A obsolescência programada da IA já começou e o varejo deve acelerar esse processo

A próxima disputa será menos sobre quem 'usa IA' e mais sobre quem consegue confiar a ela partes críticas do negócio sem perder consistência, margem e credibilidade

Lyana Bittencourt
21/Mai/2026
CEO do Grupo Bittencourt
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A obsolescência programada da IA já começou e o varejo deve acelerar esse processo

O termo "obsolescência programada" é empregado quando um produto ou solução lançado no mercado se torna inutilizável ou obsoleto em um  período de tempo relativamente curto de forma proposital para que seja rapidamente descartado e, desta forma, estimula-se o lançamento de um  novo item para consumo.

Chamar de “obsolescência programada” talvez pareça exagero para uma tecnologia que ainda ocupa o centro da conversa empresarial. Mas, no caso da inteligência artificial, o envelhecimento já começou no exato momento em que o mercado entendeu que responder bem não basta mais.

O próximo ciclo de valor não está no modelo de IA que conversa, mas no agente que decide, executa, negocia, compara, compra, acompanha e corrige rota. A IA que hoje impressiona como interface tende a virar commodity.

Essa transição é especialmente relevante no varejo, setor pressionado por margem apertada, produtividade, sortimento complexo, demanda volátil, ruptura de estoque, custo logístico e um consumidor que muda de canal e expectativa em tempo real. Quando uma operação dessa escala entra em fase de automação decisória, a mudança deixa de ser apenas tecnológica e passa a ser estrutural.

Em fevereiro de 2026, o volume de vendas no varejo brasileiro cresceu 0,6% sobre janeiro e renovou o maior nível da série histórica do IBGE. O dado importa menos como celebração conjuntural e mais como sinal de pressão. Quanto maior o volume transacionado, maior o custo de operar mal, prever mal e personalizar mal.

É nesse ponto que a IA generalista começa a perder protagonismo. Chatbots, copilotos e buscadores conversacionais ajudam a reduzir atrito e ampliar acesso à informação. Mas o ganho real aparece quando a IA deixa de apenas sugerir e passa a agir dentro do fluxo de negócio.

Agentes de IA são sistemas capazes de perceber contexto, tomar decisões delimitadas por objetivos e operar sobre outros sistemas. No varejo, podem reprecificar itens, redistribuir estoque, priorizar pedidos, recompor ruptura, monitorar concorrência, acionar fornecedores, adaptar campanhas, revisar descrições de produto e orquestrar atendimento.

Segundo a Salesforce, 75% dos varejistas já diziam em 2025 que agentes de IA seriam essenciais para competir dentro de um ano. Do lado da demanda, 39% dos consumidores já usam IA para descoberta de produtos, percentual que passa de 50% entre a geração Z.

A disputa, portanto, deixa de ocorrer apenas na busca tradicional, no tráfego pago ou no site, e passa também pelo ambiente em que sistemas automatizados interpretam intenção, comparam atributos e recomendam compras.

A tese da obsolescência não diz que a IA vai perder importância. Diz o oposto. Ela se tornará tão central que boa parte do que hoje parece diferencial será requisito básico. O valor passará a estar na integração com dados proprietários, no desenho de agentes especializados, na governança de decisão, na qualidade transacional da operação e na confiança oferecida a clientes e parceiros.

No consumo, a chamada agentic commerce parte de uma lógica simples: comprar se tornou, para muita gente, uma tarefa cansativa demais para ser feita manualmente do começo ao fim. Categorias recorrentes, reposição, missões utilitárias e decisões orientadas por preço, conveniência e prazo são candidatas naturais à delegação.

A Deloitte cita projeções segundo as quais, até 2030, 25% das vendas globais de e-commerce poderão ser viabilizadas por agentes de IA. No Brasil, fala-se muito em personalização, experiência e atendimento, mas menos em delegação de consumo. Ainda assim, supermercado, farmácia, eletrônicos, itens de reposição, moda básica, viagens, assinaturas, loyalty e recompras assistidas já reúnem condições para avançar nessa lógica.

Para as empresas, isso muda quase tudo. Se o cliente for representado por um agente, a marca precisará ser legível não apenas para pessoas, mas também para máquinas. Isso exige catálogo estruturado, atributos claros, disponibilidade confiável, política comercial consistente, prazo preciso, reputação verificável e integração sem atrito.

A vitrine continuará relevante, sobretudo em categorias aspiracionais. Mas parte das vendas migrará para ambientes em que vencerá quem oferecer melhor dado, resposta mais precisa e menor ambiguidade transacional. A arquitetura ganha poder.

Por isso, a obsolescência programada da IA não será a da tecnologia, mas de uma fase do discurso sobre tecnologia. A etapa em que bastava parecer inovador, plugar um chatbot na operação e chamar isso de transformação digital está acabando. No varejo, a próxima disputa será menos sobre quem “usa IA” e mais sobre quem consegue confiar a ela partes críticas do negócio sem perder consistência, margem e credibilidade. 


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