrados na esquina da avenida Duque de Caxias com a rua Santa Ifigênia (“Aquele caos”), na região central, em uma área que depois ficaria conhecida como Cracolândia. O pai (que morreu neste ano) se desdobrou e conseguiu colocá-lo em colégio particular, mas ele repetiu logo no primeiro ano. Seu João decidiu colocar o “malandrinho” em escola estadual. E quando o filho completou 9 anos, avisou: “Está na hora de trabalhar”.

Assim, foi ajudar o pai, que já havia deixado as bancas de jornal e aberto uma loja de discos no Centro. Ainda na época do vinil. Depois, outra, dedicada à black music, no subsolo da Galeria do Rock. “O disco acabou, fui para o CD.” João chegou a ter quatro lojas, foi perdendo uma por uma, até chegar na última. Morais pediu para ficar com a loja, porque faria o negócio “virar”. O pai concordou, o filho pagou R$ 20 mil e ficou sem um centavo. Sem capital de giro, como diz. Aí entra a história: ele procurou Fabio Marques, o Fabinho, um amigo (a quem dedica o livro) cujo pai tinha um bar na Duque de Caxias. Pediu R$ 300 emprestados, comprou uma caixa de CDs, pagou R$ 600 para Fabio, pagou o aluguel, e descobriu o seu caminho.

FRANQUIAS Com tropeços. Uma loja de moda urbana em Campo Grande (MS), com um sócio, não foi para frente. Depois, em Campinas (SP), foi revender tênis da Nike. Conseguiu parceria com a fabricante. Foi abrindo lojas, mas queria entrar no universo dos shoppings. Imaginava que só assim conseguiria crescer. Conseguiu um ponto – em Diadema, no ABC paulista. Isso depois que todas as pessoas com quem conversou terem desaconselhado o negócio. Ele investiu, conseguiu resultados animadores, até que um dia mudou de estratégia: chamou um amigo cantor para uma tarde de autógrafos na Kings do shopping. Era o ainda desconhecido Projota, que atraiu centenas de jovens. Logo, Morais partiu para o modelo de franquia. Hoje, tem lojas em shoppings de todas as regiões de São Paulo. Para quem pretende ser um franqueado, a Kings estabelece investimento mínimo de R$ 300 mil a R$ 700 mil, com estimativa de retorno em três anos. As lojas vendem tênis, camisetas, moletons, jaquetas, bonés, de mais de 20 marcas. No total, segundo ele, 700 pessoas estão envolvidas nas atividades da Kings.

Por enquanto, Morais nem consegue pensar em outros mercados internacionais. Tem projetos recentes que exigem atenção. Ele abriu também a Hype Kings, voltada para o público infantil, por enquanto com quatro unidades. Além da Open Space Kings, no formato de quiosques abertos, com módulos de 9 a 12 metros quadrados. “Sempre acreditei que, no Brasil, nessas operações maiores o risco de não dar certo é grande. Eu acho que o Brasil é um país da operação enxuta.” Por enquanto, quatro operações estão em atividade – e mais seis abrirão ainda neste ano. E ainda uma gravadora, a Somos, em parceria com o rapper e também empresário Doncesao e o DJ Vitonez. “Para gravar jovens sonhadores”, afirmou Morais. Jovens são o público básico da empresa. “Ou um cara que é 40+ conectado [com arte, moda, música].”

Ele se acostumou com os riscos. Sua visão, como homem de negócios, adiciona realismo ao pragmatismo. “Expectativa gera ansiedade. Não crio expectativa em nada na minha vida. Nem ser humano, negócio, nada. Já penso no pior cenário.” O que, pelos resultados que alcançou até agora, não o impediram de avançar, conhecendo o terreno. Para um empreendedor, “o principal desafio é começar sem dinheiro”. Como ele. “Com o banco, por exemplo, se você souber jogar o jogo, ele te ajuda”, disse Morais, que recentemente foi chamado pelo Itaú para dar palestra. Para crescer, é preciso saber voltar casas quando necessário. “A marca do sucesso, na real, foi sempre viver três passos pra trás no ganho financeiro que eu tinha no momento. Se eu ganhava dez, vivia com três, quatro.” Assim também será com a recente Reforma Tributária. “O varejo vive de margem. É enxugar a operação e correr atrás de margem. Essa é a nossa vida.”

Além do instinto: a marca Kings, conta, nasceu literalmente de um sonho. E o símbolo do macaquinho pensativo também foi ideia dele. Alguns amigos foram contra, achando o desenho muito infantil, mas Morais confiou na ideia. Comenta que o uso de animais em logos estava em alta e cita Marcelo Falcão (ex-Rappa), que escolheu o elefante como símbolo de sua grife. “Acho macaco muito inteligente. Acho que o rei da selva não é o leão, é o gorila.”

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