Faturamento cai 20% no setor de beleza por falta de mão de obra

Perdas em 2024 e 2025 se devem à escassez de profissionais, que muitas vezes preferem a informalidade para não perder benefícios sociais, diz sindicato Beleza Patronal. Para driblar o problema, redes como a Black Zone (na foto) oferecem capacitação por meio da Universidade do Barbeiro

Karina Lignelli
17/Dez/2025
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Faturamento cai 20% no setor de beleza por falta de mão de obra

O setor de beleza vive um paradoxo que já preocupa empresários, entidades representativas e centros de formação, como o Senac. Há vagas sobrando, oportunidades de renda acima da média e cursos gratuitos disponíveis, mas falta mão de obra disposta a se formalizar. O problema, que se estende do pequeno salão de bairro às grandes redes, segundo os empresários do setor, já ameaça a sustentabilidade dos negócios e afeta drasticamente o faturamento dos estabelecimentos.

Enquanto o Sebrae Nacional aponta que 44% dos empreendimentos do setor não conseguiram repor mão de obra nos níveis pré-pandemia, outro levantamento, do sindicato Beleza Patronal, que tem uma base de 378 mil estabelecimentos no estado de São Paulo, revela uma situação ainda mais crítica. Com a escassez de profissionais, as estimativas de queda de faturamento nos salões de beleza em 2024 (-9,9%) e no acumulado de 2025 (-11,7%), somadas, superam 20%. 

O cenário é considerado raro em um setor historicamente dinâmico, pois o mercado de cosméticos, que o integra, continua crescendo. Mas isso distorce leituras macroeconômicas, já que a atividade de Serviços, que depende diretamente de mão de obra, caminha no sentido oposto, diz Luis César Bigonha, presidente do sindicato e proprietário da Beauty Contabilidade.

A situação atingiu um ponto crítico, principalmente pela falta de profissionais dispostos a trabalhar formalmente e pela recusa em perder benefícios sociais, afirma. Assim, muitos salões reduzem horários, operam com capacidade limitada e até fecham as portas por não conseguirem formar equipes mínimas - problema com que, como contabilista, ele lida de perto. “Empresários do setor me ligam todos os dias dizendo que vão fechar porque não têm manicure, não têm cabeleireiro... O problema é real.” 

Ele, que também é conselheiro do Senac e diretor da FecomercioSP, afirma que, se não fosse pelo papel fundamental da instituição profissionalizante, o setor já estaria "em colapso". Embora não haja uma estimativa precisa do déficit total de profissionais devido à alta informalidade, segundo Bigonha, a necessidade de mão de obra é evidente.

"O Senac forma anualmente 42 mil pessoas para o setor (estética, cabeleireiros, manicures, etc.), mas essa oferta não supre a demanda. Acreditamos que seria necessário, no mínimo, triplicar o número de formações para suprir essas vagas", explica. "Se não houvesse este trabalho de formação, setores como bares e restaurantes, por exemplo, também entrariam em colapso."

Luis César Bigonha, do Beleza Patronal, ao lado de Gaya: oferta formal de mão de obra para o setor de beleza teria de triplicar (Imagem: Karina Lignelli/DC)


Incentivo à informalidade

Se a dificuldade em preencher vagas é um problema geral do mercado, o setor de beleza lida com particularidades complexas. Para Bigonha, a principal barreira é a recusa de muitos profissionais em assumir vínculos formais - seja como CLT, seja como MEI, conforme permite a Lei 13.352, que regulamenta o modelo de contratos de parceria nos salões.

A informalidade é impulsionada pela preocupação dos profissionais em não perder benefícios sociais, especialmente o Bolsa Família, afirma. Muitos preferem trabalhar sem emissão de nota fiscal, sem registro e sem contribuição previdenciária, o que inviabiliza a contratação pelas empresas que atuam dentro da legalidade.

Um estudo da FGV ajuda a visualizar essa correlação, que sempre é apontada por empresários e já foi noticiada pelo Diário do Comércio. “Eu tenho manicure que ganha R$ 8 mil por mês e continua recebendo Bolsa Família. Quando a empresa exige nota ou quer registrar, ela simplesmente vai embora”, afirma Bigonha.

