[AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DC NEWS]
O ano de 2026 promete ser desafiador para o varejo. Com Copa do Mundo e eleições influenciando a entrada de dinheiro no mercado, a atual taxa de juros a 15% é, segundo Carlos Honorato, professor da FIA Business School, o maior entrave econômico para o ano. “Parece um pouco claro que nesse patamar de juros o endividamento das famílias e das empresas começa a se tornar punitivo”, disse em entrevista à AGÊNCIA DC NEWS. Conforme projeções do Boletim Focus, é esperado retração na Selic a partir de março, quando deve registrar 14,5%. A expectativa é de que a taxa chegue a 12,25% no final do ano. “O novo normal já está aí”, afirmou. “Voltamos ao padrão histórico de juros altos e não há perspectiva de mudança sem reformas estruturais.” Além disso, cita o Estado “gastador” e “ineficiente” como principal desafio do país: “Um elefante numa loja de cristais”. A entrevista integra o Especial Vozes da Economia, iniciativa da AGÊNCIA DC NEWS para nortear os desafios e oportunidades do Brasil em 2026.
Mesmo com juros de dois dígitos, Honorato reforça que a demanda segue forte durante o ano, puxada pela ampla concorrência no universo online. “Há uma demanda grande, apesar da taxa de juros, da renda das famílias estar apertada e do aumento da inadimplência”, disse. O professor avalia que atualmente o consumidor brasileiro tem demonstrado mais cautela na hora de comprar, mas reitera que isso é consequência da atual taxa de juro. “O preço das coisas subiu bastante, a renda está apertada, e o brasileiro que tem uma tradição de comprar muita coisa parcelada”, afirmou. “Chega uma hora que a conta chega e a capacidade de gasto fica muito limitada.”
Segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), realizada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), o país encerrou 2025 com 78,9% das famílias endividadas. A Pesquisa Mensal de Comércio (PMC) do IBGE, divulgada em janeiro com dados de novembro de 2025, já mostra os sinais de arrefecimento. O subsetor de atacado especializado em produtos alimentícios, bebidas e fumo recuou -3,8%, sobre um ano antes. Com menos acesso ao crédito, o setor automotivo encolheu -3,3%. “[O juro] começa a sufocar o consumo, principalmente de bens com maior valor agregado, como automóveis.” Confira a entrevista.
AGÊNCIA DC NEWS – Qual indicador hoje mais te preocupa?
CARLOS HONORATO – Os juros, pelo impacto amplo sobre dívida, investimento e consumo.
AGÊNCIA DC NEWS – Estamos vivendo um “novo normal” de juros altos?
CARLOS HONORATO – Sim. O novo normal já está aí. Juros baixos de verdade seriam abaixo de 7%. Voltamos ao padrão histórico de juros altos e não há perspectiva de mudança sem reformas estruturais.
AGÊNCIA DC NEWS – Com a Selic a 15%, qual é o custo invisível disso na economia real?
CARLOS HONORATO – Alimenta a dívida pública, beneficia rentistas e reduz espaço para investimento produtivo, criando um problema derivado do próprio remédio.
AGÊNCIA DC NEWS – Se tivesse que apontar um entrave principal do Brasil hoje, qual seria?
CARLOS HONORATO – O papel do Estado, grande, gastador, ineficiente, como um elefante numa loja de cristais. Não sou a favor de Estado mínimo, não é nada disso, mas a forma como o Estado conduz atualmente a sua política fiscal, e quando eu falo Estado, são os Três Poderes. Essa dissonância entre o que a sociedade precisa e o que o Estado provê é o nosso maior problema estrutural de longo prazo. Esse Estado mastodôntico, gastador, ineficiente, atrapalha muito a sociedade. Tinha que ser muito mais eficiente e acabar com esse monte de vazador de dinheiro que tem, que é isso que está prejudicando muito a economia. Acredito que esse é um grande problema nosso.
AGÊNCIA DC NEWS – Qual é a causa raiz dos problemas econômicos que costuma ser ignorada?
CARLOS HONORATO – A estrutura do Estado criada pela Constituição de 1988. Um Estado inchado, caro, ineficiente, com muitos privilégios e pouca entrega para quem produz. É preciso reformar os penduricalhos da Constituição, só que não vai ser feito tão cedo, às vezes pode ficar até pior.
