Guerra no Irã aumenta volatilidade nos mercados e pode frear fluxo estrangeiro para emergentes

Uma image de notas de 20 reais

Crédito: Bruno Peres/Agência Brasil

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – A guerra no Irã está fazendo com que os investidores globais puxem o freio de mão nas alocações em mercados emergentes.

A Bolsa de Valores brasileira derreteu mais de 3% nesta terça-feira (3), em linha com o movimento visto em México, Chile, Índia e China. Índices de mercados desenvolvidos, como europeus e norte-americanos, também tombaram em meio à procura por portos seguros para investimentos.

A estratégia, apelidada de “flight-to-safety” (fuga para a segurança), também tirou 4% do índice MSCI Mercados Emergentes -principal via de alocação nesse tipo de praça até então.

A aversão a ativos de risco já é esperada em momentos de elevada tensão e incerteza. E são esses os fatores que, se agravados ou prolongados, podem interromper de vez o fluxo de capital estrangeiro para mercados emergentes.

“Os ataques ao Irã foram totalmente inesperados. Nenhum analista conseguiria prever, dois meses atrás, que o aiatolá Ali Khamenei seria morto e que o conflito escalaria dessa forma”, diz João Ferreira, sócio da One Investimentos.

“Isso muda totalmente o cálculo de alocação e precificação de mercados em geral.”

Até então, a narrativa predominante era de diversificação de carteiras. Em meio às instabilidades causadas pela política externa, comercial e econômica de Donald Trump nos Estados Unidos, investidores globais estavam apostando em mercados menos expostos às incertezas e com alto potencial de retorno.

A aposta fez a Bolsa brasileira galgar patamares nunca antes vistos, indo de 160 mil pontos em 31 de dezembro de 2025 para recordes 191 mil pontos no final de fevereiro. O volume aportado por investidores estrangeiros em janeiro foi praticamente equivalente a todo o saldo do último ano.

Parte dessa tese tinha como catalisador, inclusive, tensões geopolíticas instigadas pelo governo Trump – como o desejo pela Groenlândia, território dinamarquês, e a operação na Venezuela que resultou na captura do ditador Nicolás Maduro.

“Se tivéssemos um termômetro de gravidade, a guerra no Irã estaria em um nível acima dessas últimas ocorrências”, diz Rodolfo Amstalden, sócio-fundador e CEO da Empiricus.

“Estamos falando de um contexto bélico, e já dá para perceber que não vai ter uma solução dentro de casa, como foi com a Venezuela. É aquele ditado: você sempre sabe como entra em uma guerra, mas nunca sabe como sairá. Por mais que o governo Trump tenha um planejamento de até cinco semanas de conflito, a verdade é que ninguém sabe onde isso vai dar.”

O principal receio, hoje, é de que a guerra cause disrupções prolongadas nos mercados de energia. O Irã produz cerca de 3,3 milhões de barris de petróleo por dia, ou 3% da produção mundial, mas exerce influência ainda maior sobre o fornecimento da commodity devido à sua posição às margens do estreito de Hormuz.

O canal é a via por onde passa 20% da produção mundial de petróleo e é, em grande parte, controlado pelo país persa. Os ataques dos Estados Unidos e de Israel levaram o Irã a fechar o estreito, enquanto o Qatar suspendeu a produção de gás natural liquefeito, levando ao fechamento preventivo de instalações de petróleo e gás em todo o Oriente Médio. A produção do país representa cerca de 20% da oferta global.

Desde o final de semana, o petróleo Brent, referência global, já subiu mais de 11%; o gás europeu, mais de 50%.

A preocupação é que, se o confronto no Oriente Médio se prolongar, os preços mais altos das commodities poderão provocar um repique inflacionário – sobretudo em países que já estão avançados nos ciclos de afrouxamento de juros, como os Estados Unidos.

A possibilidade tira atratividade de mercados emergentes e reposiciona o dólar no tabuleiro: antes em desvalorização globalmente, ele voltou a ser o porto seguro para investimentos diante da escalada de tensões. O índice DXY, que compara a moeda a seis outras divisas fortes, já subiu quase 1,5% desde segunda-feira.

Nesta terça-feira (3), o dólar fechou em forte disparada de 1,87% frente ao real, cotado a R$ 5,261. A moeda chegou à máxima de R$ 5,343 nesta sessão, um salto de quase 20 centavos em relação ao fechamento da véspera, de R$ 5,164.

Não significa que a moeda americana mudou de trajetória de longo prazo. A expectativa é que o dólar siga perdendo força nos próximos anos, mas não de forma linear.

“O dólar sempre tende a ser um porto seguro em momentos de estresse porque é a moeda de liquidez global e de reserva dominante. Se o conflito ficar mais contido, pode ser uma alta de curto prazo. Se for mais persistente, o dólar fica mais firme por mais tempo”, diz Adriana Ricci, fundadora, gestora e head de operações da SHS Investimentos.

“Não importa se a moeda está bonita ou feia. Quando o mundo quer liquidez, o dólar costuma ser o primeiro destino”, completa.

Mas, no curto prazo, é possível esperar uma interrupção no fluxo para emergentes até que as incertezas, ou parte delas, se dissipem. A duração e a intensidade do conflito são as variáveis que poderão reverter essa interrupção.

“Se tivermos um encerramento do conflito, com diminuição de riscos sobre a cadeia do petróleo, se não tivermos um repique de inflação no mundo e se o investidor estrangeiro voltar a ter apetite por emergentes, é possível que o fluxo volte. Mas olha quantos ‘se’ eu coloquei nessa frase”, diz João Ferreira, da One.

“Toda vez que temos muitos ‘se’, isso acaba denotando incerteza. E incerteza no mercado sempre reflete no preço.”

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