Pastore: "Fim da 6x1 seria camisa de força para a economia brasileira"

Sociólogo especialista em relações do trabalho alerta que a imposição constitucional de uma escala 4x3 ignora as particularidades de setores essenciais, ameaça a sobrevivência de pequenas empresas e pode resultar em inflação e desemprego

Karina Lignelli
14/Abr/2026
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Pastore: "Fim da 6x1 seria camisa de força para a economia brasileira"

O debate sobre o fim da escala de trabalho 6x1 e a implementação de uma jornada de quatro dias (4x3) ganhou tração no Congresso e nas redes sociais. Porém, para o sociólogo José Pastore, a proposta de alteração constitucional é vista com ceticismo e preocupação. Em entrevista ao Diário do Comércio, o especialista destaca que o Brasil já possui mecanismos de flexibilização por meio de negociações coletivas previstos na Constituição, e que uma regra rígida de "cima para baixo", como o fim da 6x1, desconsidera a realidade de um mercado de trabalho que já sofre com a escassez de mão de obra.  

Além de ser ano eleitoral, para José Pastore, o momento é o mais inadequado possível para implantar essa mudança devido à combinação de baixa taxa de desemprego e falta de trabalhadores qualificados e não qualificados em diversos setores - especialmente no comércio. Ele destaca ainda como essa medida pode afetar o bolso do consumidor, o orçamento dos municípios e até a viabilidade de setores que não podem parar, como saúde e segurança. 

"Seria uma camisa de força no Brasil, de Norte a Sul, para todos os setores e empresas. Isso é um absurdo. Se (a PEC 8/2025) passar, tem que ser cumprida, e as empresas vão cumprir. Só que elas vão precisar fazer ajustes de sobrevivência. E esse ajuste pode ser feroz", alerta. Inclusive para os trabalhadores.

José Pastore é Ph.D. e Doutor Honoris Causa pela University of Wisconsin (EUA). Foi chefe da Assessoria Técnica do Ministério do Trabalho (1979-83) e membro do Conselho de Administração da OIT (1990-92). É professor titular da Faculdade de Economia e Administração (FEA-USP). Mesmo aposentado, leciona Relações do Trabalho para o MBA em Recursos Humanos na Fundação Instituto de Administração (FIA) e integrou o Fórum Nacional do Trabalho (2003-05) como consultor técnico.

Também é consultor em relações do trabalho de empresas e entidades empresariais como a FecomercioSP, onde preside o Conselho de Relações de Trabalho, e membro do Conselho Político e Social (Cops) da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), a casa do empresário. É autor de mais de 20 livros e 100 artigos em revistas técnicas nacionais e internacionais sobre relações do trabalho.

Além dos efeitos do fim da 6x1, Pastore fala sobre o atual momento do mercado de trabalho, sobre a NR-1, informalidade, pejotização, a correlação entre produtividade e jornada e do papel da CLT no atual contexto. Confira a entrevista a seguir:

 

Diário do Comércio - Entidades do setor produtivo acham que a discussão sobre o fim da 6x1 deve ser melhor analisada. Qual a sua posição sobre o tema?

José Pastore - A Constituição estabelece um teto para trabalho semanal de 44 horas e para o trabalho diário de oito horas. Esse é um teto, quer dizer, é ilícito você trabalhar mais do que isso. A não ser em determinadas exceções que a CLT permite. Por exemplo, quando uma pessoa faz uma jornada de 5x2, trabalha um pouquinho mais de 8 horas por dia. 

Isso a CLT permite, mas a regra da Constituição é estabelecer os tetos. A própria Constituição estabelece que, abaixo do teto, as partes podem negociar o que quiserem. E essa negociação pode ser feita entre empregado e empregador, mas, na maioria dos casos, é uma negociação coletiva entre sindicato patronal e sindicato laboral. Isso tem ocorrido no Brasil ao longo dos anos - tanto que a jornada efetivamente praticada no Brasil é de 38,4 horas por semana. 

