Pascoal da Conceição: "Aqui em São Paulo todo mundo é paulistano, não existe quem seja de fora"
Pascoal: paulistano, bancário, datilógrafo, tradutor, ator. Com pai PM e mãe costureira
(Rony Santos/Folhapress)
Paulistano da Zona Leste, o ator lembrado como Doutor Abobrinha e Mário de Andrade diz que a população precisa cuidar dos espaços públicos
Funcionário concursado do BB, ele larga um emprego seguro para viver da arte. "Levava a carteira de trabalho com orgulho no bolso"
Por Vitor NuzziCompartilhe:
[AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DC NEWS] Doutor Abobrinha, personagem do programa Castelo Rá-Tim-Bum, que entrou no ar na TV Cultura em 1994, quer derrubar o local para construir um arranha-céu. Pascoal da Conceição, o ator que deu vida ao personagem, foi aguerrido defensor do Teatro Oficina justamente contra a especulação imobiliária. “Tem uma coisa no teatro chamada subtexto”, disse Pascoal. Algo que não se diz, mas está nas entrelinhas – os gestos e o comportamento denunciam. “No caso do Oficina, o Zé [Celso] usou subtexto em todas as peças.” Ele considera o Doutor Abobrinha – personagem sempre lembrado e que até salvou Pascoal de um assalto, uma história que o emociona – “o subtexto da cidade de São Paulo”. Mas, assim como Mário de Andrade (seu outro personagem) era 300, São Paulo também é. Múltipla. O paulistano Pascoal, nascido na Zona Leste, gosta justamente dessa diversidade. “Aqui todo mundo é paulistano, não existe quem seja de fora, estrangeiro, porque estrangeiro e residente você não distingue”, afirmou. Nesta semana mesmo ele andava pela rua Direita e viu um casal conversando: “Só de perto percebi que falavam outra língua. Andavam como paulistanos, absorvidos pela multidão”.
Pascoal tornou-se o Doutor Abobrinha quando fazia free-lancer como dublador na Cultura, que exibia programas da BBC inglesa. Foi convidado pelo diretor Cao Hamburger para teste de um personagem que vinha sendo pensado como uma espécie de “vilão” da história. “Foi sopa no mel.” Ele já tinha vivência com teatro amador. E com um dos mais conhecidos de São Paulo. Anos antes, foi parar no Teatro Oficina – que o diretor José Celso Martinez Corrêa tentava manter vivo – quando estudava na Escola de Arte Dramática (EAD) da USP em 1981. Ao mesmo tempo, era, desde 1972, funcionário concursado do Banco do Brasil. Tinha um ótimo emprego, com direito a dois salários extras. Mas, como conta, sempre “procurou sarna para se coçar”. A inquietude era a arte chamando.
Uma professora dividiu a turma em grupos, e o dele foi o Oficina. Pascoal nunca mais saiu de lá. “Embora não estivesse funcionando como casa de espetáculos, porque o prédio não tinha condições, o trabalho era intenso”, disse Pascoal. “Sem nenhum apoio, sempre dirigido pelo Zé, lutando pra não ser engolido pela especulação imobiliária.” Um imbróglio entre o onírico Zé Celso e o pragmático Silvio Santos, que terminou com a decisão de se construir ali o Parque do Bixiga. Em 2024, a prefeitura sancionou a Lei 18.157, que incluiu esse parque no Plano Diretor Estratégico (PDE). Mas não foi exatamente um embate, segundo Pascoal. “A inteligência do Zé transformou tudo num espetáculo público que expôs as visões de mundo.” E, dessa forma, a própria cidade pôde discutir o que construir no local.
Dias intensos para o bancário Pascoal, que de 1981 a 1984 trabalhou em dois turnos. Durante o dia, secretário e administrador do Oficina. Da meia-noite às 5 da manhã, na compensação de cheques do BB. Ele ficou primeiro na agência da Vila Prudente (onde nasceu), depois foi para a Vila Alpina – mais perto de onde morava, no Parque São Lucas. “Quando cheguei no Oficina, mudei de agência para poder trabalhar em outros horários.” Primeiro na agência central e depois do no centro de processamento, em Santo Amaro (Zona Sul). Rodou a cidade, até voltar à Vila Alpina, onde pediria demissão. Após tentar, sem sucesso, que o banco o liberasse para se dedicar à reabertura do teatro.
Mário/Pascoal com crianças em parque infantil: valorização do espaço público (Arquivo pessoal)Mário com crianças em parque infantil: espaço de lazer e de educação (Divulgação)
A iniciativa foi arrojada: às 6 da tarde, Pascoal pegou ônibus para Brasília. Chegou às 6 da manhã à capital, pegou o crachá funcional e foi até a sala da presidência, “no risco e na loucura”. A proposta feita ao BB: ele continuaria contratado, mas seria cedido ao Oficina “para trabalhar pelo teatro brasileiro”. A “proposta ousada” não foi aceita, mas o ator lembra que anos depois o BB espalharia centros culturais pelo país. “Aliás, onde funciona hoje o CCBB de São Paulo era a antiga tesouraria do banco!”
