A IA resolve quase tudo, o furo é você!
As IAs seguem aumentando sua capacidade de processamento, de nos imitar. Corre risco quem nunca botou nada de concreto para dentro: vai ficar sem vocabulário para interagir com o mundo digital, vai sofrer ainda mais

“Trabalhar com a cabeça agora significa gerir inteligências artificiais!”. Encontro essa frase na abertura da coluna do Ronaldo Lemos na Folha de S. Paulo, e me questiono quem nunca sonhou em ter um assistente que fizesse todo o trabalho, resolvesse os problemas e, principalmente, tomasse aquelas decisões que nos doem e deixam até os mais prepotentes na dúvida. Nos sobraria administrar o tal assistente e ter uma vida muito mais tranquila, focada nas coisas que de fato gostamos. No ambiente de trabalho, nas questões estratégicas.
Nunca estivemos tão perto disso... Na coluna do Lemos, a comparação é que a habilidade de gerir esses “seres” equivale a um novo MBA. E ninguém precisa ir para Harvard ou Stanford, e muito menos investir os “tubos” que custa um curso desses para ter uma equipe tão poderosa.
Talvez seja indicado pagar uma IA para poder aprofundar um pouco mais, mas está tudo acessível. Verdade que no tempo entre escrita e subida ao ar dessa coluna tudo pode mudar, tamanha a velocidade de desenvolvimento na área.
Ainda lembro do Michael Useem, que me recebeu e apresentou a não menos influente Wharton Business School, um dos principais gurus de liderança do início do século que julgava importante mesclar ensinamentos práticos à teoria. Seu curso mais prestigioso envolvia levar os estudantes até a base do Everest a mais de 5 mil metros de altura (vivo em São Paulo, a 760 metros do nível do mar, e já vi o quanto o meu time, com o mesmo nome da cidade, apanha para jogar na altitude de La Paz, a 3,6 mil metros). Na visão de Useem, em situações extremas é que se aprende sobre o comportamento humano; no mínimo, se tiram lições decisivas.
Se o novo líder que irá comandar a equipe de agentes de IA tampouco precisará sair de casa e viajar tão longe para se preparar, já vivemos o suficiente para entender que, por mais que esses agentes trabalhem, o horizonte de paz e tranquilidade não parece o futuro mais provável. A natureza da IA está impondo um ritmo mais acelerado, e o digital eliminou barreiras e jornadas: todo dia é dia, toda hora é hora.
Ronaldo Lemos aponta que o trabalho humano será coordenar e supervisionar esses agentes, e para isso o mais importante será um ótimo domínio da linguagem. E aí a pegadinha: ele é conquistado fora do digital, nas atividades que reforçam a leitura, a escrita, a conversa, a reflexão, habilidades que podem ser melhor desenvolvidas no mundo analógico.
Nesse ponto entro com a psicanálise. Para Lacan somos seres de linguagem, atravessados por ela, e incapazes de dar conta de tudo. Haverá sempre um resto, um furo, uma incapacidade de representação. Daí o conceito de objeto A. O objeto A não existe de forma palpável, é sem representação concreta, mas designa o furo da representação de uma necessidade interna na linguagem, o intraduzível - o que nos condena a eternos desejantes. Nunca nos completaremos, mesmo que um exército de agentes de IA não meçam esforços algorítmicos, nem em computadores quânticos, para gerar nossas respostas.
Portanto, se você um dia sonhou que acumularia muito, seja dinheiro, poder, influência e teria o mundo aos seus pés, é importante trabalhar o seu narcisismo, como também que tudo não passou de uma ilusão. Sua capacidade de desejar segue infinita e a todo vapor. Analistas existem para ouvir e descarregar um pouco dessa frustração de incompletude.
A tecnologia põe muito à nossa disposição, tudo tem um preço, e nem sempre é calculável. Como nunca mais coincidiremos plenamente com o que sentimos, seguimos seres desejantes e furados. Alguns se iludem que darão conta, que o material completa o corpóreo, e nem as massagens nos spas mais luxuosos dão conta das nossas necessidades. Mas talvez em uma coisa possamos lucrar: não mais precisaremos contratar aqueles palestrantes motivacionais baratos. Não no cachê, e sim na profundidade de contexto e resultados: os agentes de IA não se motivam por eles.
Se existe algum risco dos agentes dos palestrantes recriarem a necessidade deles, unamo-nos, façamos como sugere Lemos: busquemos nos livros, nas conversas, na reflexão na escrita, as maneiras de nos entendermos e ampliarmos nossa visão de mundo. As IAs seguem aumentando sua capacidade de processamento, de nos imitar.
Corre risco quem nunca botou nada de concreto para dentro: vai ficar sem vocabulário para interagir com o mundo digital, vai sofrer ainda mais. Ainda não estudei o inconsciente de quem viveu apenas de forma digital. Será que ele existe? Ou é apenas um delírio?
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