Ou seja, não há necessidade de estabelecer uma regra tão rígida na Constituição, como essa que se pretende de 36 horas por semana e uma escala de 4x3. Seria uma camisa de força no Brasil, de Norte a Sul, para todos os setores, todas as empresas. Isso é um absurdo. Porque a natureza das atividades varia muito.

Tem atividades que não podem parar. Na pecuária, por exemplo. Saúde não pode parar. Uma siderúrgica não pode desligar o alto-forno. Supermercados trabalham de sábado, domingo e também no feriado. Farmácias não podem fechar. Segurança não pode parar. Como é que fala para os bandidos: olha, nesses três dias aí vocês não podem praticar nenhum crime porque não tem policial. Não faz sentido.  

 

O presidente Lula quer celeridade na votação da proposta porque é uma discussão mundial ou é simplesmente estratégia eleitoreira?

Pastore - É eleitoreiro o que está acontecendo. Eu não sou especializado em política, mas a gente está vendo que as bandeiras eleitorais do Lula estão meio desgastadas, né? Estão caindo uma atrás da outra. Não tiveram o efeito que ele gostaria que tivessem. Por exemplo, no Imposto de Renda, ele falou: "agora não paga quem ganha até R$ 5 mil", porque ele achava que ia ter um tremendo de um efeito. Mas não vai ter, porque só vai aparecer a partir do ano que vem.

Digamos assim, as políticas até aqui lançadas não estão dando resultado e ele quer pôr toda a força nessa aí porque mais de 80% da população aprova a ideia de trabalhar menos e ganhar igual. Mas, especificamente, voltando à questão da jornada, no comércio, por exemplo, haverá uma grande dificuldade para mudar isso. 

 

Defensores da redução de jornada apontam que a medida poderia gerar até 4,5 milhões de empregos, enquanto setores como transportes e indústria temem retração no PIB. Como o governo pode harmonizar essa necessidade de postos formais com a exigência de reduzir jornadas extensas sem inviabilizar pequenos negócios?

Pastore - O peso dessa despesa vai variar de empresa para empresa. Mas, de um modo geral, tende a ser mais pesado para as pequenas e médias empresas. Porque a grande empresa usa mais tecnologia do que a pequena; como ela usa mais tecnologia, então ela utiliza menos trabalho. Para a pequena, o trabalho pesa mais. Então, esse aumento da folha vai ocasionar mais problemas para a pequena e média do que para a grande, em tese.

O comércio, que está muito concentrado em pequenas e médias, é muito sensível a essa mudança obrigatória de redução de jornada, porque impacta de uma maneira muito forte, emprega muita gente. Em uma farmácia, por exemplo, você tem o estoque de remédios e tem a mão de obra. É só isso. Qual é a tecnologia que tem? O máximo é saber operar o caixa, o sistema de compra e venda. Qual é a tecnologia que ele pode ter ali? Um autosserviço, talvez. Mas ainda é reduzido. 

Qual é a automação no shopping? Qual é a tecnologia que ele pode usar? O grosso é atendimento, é a presença do vendedor, a simpatia do vendedor, a atratividade do vendedor. O comércio é muito marcado por essas habilidades ainda humanas. É por tudo isso que a redução pode ocasionar aumento da folha salarial. 

 

A Frente dos Municípios foi ao Congresso semana passada mostrar como a redução de jornada pode afetar o orçamento, pois pode aumentar o gasto com serviços terceirizados. Isso procede? 

Pastore - O setor público também vai ter um impacto grande com a eventual redução de jornada. Muitas atividades são terceirizadas. Outras atividades não são terceirizadas, são executadas diretamente pelo setor, mas são de natureza contínua. O caso, por exemplo, da segurança. O caso dos hospitais. Além de serem de natureza contínua, são do estado, do município, do governo federal. Estes também vão sentir um impacto grande com a redução de jornada porque têm um orçamento previamente aprovado pela Assembleia ou pelo Congresso. E, de repente, vão ver que a folha vai aumentar 20%.