Quando passou no concurso, Pascoal também foi aprovado no vestibular para estudar Letras. Optou pelo trabalho. O emprego no BB era uma realização para a família, mas ele jamais iria abandonar o caminho artístico. “Meu pai e minha mãe são migrantes que a dificuldade empurrou pra cidade grande.” José Vicente, vindo do interior paulista (Bananal), e Maria Salomé, do interior de Minas Gerais (Carmo do Rio Claro), se conheceram em São Paulo. Ele, policial militar. Ela, costureira. Tiveram sete filhos. Um morreu. Pascoal era o arrimo da família. Começou a trabalhar aos 11 (está com 72) e tem carteira assinada desde os 13. “Carteira que eu levava com orgulho no bolso. Meu pai dizia: qualquer coisa, mostra tua carteira de trabalho.”
Pascoal na terra do trabalho. Aos 12, era entregador do jornal A Gazeta de Vila Prudente, e passou a datilógrafo. “Uma vez, quando deu enchente em casa, eu escrevi um artigo.” A família também vivia mudando de endereço. “Vez por outra o proprietário pedia a casa, até que veio a lei do inquilinato.” Pela nova regra, se quisesse vender, o dono tinha que oferecer primeiro a quem estava morando. Não resolveu muito, porque eles não tinham dinheiro para comprar, mas serviu para que Pascoal entendesse a situação do Oficina do ponto de vista jurídico.
Pascoal com a avó: família “misturada” e antepassados escravizados (Arquivo pessoal)
MISTURAS – A história das migrações, característica de São Paulo, também é bem conhecida para ele. O pai veio da Fazenda Rialto, em Bananal, da lavoura do café, “onde trabalharam seus antepassados escravizados” – a mãe de José Vicente, avó de Pascoal, era cozinheira ali. “Minha avó contou que o pai dela era escravizado, viveu e morreu na fazenda, meu bisavô e a minha bisavó.” Depois da Segunda Guerra, a avó veio para São Paulo. Ela contou ao neto: depois da Lei Áurea, quem ficou trabalhando na Rialto recebia como “pagamento” um papel com determinado valor. O dinheiro mesmo ela só veria ao sair da fazenda. Não viu.
“Quando a vida apertou”, ela decidiu mudar para a capital e foi “resgatar” o dinheiro. “O capataz ficou puto, rasgou e jogou na cara dela”, afirmou Pascoal. “Vieram com uma mão na frente e outra atrás, como se diz.” O pai dele entrou para a PM em 1953, ano em que Pascoal nasceu – em 9 de outubro, o mesmo dia de Mário de Andrade (1893). Foi guarda noturno e se aposentou como tenente. Outras lembranças também remetem ao trabalho, como a mãe lavando as batinas dos padres de um orfanato. “Era bonito ver as batinas balançando no varal.” E a roda da máquina de costura, quando dona Maria Salomé não estava lá, era o “automóvel” do garoto Pascoal.
Então, Pascoal é “misturado”. Como São Paulo. Como Mário era. “O pai dele é um homem negro – liberto, mestiço – que casou com a filha do patrão. Aprende a ler e escrever, é tipógrafo.” Mário vai para a escola de comércio, vai para a música, vai para a literatura. A esta altura, Pascoal cita o poema Descobrimento, em que Mário fala de um “homem lá no Norte” que é brasileiro como ele. Essa busca pela cultura popular é, para Pascoal, o segredo da “libertação” de Mário de Andrade, um “solteirão, sem namorada, pansexual, como ele dizia que era”, de família “carola” e em uma cidade provinciana. “Ele se solta na paixão por tudo que é brasileiro. A cultura popular permitiu que o Mário encontrasse a alegria de viver.”
Uma São Paulo que foi se misturando com a chegada dos migrantes. Que falava indígena e passou a falar todas as línguas. “Ela muda de 15 para 500, tem um descompasso populacional gigante. Essa gente trabalha na mesma fábrica, ocupa os mesmos espaços públicos.” Depois de tentar imaginar “como seriam as assembleias” operárias com essa babel metropolitana, Pascoal cita outro poema de Mário, Improviso do Mal da América.
Mas eu não posso me sentir negro nem vermelho! De certo que essas cores também tecem minha roupa arlequinal (…) Me sinto só branco, só branco em minha alma crivada de raças!
Mário de Andrade foi o primeiro diretor do Departamento de Cultura do município de São Paulo. Dá nome à principal Biblioteca Municipal paulistana. Criou parques públicos, que via como espaços de educação não formal. “Recentemente eu fui convidado para a festa de aniversário de um dos parques infantis que o Mário inaugurou na cidade”, disse Pascoal, que foi lá dando vida ao autor de Pauliceia Desvairada. “Os professores e professoras de lá amam e cultivam aquele espaço.” Se é verdade que o poder público pode e deve receber críticas, ele observa que a responsabilidade de cuidar é também das pessoas. “Tem o público que usa a cidade e não cuida o suficiente da cidade”, disse. “Que joga lixo no chão, que não visita os museus, que não se interessa em saber quem são os gestores.”
E, como dizia Mário de Andrade, a cultura vale tanto quanto a comida? “Vale.” E o Mário diz mais: “nós ainda não estamos conscientes disso, e essa é a nossa maior imoralidade cultural.”