Associações comerciais alertam Senado sobre impacto da redução da jornada nos pequenos negócios
Empresários defendem transição gradual, proteção às micro e pequenas empresas e medidas compensatórias para preservar empregos formais

Mais de 1,2 mil federações e associações empresariais ligadas à Confederação das Associações Comerciais e Empresariais do Brasil (CACB) protocolaram nesta terça-feira (26/5), na Presidência do Senado Federal, um manifesto em defesa das micro e pequenas empresas no debate sobre a redução da jornada de trabalho. O documento foi divulgado durante reunião de representantes do setor produtivo com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP).
O manifesto é apresentado em um momento decisivo da tramitação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que põe fim à escala de trabalho 6x1 e estabelece a jornada semanal de 40 horas, sem redução salarial. O relatório da comissão especial da Câmara que analisa o tema está previsto para ser votado nesta quarta-feira (27) no colégio e no dia 28 no plenário. Depois segue para tramitação no Senado.
No manifesto, o Sistema do Associativismo Empresarial afirma reconhecer a necessidade de aperfeiçoamento das relações de trabalho e de ampliação da qualidade de vida dos trabalhadores, mas alerta para os riscos de uma implementação acelerada, especialmente para os pequenos negócios — que representam 93,8% das empresas brasileiras.
Segundo o documento, mudanças abruptas na jornada podem pressionar custos operacionais, elevar preços ao consumidor, reduzir postos formais de trabalho e incentivar a substituição de vínculos empregatícios tradicionais por modelos de contratação mais precários, como a pejotização e a formalização via MEI.
Na avaliação do diretor de Relações Institucionais da CACB, João Andrade, a PEC, se passar como está no relatório da Câmara, trará diversos problemas e dificuldades aos pequenos negócios. “Esperamos que no Senado possa haver um debate mais elevado para que possamos fazer algumas correções que levem em conta as peculiaridades das micro e pequenas empresas”, salientou.
Segundo ele, o presidente do Senado foi sensível às preocupações e fará um processo de tramitação justo. Pelo setor do associativismo, também participaram da reunião a diretora de Comunicação da CACB, Monica Monteiro, e o presidente do Conselho de Inovação da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), Tito Hollanda Barroso.
As entidades defendem que a discussão ocorra sobre quatro pilares:
1 - Proteção à sustentabilidade das micro e pequenas empresas
As associações sustentam que o desenho da transição não pode impor ônus desproporcional ao pequeno empreendedor, cuja operação é marcada por margens reduzidas e maior sensibilidade a crédito, tributação e oscilações econômicas.
2 - Gradualidade e segurança jurídica
O manifesto propõe um cronograma escalonado de adaptação, com horizonte superior a dez anos, permitindo planejamento e absorção progressiva dos custos, sem impacto abrupto sobre empregos e produtividade.
3 - Fortalecimento da negociação coletiva
As entidades defendem que convenções coletivas sejam o principal instrumento de acomodação das diferenças regionais e setoriais, respeitando as particularidades econômicas dos diversos segmentos produtivos brasileiros.
4 - Corresponsabilidade do Estado na transição
O documento pede que eventual mudança seja acompanhada de compensações fiscais e trabalhistas, incluindo medidas como desoneração da folha de pagamentos e revisão da incidência tributária sobre o emprego formal.
Motivação eleitoral
Para o setor empresarial, o debate sobre a jornada de trabalho deve considerar não apenas ganhos sociais desejáveis, mas também os efeitos econômicos concretos sobre empregabilidade, competitividade e sustentabilidade das empresas de menor porte, especialmente em setores intensivos em mão de obra.
Após a reunião com Alcolumbre, o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, destacou que a redução da jornada de trabalho precisa ser debatida com responsabilidade e equilíbrio. “E não por motivação eleitoral, isso é muito prejudicial ao país.” Ele ressaltou que, na Câmara, as discussões aconteceram de forma açodada e fora da realidade brasileira, mas espera que no Senado sejam feitas de maneira mais séria.
O presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Ricardo Alban, reforçou que 60 dias, prazo para entrada em vigor da redução, não é tempo hábil para uma empresa de pequeno e médio porte aumentar o número de funcionários ou aumentar a sua produtividade.
“Estaremos na véspera das eleições com um fato de que foi reduzida a carga horária, mas, após as eleições, os preços, repassados pelo aumento dos custos, estarão nas prateleiras e nos serviços. Esperamos que o Senado possa entender isso”, enfatizou.
Participaram da reunião representantes de 30 setores econômicos.
Leia a íntegra do manifesto neste link
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IMAGEM: Lula Marques /Agência Brasil