Mesmo que não seja em todas as áreas, vamos supor que só um terço das áreas aumente: será um terço com 20%. Até aprovar de novo orçamento, como é que faz? Pode afetar até o pagamento dos terceirizados, dos contratados.  

 

O país continua com o mais baixo índice de desemprego da série histórica, 5,8%, e os mais diversos setores reclamam da falta de mão de obra. Até quando essa situação se sustenta?

Pastore - É, tem esse problema ainda. Se você for levar a sério essa redução de jornada, para as empresas poderem abrir e manter o trabalho como é feito hoje, vai ser preciso contratar. Mas está muito apertado, não tem gente disponível.

A falta de mão de obra atinge todos os setores. E atinge tanto a mão de obra qualificada como a mão de obra não qualificada. Se pegar na construção civil, faltam engenheiros e faltam serventes de pedreiro. Então, é um problema sério que não pode ser resolvido do dia para a noite. Só porque vai aprovar uma redução de jornada vai surgir mão de obra disponível?

 

Ao conversar com comerciantes e prestadores de serviço, como cabeleireiros, a grande reclamação é que os jovens têm um discurso 'anti-CLT', preferem ser informais, pois a renda é maior e todos querem mais flexibilidade - por isso a dificuldade de reter a mão de obra. O senhor concorda com essa questão?

Pastore - São dificuldades reais. A realidade é essa que você acabou de descrever. Então, o que você vai fazer? Vai querer impor agora, justo agora, o fim da jornada 6x1? Não tem razão de fazer por questões constitucionais, porque, como eu falei, a Constituição já permite fazer esse ajuste. Mas, além disso, o momento atual (ano eleitoral) é o mais inadequado possível para pensar nessa ideia. Ainda mais em implementar uma ideia dessa.

 

Hoje só retém mão de obra quem paga bem, dá benefícios e mais flexibilidade?

Pastore - Esse cenário está ligado a fatores conhecidos. O primeiro é que há um aumento de renda. Você tem que analisar todas as negociações coletivas, elas sempre terminam dando 1% ou 2% acima da inflação, 3%, às vezes até 4%. Isso representa um aumento de renda real.

Um outro fator, que está ligado ao primeiro, é a falha fiscal. Quando o governo passa a gastar muito como ele gasta hoje em projetos sociais, em bolsas, o que que acontece? Isso gera emprego. E isso gera renda também. Então, tudo isso colabora para a contratação: as pessoas são contratadas e você tem uma redução da oferta de mão de obra.

Um outro fator é que tem pessoas que podem trabalhar, mas não querem trabalhar, porque estão num esquema assistencial que julgam o mais conveniente para elas. Essa é a realidade, fazer o quê? Até quando vai se sustentar? Até quando as pessoas acreditarem que o governo não pode mais pagar a dívida pública.  

Se o pessoal fala que não quer trabalhar em determinadas condições, eu me conformo com isso. Tem que ver quais são os desejos deles. No mercado atual, que é um mercado apertado, falta mão de obra mesmo. Quem se candidata, quer ganhar bem, quer ter muito benefício, o empresário vai ter que pagar. Vai ter que oferecer um prêmio, pagar em dobro. Não tem outro jeito: é oferta e procura. Senão, nada de mão de obra. E não é reduzindo jornada que vai resolver esse problema.

 

Conversando com o sindicato Beleza Patronal, soube de casos de manicures, por exemplo, que ganham benefícios sociais, mas preferem ser informais porque tiram R$ 8 mil, R$ 10 mil por mês. Para onde caminha o mercado de trabalho nesse sentido, para a pejotização ou para a informalidade para ganhar mais?

Pastore - Nós já estamos com praticamente 40% da força de trabalho na informalidade. É um número estratosférico, 40% de pessoas que estão na informalidade e não recolhem absolutamente nada para a Previdência Social. 