AGÊNCIA DC NEWS – O maior problema no varejo hoje é a demanda ou é a margem? Como que você vê isso?
CARLOS HONORATO – Boa pergunta. Acredito que o varejo hoje vem vivendo uma grande mudança nesses últimos anos. Seja pelo lado da entrada do mercado digital, seja pelo lado da concorrência. Já tem há bastante tempo um processo de espremer as margens e a necessidade de capacidade de competição de quem está no varejo, de criar ofertas diferentes e produtos que gerem um valor diferente para você poder cobrar. Então, não acho que seja um problema de demanda, não. Há uma demanda grande, apesar da taxa de juros, da renda das famílias estar apertada e do aumento da inadimplência. A demanda é muito grande. A questão é que esses mecanismos de compra via online acabam aumentando essa concorrência e diminuem as margens.
AGÊNCIA DC NEWS – Hoje em dia, você acredita que o consumidor está com a renda mais comprimida ou ele está mais cauteloso?
CARLOS HONORATO – Vejo que tem um pouco de cautela, porque hoje há toda uma cultura de gente falando de economizar, o que aos poucos vai levar as pessoas a terem um pouco mais de prevenção em relação ao próprio dinheiro. Mas acho que vem mais da dificuldade [do momento] mesmo. O preço das coisas subiu bastante, a renda está apertada, e o brasileiro que tem uma tradição de comprar muita coisa parcelada. Chega uma hora que a conta chega e a capacidade de gasto fica muito limitada.
AGÊNCIA DC NEWS – Nesse sentido, a promoção virou um vício perigoso?
CARLOS HONORATO – É, as pessoas acabam aproveitando. Quer dizer, você tem hoje muita gente que é antenada nesses sites de e-commerce e acabam direcionando o seu consumo em função não do que elas precisam, mas do que aparece de oportunidades no caminho. A tentação de você comprar alguma coisa é relevante. E as empresas também se aproveitam disso usando lançamentos e oportunidades que fazem com que o consumidor seja fisgado por isso.
AGÊNCIA DC NEWS – E você acredita que quem não tem escala ou dados hoje em dia está condenado?
CARLOS HONORATO – Não está condenado, mas acredito que perde dinheiro, deixa dinheiro na mesa. O fato de você ter dados [do seu negócio] e não saber usá-los deixa você na mão. A escala já é uma outra característica.
AGÊNCIA DC NEWS – Por quê?
CARLOS HONORATO – Porque a escala certamente é o melhor mecanismo para conseguir crescer e ganhar. Só que quando você está em mercados com muita concorrência, mais intensa mesmo que chamamos de concorrência monopolista, há muitos ofertantes parecidos. É muito difícil conseguir escala porque você não chega, mesmo estando na internet. Existem milhares de outros ofertantes na internet que concorrem com você. A saída à escala é gerar valor no seu produto, ter um diferencial, alguma coisa que te permita cobrar mais por isso. Só vai conseguir desenvolver um produto melhor se tiver dados e informação, perceber que o consumidor demanda um produto especializado ou customizado, e com isso você consegue cobrar mais.
AGÊNCIA DC NEWS – Por que é tão importante se diferenciar?
CARLOS HONORATO – Porque pensar simplesmente em escala por preço, quem é menor não consegue chegar nesse valor, porque não consegue produzir mais barato, não tem realmente ganho de ter uma produção grande. Então ele tem que ir para um caminho de se diferenciar e conseguir captar valor nesse produto um pouco mais caro.
AGÊNCIA DC NEWS – E como você enxerga a demanda para 2026?
CARLOS HONORATO – Estamos vivendo um ano atípico. Para quem está trabalhando desde janeiro, parece que nós já estamos em outubro. Um turbilhão e não vai parar tão cedo. Teremos eleições, que é um fato muito relevante em termos de gasto público. Muito dinheiro entra no mercado, e me parece que o governo em algum momento terá alguma atitude de melhoria do crédito. E você tem aí movimentos erráticos da economia, que a bolsa tem subido nesses últimos dias. Também há movimentos que reforçam um pouco esse apetite da demanda. Acredito que a gente tende a ter uma continuidade no crescimento da demanda com a ressalva se não tiver um problema internacional. A princípio, até outubro, penso que a tendência é de crescimento econômico.
AGÊNCIA DC NEWS – Falando em eleições, como você acredita que essa questão vai influenciar ou refletir no consumo?
