ESPECIAL Comércio Histórico. "Ter 100 anos sem parecer ter 100 anos", o desafio de a.Oculista

Uma image de notas de 20 reais
Cinthia Schichvarger, terceira geração à frente de a.Oculista
(Andre Lessa/Agência DC News)
  • Relacionamento sólido com os clientes e excelência no serviço oferecido estruturam o centenário da rede que quer lançar uma marca própria
  • Fundada em 1925, a.Oculista está na terceira geração dos Schichvarger à frente do negócio, que agora prepara a próxima liderança da rede
Por Letícia Cassiano

[AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DC NEWS]
São três lojas em atividade. São 100 anos de existência. Esse é o resumo da rede a.Oculista, fundada em 1925 na Lapa, Zona Oeste de São Paulo. Uma jornada que vai de um negócio familiar tradicional ao atual status de boutique. Na linha do tempo, a terceira geração foi a responsável pelas mudanças que transformaram a empresa no que é hoje, com a visão dos irmãos Cinthia e Marcelo Schichvarger e a mulher de Marcelo, Regiane. Tanto para eles quanto para a quarta geração, representada por Anne, filha do casal, o mantra que guia a.Oculista para o próximo centenário é “ter 100 anos sem parecer ter 100 anos”. Por essa razão, modernizar cada vez mais a operação e torná-la conhecida são os primeiros passos para os planos futuros, que incluem uma marca própria. Essa fusão entre preservar a tradição mantendo os olhos no futuro garantiu à empresa familiar o prêmio de Comércio Histórico – Estabelecimentos Tradicionais de São Paulo, criado pela Agência de Notícias DC News, que pertence à Associação Comercial de São Paulo (ACSP).

A rede chegou a ter sete unidades. Na Lapa, no Tatuapé, na Vila Nova Conceição e no Panambi, que não existem mais, e as três atuais (na Oscar Freire, em Perdizes e no Shopping Bourbon). Encolher foi a saída para manter a qualidade e a excelência herdadas da segunda geração, composta por Isaac e Bernardo (pai de Cinthia e Marcelo). No momento não há planos de expandir o número de unidades, mas o que poderia adicionar uma loja à família seria o desenvolvimento de uma marca própria, que teria unidade voltada apenas para esses produtos. “Eu gosto muito de criar. Quando imagino uma novidade, penso nisso dia e noite, noite e dia”, disse Cinthia, que passa boa parte do tempo de trabalho no laboratório de montagem da marca, em Perdizes. O cuidado com detalhes técnicos, segundo ela, é um dos aspectos que justificam a longevidade de a.Oculista. A empresária conta que frequentemente eles corrigem erros em óculos de outros endereços que não foram precisos na leitura das receitas. “Todo mundo sai daqui enxergando. É o básico que quase ninguém faz.” 

Da excelência técnica somada a um varejo à moda antiga, quando os consumidores eram amigos e, as lojas, partes ativas da comunidade, a empresa gerida pela família Schichvarger foi colecionando clientes com os passar do século “‘Mais vale um mau negócio do que uma boa briga’, eu brinco que é o nosso lema”, afirmou a empresária. No caso da boutique, o costume de comprar na marca passou de pai para filho, assim como o negócio. “Vender óculos demora. Nosso DNA está no cliente que entra para conversar, contar da família e tomar um cappuccino.” Segundo Cinthia, a maioria das óticas não consegue fidelizar o cliente pela frieza com que os atendimentos são feitos e pela alta rotatividade de funcionários. “Cada vez que você vai é um atendente. Aqui não. Os clientes nos conhecem, perguntam, convidam para aniversário dos filhos.” Devido à preferência pelo atendimento individualizado, a possibilidade de franquear nunca passou perto de a.Oculista.

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SUCESSÃO – Por enquanto, o plano da marca própria habita o campo das ideias, mas a tendência é que comece a se concretizar em breve. “Minha vida é o meu trabalho”, afirmou Cinthia. Ela diz ter dificuldade em conciliar os planos pessoais e os sonhos para a.Oculista com o dia a dia atrás do balcão. A parte mais intensa de sua gestão, por outro lado, já passou. Especialmente agora que Anne Schichvarger, de 27 anos, assumiu uma posição na empresa. “Entrei em 2020 e assumi o marketing, que era praticamente inexistente”, disse Anne. Este primeiro movimento durou pouco. Logo depois foi trabalhar na Marcolin, um dos fornecedores de a.Oculista, uma experiência divisora de águas no seu entendimento do setor ótico como um todo. O trabalho fora do negócio familiar durou dois anos, seguidos de sete meses estudando inglês na Oceania. 

Em seu retorno, começou um circuito 360º na empresa, ainda em andamento, e partindo pelo estoque. “Queria entender como funciona o sistema da ótica desde o princípio”, afirmou. “Criei planilhas e desenvolvi nosso site. Agora quero atualizar o sistema, o mesmo desde a época do meu avô.” Por enquanto, ela quer passar pelo laboratório e estudar a parte técnica ao lado do pai, que é quem domina a área, revisitar estoque e o financeiro e conhecer o trabalho no balcão, ainda que o marketing e a presença no digital sejam a prioridade número um. “Eu fico muito em Perdizes, com laboratório, estoque e escritório. As vendas virtuais, que têm melhorado bastante, partem dessa unidade,” afirmou.

