A silenciosa força da participação urbana

“Affonso Celso Prazeres, falecido há um mês, foi uma dessas lideranças que construiu São Paulo. À frente do Edifício Copan, demonstrou que processos participativos podem induzir transformações profundas e duradouras no território”

Valter Caldana
22/Jan/2026
Professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie
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 A silenciosa força da participação urbana

*com o empresário Carlos Beutel

Falar da cidade é, antes de tudo, falar de pessoas. Pessoas que a constroem para além de planos formais, legislações complexas ou grandes projetos. Que constroem a qualidade dos espaços urbanos. E humanos.

Enquanto planos respondem à grande escala urbana, as qualidades humanas nascem da capacidade de organização, diálogo e mobilização da sociedade. É onde a coletividade e as lideranças locais são decisivas, operando na escala concreta, próxima, onde a cidade se manifesta como experiência vivida.

Affonso Celso Prazeres de Oliveira, falecido há um mês, foi uma dessas lideranças que construiu São Paulo. À frente do Edifício Copan, com mais de mil unidades e população maior que a maioria dos 5.570 municípios brasileiros, exerceu um papel que extrapolou em muito a função. Sua atuação demonstrou que processos participativos podem induzir transformações profundas e duradouras no território.

Quando assumiu o Copan, em 1993, o cenário era de terror: tráfico de drogas, prostituição, assaltos no elevador e áreas comuns. Na época, uma kitchenette era vendida por R$ 5.000,00 e ainda assim ninguém queria. Então, condôminos com muita vontade de melhorar tudo se organizaram e o elegeram.

Não foi fácil, nem simples. Chegou a usar colete à prova de balas, contratar segurança privada e fazer caminhos alternados para não ser surpreendido. Contudo, ao articular desejos firmes com regras claras, enfrentar conflitos, mas dialogar, e estabelecer objetivos e planos, criou condições para que a coletividade voltasse a reconhecer valor nos seus espaços. Dentro e fora do prédio.

O Copan recuperado, valorizado, voltou a ser referência urbana. Mais ainda, todo o seu entorno, República, Ipiranga, Consolação e vizinhos ilustres, Hilton, Itália, Metrópole, além de bares, restaurantes e boates, passou por uma renovação marcada por diversidade social, cultural, etária, racial e de gênero, com novos usos, comércio ativo e vida intensa.

O caso do Copan, e do Affonso Celso Prazeres, evidencia algo fundamental para o debate urbanístico contemporâneo: projetos locais e planos de bairro são essenciais e não dependem apenas de desenhos técnicos, mas de sujeitos capazes de articular e sustentar pactos sociais.

A cidade melhora quando há liderança, pertencimento e compartilhamento. O resultado vai além da recuperação física ou valorização imobiliária. Chega ao fortalecimento da vida urbana, da diversidade e do uso intenso e democrático da cidade.

Esta trajetória nos lembra que a produção da cidade é, na essência, um processo social. Muitas vezes, uma única liderança enraizada no território pode desencadear transformações que nem mesmo os mais ambiciosos planos conseguem definir sozinhos. Essa é uma lição valiosa para quem acredita que a cidade se constrói com técnica, sim, mas sobretudo com participação, compromisso e responsabilidade compartilhada.

Por isso, cabe contar algumas histórias singelas desta figura. Uma delas dá conta de um morador cujo cachorro, o Chicó, habituado em sítio, ao chegar à cidade grande, logo marcou o território no hall do andar. O dono, atônito, ao se dar conta e agir, já estava com a multa sob a porta. Recorreu e, claro, foi indeferido. Em outra ocasião, em uma visita guiada, foi perguntado da garagem. Sem titubear, respondeu: é diversa como a cidade. Tem de Mercedes do ano até a Kombi xexelenta do Carlinhos, que era o organizador da visita!

Já um casal que sequer morava no Copan foi visitar amigos e, festa animada, não podendo namorar no apto foi fazer sexo na escadaria. Flagrados, foram interrompidos e multados. Um jornalista que soube do ocorrido fez um artigo e, bem-humorado, batizou o síndico de Affonso Celso Estraga Prazeres de Oliveira.

Cabe agora, nesta breve homenagem, o desagravo. Affonso Celso, o que a cidade sempre se lembrará será dos Prazeres de seu legado.

**As opiniões expressas em artigos são de exclusiva responsabilidade dos autores e não coincidem, necessariamente, com as do Diário do Comércio**

 

IMAGEM: Paulo Pampolin/DC

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