O que acontece é que essas pessoas, como todo ser humano, adoecem, envelhecem e morrem. E nessas horas de riscos, quem vai atender o risco se elas não têm Previdência Social? Ninguém ou o governo? O departamento de assistência social vai atender. O governo não vai deixar as pessoas morrerem. Mas isso gera um rombo no sistema previdenciário.

A pessoa não contribui nada durante anos a fio, depois ela consome um recurso muito grande do Estado, seja do SUS, seja da assistência social, seja de uma bolsa qualquer. A informalidade é muito grave para as contas públicas. Mas é grave para as pessoas também, porque elas não têm nenhuma proteção futura.

 

A figura do MEI surgiu para formalizar esse pessoal, para eles terem essa proteção, e agora está sendo discutido o aumento do limite de enquadramento para que eles não precisem voltar para a informalidade. A pejotização seria a solução para minimizar esses problemas?

Pastore - Tem algumas atividades que legitimamente podem ser pejotizadas, porque é próprio do trabalho de profissionais autônomos, sejam eles de nível superior, de nível médio, ou mesmo de ensino fundamental.

Porque a atividade pode ser exercida de forma autônoma, mas quando a gente fala de informalidade, nós temos uma variedade muito grande. Você tem o informal-autônomo, que ele não é nem MEI, nem Simples, nem nada, não recolhe nada. Mas você tem o empregado informal também. Ele é empregado de uma empresa, vai lá regularmente, mas é informal.

Esse representa um risco muito grande para o Estado e para o empregador. Porque quando ele vai para a Justiça do Trabalho, o empregador perde na primeira instância. Informalidade não é boa para ninguém. 

 

Diante da obrigatoriedade da atualização da NR-1 em 2025, como as empresas que adotam a jornada 6×1 podem adaptar suas operações para evitar multas e o aumento de afastamentos por burnout?

Pastore - Está se falando que vai adiar um pouquinho, mas vamos partir do princípio que não, que vai entrar em vigor em 26 de maio. O que as empresas têm que fazer é tomar todas as providências para evitar doenças psicossociais. Agora, essa é uma área com muita subjetividade. Porque o pessoal fala assim: eu estou exausto aqui no trabalho, eu estou estressado, com depressão. Todos esses fatores podem ser determinados pelo trabalho, mas podem ser determinados também por atividades fora do trabalho. Às vezes o sujeito tem uma desavença em casa e isso vai dar estresse no trabalho. Não dá para separar. Às vezes ele tem uma dívida muito grande, que você não consegue pagar, vai dar um estresse no trabalho. Então, tem esse aspecto que é complicado para detectar exatamente o que é ou não a doença causada pelo trabalho.

Se tiver uma ação trabalhista ou uma fiscalização, vai gerar uma penalidade. O fiscal, o juiz, vai alegar que a empresa causou a doença. E a empresa terá que alegar que não causou a doença, se é esse o caso. Porque pode ter empresa que causa doença mesmo, pode ter trabalho que causa doença. Então, o que a gente pode aconselhar às empresas é que elas se antecipem.

 

Ou seja, a empresa tem que ter uma ação preventiva para se proteger, certo?

Pastore - Tem muitos elementos ao longo do tempo que ajudam a deixar claro que, se surgir uma ação trabalhista ou uma fiscalização, aquela depressão do funcionário não foi causada pela situação de trabalho. Porque, na ação trabalhista, é importante você estabelecer um nexo causal entre o trabalho e a doença. Então, ela tem que ir juntando dados, fazendo exames periódicos, observando os trabalhadores e o prontuário deles sempre e também tomando providências para realmente não ocasionar uma doença psicossocial. Porque, se, por acaso, tiver um problema lá no fim, ela tem elementos para se defender. 