Anne contou que seu futuro dentro de a.Oculista sempre foi o objetivo dos seus passos profissionais. “Eu sempre me interessei pelo ramo ótico e sempre quis continuar o legado dos meus pais e da minha tia”, disse ela. “Acho que até por ter praticamente nascido dentro da loja. Tem funcionários que me viram crescer.” Já em seus primeiros meses de vida, Anne passava os dias em um berço na unidade da Lapa, isso quando algum funcionário não a levava em passeios pelo bairro. Ela nasceu na mesma época da passagem de bastão da segunda para a terceira geração, quando toda a família estava focada em preparar o negócio para seguir forte no século 21. As mudanças implementadas nos anos 1990 foram drásticas, mas foi apenas em 2010 que o rebranding veio. “Antes nosso logo entregava realmente uma ótica centenária, sabe?”, disse Anne. Esse passo, segundo ela, foi essencial para o projeto de modernização que assumiria anos depois.

CEM ANOS – Cinthia tem 67 anos, dois a mais do que Marcelo, e há 30 trabalham juntos no negócio iniciado pelo avô Israel, em 1925. Quando questionada sobre o que diria para o fundador, a neta apenas ri e diz: “Me conte a sua história”. Tudo o que se sabe sobre o retraído empresário é que começou a vida muito pobre na Moldávia, na época em que o país fazia parte do Império Russo. Veio ao Brasil, começou um negócio de conserto de relógios na Lapa e passou a vender também joias e óculos. Com sua morte em 1964, os filhos, Isaac e Bernardo, assumiram e solidificaram o negócio do pai como uma ótica. Nas décadas seguintes, a.Oculista chegou a outros bairros da cidade. A unidade mais antiga ainda em funcionamento é a do Shopping Bourbon, inaugurada no antigo Shopping Matarazzo, e que foi a primeira sob direção dos filhos de Bernardo.

Para Cinthia, a época em que assumiram o negócio coincide com a transição dos óculos de necessidade para objetos de desejo. Ela se lembra do lançamento de Óculos, canção de Os Paralamas do Sucesso, de 1984, dos óculos de aro vermelho do repórter Ernesto Varela, personagem de Marcelo Tas, e dos óculos escuros azuis de José Wilker na novela Roque Santeiro, como marcos para o setor. E também foram importantes para a sucessão em a.Oculista, que aconteceu oficialmente em 1995. Na esteira das cores e ainda antes de herdar a administração da empresa, a empresária conta que pintava armações transparentes no estoque do pai, na busca por manter os produtos dentro das tendências.

Apesar do peso que o nome da empresa já tinha na época, Cinthia afirma que assumir as lojas foi como abrir um negócio do zero. “Meu pai sempre teve uma ideia muito diferente de como gerir um negócio.” Um exemplo é a preferência do patriarca por manter as lojas funcionando em detrimento de reformar as unidades. Segundo Cinthia, Bernardo costumava dizer que “fazer coisa com dinheiro é fácil, quero ver sem dinheiro”. E foi assim que ela e Marcelo começaram em a.Oculista: sem dinheiro. A primeira ação dos irmãos foi fazer cursos sobre a área. Depois, fecharam todas as unidades para reforma. “Foi mais difícil do que a pandemia”, disse Cinthia. Ela também contou que, nas reaberturas, com os mesmos produtos expostos mas as lojas repaginadas, muitos clientes acabaram comprando os modelos encalhados, atraídos pelas novidades. “Ninguém quer entrar num lugar feio”, afirmou.

GRIFES – Outra mudança adotada pelos irmãos foi se abrir para grifes, algo que o pai desaprovava com veemência. “Ele é o cara mais ecológico que eu conheço”, disse aos risos Cinthia. “Dizia ‘vou pagar R$ 5 mil num par de óculos só porque é um Giorgio Armani? Quem é esse Armani?’”. Já os filhos aproveitaram a abertura do país para importações, um marco dos anos 1990, para colocar as grifes nas vitrines de a.Oculista. Hoje, ela vende designs de grifes de A a Z. Entre os modelos mais caros estão os Óculos de Sol Balmain, por R$ 10,3 mil e o de grau Hoffmann, por R$ 13,5 mil. A redução da rede de seis para três lojas permitiu que a.Oculista se concentrasse apenas nos públicos A e B e se tornasse o negócio de boutique que é hoje. 

Nesse sentido, Anne acredita que a unidade da Oscar Freire seja o rosto da fase atual de a.Oculista, e a que mais conversa com a nova geração de clientes. Ela citou o foco em óculos de design, de marcas de grife voltadas apenas para óculos, com produção artesanal e modelos exclusivos. “E cada vez mais o nosso público tem aderido a isso.” É nessa tendência que tia e sobrinha enxergam a possibilidade de uma marca própria: aproveitar o nome forte e os 100 anos de história de a.Oculista para explorar esse mercado com modelos mais acessíveis, mas que conservem a ideia dos óculos de design. “Eu sinto que é um projeto que pode sair do papel e que talvez não demore tanto”, afirmou Anne.

Cada geração trouxe um fragmento do que hoje compõe a.Oculista. Agora a família prepara Anne para a sucessão, cujo foco é modernizar cada vez mais todos os processos da operação e tornar a marca mais conhecida. “Eu acho esse respiro essencial. Principalmente no mundo digital, eu posso passar a importância dessa investida para eles”, disse a mais jovem. “É importante ter essa nova visão. Todo mundo que entra consegue agregar de alguma forma.” Na avaliação de Cinthia, os próximos 100 anos prometem, mas, enquanto não chegam, o que ela vê é uma coleção de histórias (como o shop tour em que vendeu cada peça – inclusive as quebradas – do estoque), clientes fiéis (do tipo que perguntam sobre suas cachorrinhas e “atendentes temporárias” da unidade da Pompéia), funcionários de décadas (como a Cleide Jorge, que há 25 anos cuida pessoalmente da visão de uma família que só confia nela e responsável por levar os clientes da Vila Nova Conceição, unidade fechada em 2025, para a Oscar Freire) e um álbum de família que só quem vive do varejo constrói. 

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