CARLOS HONORATO – É como eu disse, vai depender muito dessas liberações de acesso a crédito, acesso a recursos. Parece um pouco claro que nesse patamar de juros o endividamento das famílias e das empresas começa a se tornar punitivo. É por esses indicativos que podemos ter alguma coisa afetando a demanda. E as empresas estão do mesmo jeito, não só endividadas, mas em taxas de juros muito altas. Isso começa a sufocar o consumo, principalmente de bens com maior valor agregado, como automóveis. Fica mais difícil de comprar. Mas mesmo assim, a eleição acaba gerando um fluxo de dinheiro na economia. A tendência é crescer, o problema é pagar a conta em 2027.
AGÊNCIA DC NEWS – Como você vê a expectativa de diminuição da taxa Selic até lá?
CARLOS HONORATO – O problema é que quando as pessoas falam de baixar o juro acham que vai sair de 15% para 5% ou 7%. Isso não acontece. O Banco Central, às vezes, está sendo mais realista que o rei. A inflação está perto da meta. O emprego está muito forte, então não há [status de] desemprego que caracteriza um risco de aumento de salários e, portanto, de preços. As condições econômicas hoje são favoráveis a diminuir a taxa de juros. Não é uma questão de pressão política. Se as condições estão mostrando que tem que abaixar, por que não? Porque senão você também cria uma situação que vai gerar desaceleração econômica. O remédio dos juros é de médio prazo. Então se diminui hoje para ter efeito daqui a dois, três meses. Não faz sentido segurar demais.
AGÊNCIA DC NEWS – Em relação a alguns setores que não tiveram um resultado tão bom no ano passado, você acredita que eles podem se recuperar esse ano?
CARLOS HONORATO – Varia muito de área para área. O agro continua forte, mas uma safra muito grande derruba preços e afeta o crédito. Commodities metálicas variam conforme demanda global. O setor automobilístico enfrenta dificuldade por causa do crédito caro. No geral, uma taxa de juros mais baixa ajudaria esses setores a se recuperar.
AGÊNCIA DC NEWS – As empresas brasileiras estão ficando mais produtivas ou apenas mais caras?
CARLOS HONORATO – Há esforço, mas investimento em tecnologia é insuficiente. O Brasil investe pouco em inovação e isso limita os ganhos de produtividade.
AGÊNCIA DC NEWS – Quanto às contas públicas, você acredita que caminhamos para mais credibilidade ou para mais gastos?
CARLOS HONORATO – O que tinha que ser feito não está sendo feito. Caminhamos para mais gastos. Não vamos quebrar imediatamente, mas entramos numa trajetória de endividamento perigosa, que impacta os juros e atrasa o país. 2027 é o ano mais crítico.
AGÊNCIA DC NEWS – O Brasil consegue atrair capital produtivo?
CARLOS HONORATO – Tem capital especulativo e algum investimento produtivo, principalmente em infraestrutura, mas ainda insuficiente. Falta investimento em logística, energia e transporte. O Brasil segue atrativo pelo juro alto, mas vive sempre no limite da capacidade.
AGÊNCIA DC NEWS – O crescimento do PIB em torno de 2% mascara fragilidades da economia?
CARLOS HONORATO – Na verdade, esse crescimento é o teto, não a base. O Brasil não consegue crescer mais do que isso por causa de juros altos, impostos elevados e falta de infraestrutura.
AGÊNCIA DC NEWS – Para você, qual é hoje a maior fonte de incerteza econômica?
CARLOS HONORATO – Não é uma só. Política fiscal, monetária, cenário eleitoral e economia internacional. Todos precisam ser monitorados ao mesmo tempo.
AGÊNCIA DC NEWS – Como o mercado de trabalho deve se comportar neste ano?
CARLOS HONORATO – Estamos perto do máximo de emprego possível. Sem choques externos, a tendência é de manutenção do nível atual, muito sustentado pela informalidade.
AGÊNCIA DC NEWS – Qual consenso econômico mais repetido hoje está errado?
CARLOS HONORATO – As visões extremas: ou de que o Brasil já quebrou ou de que está vivendo uma maravilha. A realidade é complexa e exige análises com mais nuances.
AGÊNCIA DC NEWS – O Brasil está preparado para um choque externo?
CARLOS HONORATO – Não. O país reage tarde e improvisa. Falta preparação estrutural para choques internacionais.