 

Voltando aos pequenos negócios, quem defende a redução da jornada argumenta que isso já foi aplicado em outros países e tem dado certo. E tem varejistas no Brasil que dizem ter adotado a jornada 5 x 2 e isso não afetou a produtividade. Como a produtividade influencia essa questão? 

Pastore - Depende de cada modelo de negócio, depende do tamanho da empresa ou de como atingir essa melhora na produtividade. Duas coisas: como é que eles decidiram fazer a redução? Decidiram por conta própria. Não precisou de nenhuma lei. Não precisou mexer na Constituição. Eles usaram a Constituição atual para fazer um acordo e experimentar esses regimes de 5x2. Então, isso é prova de que não precisa. Eles estão fazendo isso aí, alguns fazem 5x2, outros fazem 4x3... Eles vão tentando as experiências, cada situação tem a sua peculiaridade. Esse é o primeiro ponto.

Segundo ponto, a respeito de produtividade, existe bastante gente usando o argumento de que os países avançados reduziram a jornada e a produtividade. Aqui há duas maneiras de ver essa questão: será que primeiro a produtividade aumentou, depois eles reduziram a jornada, ou primeiro eles reduziram a jornada e depois aumentou a produtividade?

Se você for olhar direitinho, primeiro aumentou a produtividade, depois eles reduziram a jornada. Na Europa, em uma hora se produz em média 80 dólares, 90 dólares, 100 dólares. E o Brasil produz 17 dólares.


Por que é tão difícil aumentar a produtividade no Brasil?

Pastore - Porque produtividade é o resultado de uma porção de forças. É muito comum a pessoa achar que produtividade é resultado da qualificação do trabalhador. É verdade, isso conta. Mas não é tudo. 

O que conta muito é se a empresa é bem administrada ou não. Uma empresa mal administrada não pode ter produtividade alta. Conta se a empresa tem muita tecnologia ou pouca. Se tem mais tecnologia, pode ser mais produtiva. Conta a infraestrutura do país onde está localizada; se a infraestrutura é boa, as estradas são asfaltadas, a energia é estável, barata, se tem armazém, se tem porto. Aí a produtividade aumenta. Vários fatores, além da qualificação profissional, determinam a produtividade. 

Então, se você pegar, por exemplo, um trabalhador brasileiro, da construção civil, de baixíssima produtividade, e jogar em uma obra de Nova York, a produtividade dele vai aumentar na hora. Porque o contexto todo é diferente. O material chega na hora certa, as obras são bem administradas, a energia é estável, é barata, o salário é melhor, o juro é mais baixo, as estradas funcionam. É o mesmo trabalhador. Mas produtividade é uma coisa que você não consegue mudar da noite para o dia.

 

No Brasil tem vários gargalos difíceis de mudar...

Pastore - Muitos falam assim: vamos reduzir a jornada porque isso vai aumentar a produtividade. De fato, um trabalhador mais descansado, digamos, trabalhando menos, deve produzir melhor. Mas a produtividade daria um bom salto se tudo dependesse dele. Será que o Brasil vai conseguir asfaltar todas as estradas da noite para o dia? O Brasil tem 23% das estradas pavimentadas. Sabe quanto a Alemanha tem? 100%. Não estou dando desculpa, o Brasil é um país maior, bem maior, mas se você pergunta se isso influencia a produtividade do trabalho, influencia. 

 

O senhor participou da elaboração da reforma trabalhista. Qual o papel da CLT no atual contexto?

Pastore - Olha, a CLT é um conjunto de regras para quem trabalha como empregado, mas tem muita gente no informal que está trabalhando como empregado. Isso é uma fraude grave. Você pode não gostar da CLT, mas é a lei que está valendo. Tem que ser obedecida. O empregado pode escolher o que ele quiser para trabalhar, mas o empregador tem que cumprir a lei.

