O antídoto das franquias de beleza para neutralizar a falta de profissionais

Com investimentos em formação profissional, plano de carreira e soluções tecnológicas, como a recepção autônoma da Blow Escova Inteligente (na foto), redes criam estratégias para segurar talentos e reduzir rotatividade

Karina Lignelli
17/Dez/2025
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O antídoto das franquias de beleza para neutralizar a falta de profissionais

A dificuldade para contratar e reter profissionais qualificados é um dos principais gargalos do setor de beleza no Brasil, provocando queda de faturamento no mercado de salões. Em um cenário de pleno emprego (nível de desemprego em 5,4% em outubro, segundo o IBGE, o menor da série histórica desde 2012), e com uma geração cada vez mais exigente quanto a propósito, flexibilidade e crescimento profissional, redes de franquias de beleza usam sua estrutura para investir em educação, tecnologia e novos modelos de carreira para driblar a escassez de mão de obra e reduzir a rotatividade.

Exemplo disso é a Black Zone, rede de barbearias fundada por Paulo Silva, oriundo do mercado financeiro. Sua estratégia foi se antecipar ao problema: a marca criou a Universidade do Barbeiro, localizada na Praça da República, Centro da Capital paulista, hoje considerada o maior centro de formação exclusivo, que já colocou no mercado mais de 400 barbeiros desde sua fundação, em 2020.

“Hoje, o nosso maior desafio é buscar mão de obra qualificada. Por isso, a Universidade do Barbeiro nasceu quase que em paralelo com a operação da Black Zone, já olhando para o longo prazo”, afirma.

Segundo o empresário, o setor passou por uma transformação profunda nos últimos anos. Se antes a barbearia era vista pelos trabalhadores como uma alternativa por necessidade, agora passou a ser encarada como uma oportunidade de carreira. A rede criou os cursos não só para formar mão de obra, mas para acabar com esse velho estigma do setor de beleza. 

Às vezes, conta, a pessoa não conseguiu concluir o ensino médio, nem fazer um curso técnico na faculdade, mas precisava fazer dinheiro relativamente rápido. Acabava aprendendo a cortar o cabelo com um amigo, com um familiar e se tornava barbeiro. Hoje, segundo Silva, o segmento, que por muito tempo foi bastante tradicional, agora passa por um movimento mais 'gourmetizado' e que leva a uma demanda maior de jovens buscando a barbearia. 

A Universidade do Barbeiro, da Black Zone, já formou mais de 400 profissionais desde a sua fundação, em 2020

 

“Hoje, com a profissionalização do setor e a entrega de uma experiência mais completa, a barbearia passou a atrair jovens que se identificam com o lifestyle e enxergam isso como carreira”, explica. Mas também há outro desafio: 'trabalhar muito bem' com esse profissional, conforme reforça, porque a rotatividade é muito alta. "Principalmente entre os jovens que, assim como em outros segmentos que sofrem com a falta de mão de obra, buscam mais flexibilidade e qualidade de vida."

A Universidade do Barbeiro forma atualmente mais de 80 barbeiros por mês, muitos deles absorvidos diretamente pelas unidades da rede, que inaugura novas lojas praticamente todos os fins de semana. Além da formação técnica, a empresa aposta em um plano de carreira claro e com diferentes caminhos de desenvolvimento, de acordo com Silva.  

A Black Zone também estrutura sua estratégia de retenção colocando o barbeiro no centro dos negócios, trabalhando com um modelo flexível e progressivo: começa com comissionamento fixo, que pode aumentar de acordo com o faturamento, o que permite atender tanto o profissional que busca qualidade de vida - com maior autonomia para gerir a agenda - quanto aquele que quer acelerar a renda. Quanto maior a faixa de faturamento na cadeira, maior é o avanço do comissionamento, afirma.

“O sucesso da nossa marca passa primeiro pelo sucesso do barbeiro. Ele entra como profissional técnico, mas pode se tornar instrutor, gestor, consultor de campo, instrutor da Universidade e até franqueado", conta. "Hoje, temos franqueados que começaram como barbeiros. A gente absorve o profissional, mas deixa livre para construir a carreira dele junto conosco."

A Universidade do Barbeiro também oferece cursos para profissionais de fora da rede e dá bolsas de estudo principalmente para mulheres e pessoas trans em situação de vulnerabilidade. Ao se formarem, todos os alunos entram em um banco de talentos para terem oportunidade de emprego nas unidades da Black Zone.

Inovação que não substitui pessoas

Uma rede de escovarias com atendimento 100% automatizado. Ou seja, com totens de atendimento nos quais o cliente marca seu próprio horário, faz pagamentos e reagenda serviços de acordo com sua conveniência. Esse é o modelo Smart da rede de franquias Blow Escova Inteligente, criada pelo empresário Rômulo Figurelli e que tem 40 unidades em operação no país. 

Assim como uma rede de padarias paulistana 'contratou' robôs para contornar a falta de mão de obra - e liberar os atendentes para atividades de maior valor agregado -, na Blow a inovação foi pensada para agilizar processos, não para substituir pessoas.

A ideia inicial foi democratizar um dos serviços capilares mais procurados nos salões de beleza, com serviço rápido e preço acessível (a partir de R$ 45) e, ao mesmo tempo, fazer com que os profissionais se dediquem apenas ao atendimento. 

“A tecnologia não existe para contornar a falta de mão de obra, muito menos para substituir o profissional. Ela elimina a burocracia do agendamento e do pagamento para que o escovista foque 100% na excelência do atendimento”, diz Figurelli.

Na rede de beleza, a retenção de talentos passa por um modelo de parceria, meritocracia e uso estratégico da inovação, ao estruturar carreiras em cinco níveis e se baseando em critérios como avaliação das clientes e consistência no desempenho.

Por isso, a estratégia para reter talentos não é tratar o profissional como funcionário, mas sim como parceiro, respeitando o perfil empreendedor característico do profissional de beleza. Ele entra como starter, segundo Figurelli, e pode evoluir até se tornar um mestre "dentro de uma trilha estruturada e meritocrática, sem política ou favoritismo."

Ou seja, quanto melhor o atendimento e maior a satisfação da cliente, maior é a comissão do profissional, criando um alinhamento entre todas as pontas do negócio. “O profissional ganha mais, a cliente sai feliz e o franqueado retém o talento porque oferece algo raro no mercado de salões: reconhecimento claro e perspectiva real de crescimento”, afirma.

Além disso, o franqueador destaca que a tecnologia ajuda a reduzir custos fixos e aumentar a rentabilidade em 30% com os totens de autoatendimento, além de viabilizar a abertura de mais unidades, ampliando o mercado de trabalho no setor. 

Com todos esses fatores, a rede faturou, em 2024, R$ 17 milhões com 26 lojas. Em 2025, a previsão é de dobrar o faturamento, atingindo R$ 35 milhões e 50 franquias. Com o modelo Smart, a expectativa é chegar a 100 franquias no final de 2026. 

“Quando a gente reduz o investimento inicial da franquia (de R$ 400 mil para R$ 295 mil), consegue abrir mais lojas. E mais lojas abertas significam mais empregos. Na prática, a tecnologia está multiplicando oportunidades, não diminuindo”, conclui. 

 

IMAGENS: divulgação 

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