Cervone, da Fiesp: 'Nem país em guerra tem juros como os nossos'
O vice-presidente da Fiesp e presidente do Ciesp cobra a atualização dos limites de faturamento do Simples Nacional, política de crédito mais eficiente e mudança de mentalidade do governo para destravar a Indústria 4.0 e transformar pequenas empresas em multinacionais

Ao mesmo tempo em que está diante de revoluções tecnológicas estruturais e de novas fronteiras de consumo global, a indústria brasileira é limitada por amarras domésticas que impedem o seu crescimento, especialmente dos micro e pequenos industriais. Em entrevista ao Diário do Comércio, o presidente do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) e vice-presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Rafael Cervone, apontou dois caminhos cruciais para o futuro do PIB industrial: a reforma urgente do Simples Nacional e do MEI e o reposicionamento do Brasil para abocanhar o mercado consumidor da África.
Cervone utiliza o setor têxtil, um dos maiores empregadores do país, para ilustrar a dificuldade de crescimento que afeta o ecossistema produtivo nacional. Ele diz que, no mercado de confecções, que gera 1,35 milhão de empregos diretos e sustenta indiretamente cerca de 8 milhões de pessoas, mais de 90% das empresas estão sob o regime do Simples Nacional. Sem atualização real dos limites de faturamento há anos, essas empresas enfrentam um "salto tarifário brutal" ao tentar mudar de faixa ou migrar para o Lucro Presumido.
"Vivemos dois dramas: se a empresa vira pequena ou média, ela perde competitividade porque não tem a escala das gigantes, mas é atingida por uma taxa tributária enorme. Tanto no MEI quanto no Simples, precisamos de uma atualização automática, seja pelo IPCA ou por outro índice. A inflação corrói o limite atual e empurra o empreendedor de volta para a informalidade, que já domina 50% do mercado", alerta.
Para mitigar esse abismo, Cervone diz que elevar o teto de faturamento das empresas do Simples é importante, mas apenas o primeiro passo. Ele destaca que o microempreendedor precisa de uma "agenda de difusão produtiva" que envolve educação empreendedora e a modernização da lista de atividades permitidas ao MEI.
Outra necessidade urgente apontada é melhorar o acesso ao crédito para capital de giro, e barateá-lo. "Reunimos Ciesp, Febraban, centrais financeiras e outras entidades para entender o motivo estruturante de um spread tão alto no Brasil, e ninguém explica. Nem país em guerra tem taxas como as nossas", critica.
Novo modelo produtivo - Ao citar a falta de escala, que torna a pequena indústria nacional vulnerável diante da concorrência asiática, especialmente a chinesa, potencializada pelas plataformas globais de e-commerce, Cervone enxerga uma mudança logística, acelerada pela Indústria 4.0, que pode favorecer a produção local: as compras com entrega em até 90 minutos, que considera a maior tendência de curto prazo.
Ele diz que, diante do custo de frete e da alta pegada de carbono do transporte internacional, a lógica muda. Para vender no Brasil, será preciso produzir no Brasil e, mais especificamente, no bairro, e não apenas em grandes distritos industriais.
O exemplo próximo disso seria o Denim City SP, no Brás, onde cerca de 20 marcas brasileiras se uniram para compartilhar um espaço de produção, e que demonstra o potencial do país para se consolidar como o grande hub global de jeans de valor agregado, impulsionado pelo fato de o Brasil ser o maior exportador e terceiro maior produtor de algodão do mundo, utilizando majoritariamente água da chuva (sem necessidade de irrigação artificial).
“Se resolver a escala interna por meio de um Simples Nacional eficiente, essa indústria estará pronta para abastecer o varejo nacional, o e-commerce e, fundamentalmente, para exportar.”
Importância da África - No radar de exportação, Cervone indica que o continente africano representa a maior fronteira comercial subaproveitada pelas médias e pequenas indústrias paulistas. Ele justifica, afirmando que a demografia joga a favor desse mercado, pois a população da África deve saltar dos atuais 1,5 bilhão para 2,5 bilhões de habitantes até 2050, com uma idade média de 19 anos - consolidando-se como a grande força de mão de obra e consumo do século 21.
No entanto, o presidente do Ciesp diz que, na contramão desses dados, o Brasil vem se distanciando da África. O comércio bilateral com o continente africano, que era de US$ 28 bilhões em 2013, caiu para US$ 16 bilhões em 2023, espaço integralmente ocupado pela China.
Para Cervone, a afinidade cultural, o idioma compartilhado e o fato de o Brasil ser a maior diáspora africana fora do continente não bastam se não houver uma ação coordenada entre o Itamaraty, a Apex e o setor privado.
Ao elencar os setores da indústria paulista com canais mais rápidos de inserção por meio da nova conjuntura do BRICS+ (com Egito e Etiópia) e do acordo Mercosul-Egito, ele cita o agronegócio, ao replicar o know-how de agricultura tropical desenvolvido pela Embrapa; a economia digital, pela expansão de agritechs e fintechs paulistas que já encontram tração em centros como Luanda, Lagos e Nairóbi; máquinas e equipamentos, por meio dos setores de mineração, construção civil e energia renovável; e o de defesa, pela forte atuação de cadeias produtivas ligadas a grandes players como a Embraer.
Para que o Brasil aproveite esse alinhamento entre o apetite externo e a tecnologia de descentralização produtiva, Cervone diz que se faz urgente uma mudança profunda de mentalidade estatal. "Temos a Indústria 4.0 batendo à porta, mas uma mentalidade de governo que, às vezes, parece retroceder à época do Império", afirma, citando medidas recentes que engessam a competitividade, como as discussões sobre a redução da jornada para 40 horas semanais, revisões em Normas Regulamentadoras (NRs) e o fim da "taxa das blusinhas".
“Enquanto competidores globais, como a China, operam com fortes planos estratégicos de longo prazo, o Brasil precisa parar de tributar o sucesso de suas pequenas empresas e criar um ambiente de segurança jurídica necessário para torná-las multinacionais.”
IMAGEM: divulgação