Mas tem que modernizar a CLT. A reforma trabalhista já procurou modernizar algumas partes, mas muita coisa depende da Constituição. A reforma trabalhista foi uma reforma de lei ordinária, infraconstitucional. Ela criou o trabalho intermitente, ela regulou o trabalho remoto, regulou a terceirização. Tudo o que podia ser feito no âmbito ordinário, ela fez.

Mas no âmbito constitucional, é um campo politicamente explosivo, né? Difícil de mexer. Qual é o parlamentar que vai querer mexer nos direitos sacrossantos dos trabalhadores? O Brasil, aqui na América Latina, é um dos poucos países que têm férias de 30 dias depois de um ano de serviço. A maioria dos países tem férias proporcionais ao tempo de serviço. Então, depois de um ano de serviço, em geral, os países têm 15 dias de férias, 14 dias, 18 dias. Assim é no Chile, na Argentina.

Depois, a cada três anos de trabalho na mesma empresa, tem um dia a mais de férias. Para chegar nos 30, ele precisa ficar um bom tempo. O Brasil concede 30 dias logo no primeiro ano e um abono de férias de um mês. Então, isso custa para a empresa. O custo de um funcionário em cima do salário é de 102,43%. Na Constituinte (em 1988), fiquei que nem um zumbi lá no Congresso, nos corredores de noite e de madrugada, falando para os parlamentares: não coloquem essas coisas na Constituição, deixem na lei ordinária, pois dá para ajustar. Mas não adiantou nada, colocaram mesmo assim. Perdi meu tempo.

 

Falando sobre o jovem no mercado de trabalho, ele é mais inclinado ao empreendedorismo, às jornadas flexíveis. Mas a impressão é que isso aumenta a informalidade. Como o senhor avalia esse movimento?

Pastore - São mudanças nos valores sociais. Os mais jovens estão nutrindo outros valores, outros propósitos, eles estão pensando em outras formas de viver. Agora, é preciso encarar isso como uma realidade, que você não consegue mudar por lei. É coisa da geração. Então, o que compete ao Estado fazer? É buscar um sistema de proteção dessas pessoas e de proteção das finanças públicas também. É porque eles não recolhem o INSS, não sei se têm uma previdência privada...

Vai ser preciso adotar novos modos de proteger além da CLT.  Se não quer trabalhar como empregado, precisaria arranjar um modo de proteger. Todos os países estão com esse problema, estão procurando uma forma de proteger o autônomo. Essa pejotização, que eu gosto muito de citar, é o exemplo da Alemanha. 


Como funciona?

Pastore - Vamos pegar um caso de um autônomo bem característico, um ator de teatro. Ele é contratado por um teatro para fazer uma peça lá que vai durar seis meses, oito meses, depende do sucesso da peça. Para ele ser contratado por esse teatro, ele precisa demonstrar que está afiliado e adimplente a um sistema previdenciário público ou privado, a lei exige isso. Demonstrou isso, aí ele é contratado para fazer a peça. Essa contribuição ao sistema previdenciário é paga em três partes.

Vamos supor que a contribuição seja 20% sobre os ganhos dele: se ganha 2 mil dólares por mês, paga 10%, então seriam 400 dólares. O teatro paga 5%, e o Estado paga mais 5%. Com isso, tem todas as proteções previdenciárias, para doença, para acidente, aposentadoria... Aí acabou o contrato dele com esse teatro. Ele fica desempregado. Como é que vai fazer? Ele tem duas alternativas: pode pagar os 20% sozinho, ou a outra alternativa é pagar o quanto pode. 

Muito bem. Aí, ele arranja um outro teatro, aparece uma outra peça, ele pode pagar um pouco a mais para compensar o que não pagou. E recompõe o benefício dele lá na frente. Uma carreira profissional é sempre uma carreira longa, de 30 anos, 40 anos, dá tempo de a pessoa fazer esses ajustes ao longo da vida. No sistema, o ator é protegido e o Estado é protegido. E o trabalho é autônomo, não precisa de CLT, não precisa abrir uma empresa igual aqui. Pode, mas não precisa.