O presidente do Beleza Patronal reforça ainda que o sindicato apurou que, em diversos municípios, ainda há falhas de comunicação entre prefeituras e o governo federal, permitindo que beneficiários continuem recebendo o benefício mesmo após emitirem notas fiscais de prestação de serviços. "É um incentivo involuntário à informalidade", diz. 

O cenário contrasta com a natureza empreendedora do setor e uma de suas particularidades mais surpreendentes. Uma pesquisa realizada em turmas de cursos voltados à beleza no Senac aponta que 83% dos estudantes de manicure, cabeleireiro, estética ou barbearia desejam abrir o próprio negócio. Esse comportamento se reflete no cotidiano dos salões, em que profissionais parceiros frequentemente se comportam como empreendedores independentes - e são remunerados dessa forma.

Há até casos extremos, como o de especialistas em mechas de salões de alto padrão que faturam mais de R$ 500 mil por mês com o auxílio de assistentes. Exceções, claro, mas que ilustram o potencial do setor. "Já vi casos de profissionais com 19 assistentes que faturam mais do que o próprio dono do salão", conta Bigonha. 

Ainda assim, essa veia empreendedora cria conflitos, diz: muitos profissionais rejeitam relações hierárquicas, não se adaptam ao modelo de parceria e acabam migrando para o atendimento domiciliar, o que reduz a disponibilidade nos salões. 

Mas a postura dos empresários do setor também conta nessa questão, segundo Bigonha, e é preciso educá-los para esse modelo. "Quem não procura entender o perfil empreendedor dos profissionais de beleza tende a reproduzir práticas de subordinação incompatíveis com a Lei 13.352, gerando rotatividade e conflitos."


Totem de autoatendimento na Blow: automação direciona mão de obra para funções especializadas


Para evitar o colapso 

O Senac tem sido um dos pilares para manter o setor funcional, diz Luis Bigonha, que também faz parte do conselho da instituição e foi diretor comercial da L'Oreal Paris. Só em São Paulo, reforça, 42 mil profissionais são formados por ano em áreas de beleza e bem-estar, e 98% dos cursos têm vagas gratuitas. “Se não fosse o Senac, o setor já estaria em colapso”, afirma.

Mesmo assim, a instituição percebeu queda na procura por cursos de cabeleireiro após a pandemia. A geração que chega ao mercado, segundo o presidente do Beleza Patronal, busca ensino superior e sofre preconceito familiar com profissões de estética, ou não quer a rotina intensa dos salões, pois prefere flexibilidade e qualidade de vida.  

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Para minimizar o problema, o sindicato patronal, em parceria com o Pró-Beleza Nacional (sindicato dos trabalhadores), promove campanhas de estímulo à formação e à ocupação das vagas, com divulgação em salões, redes sociais e eventos do setor.

A oferta inclui cursos gratuitos, material didático e encaminhamento profissional. "Tudo é sem custo para o aluno e, ainda assim, muitos preferem permanecer na informalidade", afirma Bigonha. Em sua avaliação, a solução passa por medidas estruturais, como, por exemplo, rever a política de benefícios sociais - como elevar o teto de renda para manutenção do Bolsa Família para algo próximo de R$ 5 mil, "permitindo que os profissionais possam se formalizar sem perder o suporte", diz.

Além de triplicar o volume de formação profissional e educar empresários para o modelo de parceria, segundo ele, também é preciso modernizar processos. Algumas redes já recorrem à automação, com totens de autoatendimento e sistemas de gestão para direcionar a mão de obra para funções especializadas, como é o caso da rede de franquias Blow Escova Inteligente.  

Ou da rede de barbearias Black Zone que, com cinco anos de atividades, criou a "Universidade do Barbeiro" na Praça da República, no Centro da capital paulista, para minimizar o problema. Além de formar mais de 400 profissionais, os formandos são encaminhados para um banco de talentos e têm oportunidade de serem absorvidos pela própria rede. 

Para Luis Bigonha, a mensagem é clara. “Só não trabalha quem não quer. O que falta não é oportunidade; é formalização”. 

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IMAGENS: Karina Lignelli e divulgação 

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