É um sistema de capitalização. Tentaram colocar na reforma da Previdência, mas demonizaram e tiraram fora. Foi um erro. Não tem nada demais a juventude querer trabalhar como autônoma. Só precisa bolar um sistema para proteção e com uma regulação bem rigorosa. Se tivesse, esse negócio do banco Master nem tinha acontecido do jeito que aconteceu.

 

Se o fim da jornada 6x1 realmente passar, pode ocorrer aumento de preços ao consumidor?

Pastore - Olha, primeiro, como eu expliquei para você, produtividade depende de muitos fatores. Simplesmente reduzir uma jornada não vai significar nada em termos de produtividade. Agora, em termos de preço para o consumidor, veja, querem fazer um negócio por lei, por PEC, que é de cima para baixo, sem impor uma única jornada e uma única escala.

Jornada é uma coisa, escala é outra. Jornada é a quantidade de horas que a pessoa trabalha durante a semana, por exemplo, 44 horas. A escala é o modo, segundo o acordo, pelo qual esse trabalho é distribuído na semana. Essa proposta da deputada Erika Hilton (PSOL-SP) muda as duas coisas. Ela quer reduzir a jornada para 36 e a escala para 4x3. Do Brasil inteiro, de Norte a Sul, para todas as empresas, para todos os setores, todos os ramos. Então, o que é que vai acontecer se isso passar? Tem que ser cumprido. As empresas vão cumprir. Só que elas vão fazer ajustes de sobrevivência.

 

Quais seriam eles?

Pastore - Existem quatro mecanismos de ajuste que elas podem tentar. O primeiro é esse que você falou, repassar o preço dos produtos que ela vende, o aumento de despesa que ela teve com a folha do pessoal. Um outro tipo de ajuste é, ao longo do tempo, ir 'descontratando', despedindo o trabalhador que ganha mais, e contratar um trabalhador que ganha menos. É rotatividade, que é bem alta, especialmente no comércio. Outro ajuste é mudar a atividade e automatizar com robô, com sistema, com IA. Então você vai ter que dispensar pessoal pela automatização.

E o último ajuste é encolher a escala dela. Então, vamos supor, um supermercado que está para abrir mais três ou quatro filiais. Não vai mais abrir essas filiais e até vai fechar mais alguma. Fechando tudo, reduzindo o tamanho das empresas, você reduz a produção de cada uma delas, você reduz o PIB. Isso gera recessão.

Então, nenhum desses quatro fatores aqui é bom para o trabalhador. Nem a inflação, nem a rotatividade, nem a automação e nem a recessão. Esses quatro fatores são péssimos para os trabalhadores e pode acontecer que os quatro venham a ser empregados simultaneamente. 

 

Como esse é um ano eleitoral e tem essa quantidade de temas paralelos correndo - 6x1, aumento do limite do MEI, voto distrital -, quais as suas perspectivas para o mercado de trabalho, do lado do trabalhador e do empresário?

Pastore - Eu acho que o mercado de trabalho vai continuar apertado até o final do ano, faltando mão de obra. Porque todos esses fatores que estão estimulando a contratação vão estar vivos até lá. Porque muitos deles dependem de políticas públicas, e as políticas públicas estão relacionadas com eleição, então vão ser mantidas ou até ampliadas. Por isso vai continuar.

Agora, de 2027 para frente, não se sabe. Vai depender da orientação que o governo vai tomar. Por exemplo, se o governo resolver fazer o enxugamento dessa área fiscal de benefícios excessivos, de gastos excessivos, vai afetar o mercado de trabalho. Porque vai diminuir a demanda e a taxa de desemprego pode subir. 

Se o governo resolver não fazer nada drástico e levar mais ou menos na barriga, devagar, vai continuar a mesma situação desse ano aqui: mercado apertado, falta de mão de obra e o empresário tendo que pagar cada vez mais caro. 


IMAGEM: André Lessa/DC

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