Se foi o carnaval, restou a alegoria

“Achar que uns painéis de LED bem fortes e bem sonoros serão atratividade para São Paulo é de um equívoco incomensurável. Acreditar que estes possam fazer uma Times Square é um equívoco ainda maior”

Valter Caldana
02/Mar/2026
Professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie
  • btn-whatsapp
Se foi o carnaval, restou a alegoria

São Paulo, os mais antigos se lembram, tem na poluição um de seus problemas crônicos que, de quando em quando, se tornam agudos.

No ambiente urbano, há quatro poluições assassinas de economias, de cidades e de pessoas: a sanitária, a do ar, a visual e a sonora. Uma civilização, uma sociedade ou uma cidade levam séculos, às vezes milênios, para superá-las e viabilizar a vida.

A poluição sanitária é enfrentada no mundo ocidental há mais ou menos 250 anos, logo depois das crises de saúde pública ocorridas pós-revolução industrial, que chegaram a colocá-la em risco em virtude da mortandade da mão de obra. As questões sanitárias urbanas foram a mola motora de todos os estudos de planejamento urbano e saúde pública subsequentes. Este combate teve ainda, posteriormente, grande impulso na pandemia do início do século passado.

No Brasil o combate à poluição sanitária feito através de políticas públicas consistentes se dá há mais ou menos metade deste tempo, algo em torno de 150 anos. Vale lembrar que na época da (re)fundação de São Paulo, por volta de 1870, ainda se jogava esgoto pelas janelas e os escravizados "tigres" podiam ser vistos pelas ruas.

Um século mais tarde, é preciso registrar aqui o embate entre a Solução Integrada e o Sanegran, inconcluso até hoje. Como se vê, avançamos muito, mas falta muito ainda.

A poluição do ar combatemos há 50 anos, com a heroica Cetesb à frente. Anos 1970, de grandes batalhas contra chaminés, pós de cimento, monóxido e dióxido de carbono. Ainda nesta luta se inseriu o aumento da vegetalização da cidade. Saímos dos míseros 8m² por habitante que tínhamos na década de 1980... e só conseguíamos isso pois "entrava na conta" balão, rotatória e canteiro central!!! Esta, praticamente vencemos! Hoje batemos recordes de plantio e vamos melhorar, plantar árvores onde precisa.

Também com felicidade, hoje acompanhamos o movimento em torno do combate à poluição sonora. Inclusive com boa parte da movimentação nascida em torno do comércio de rua. Esta é a batalha do momento!!! Ou deveria ser. Que seja!

No entanto, vale lembrar que avançar significa, antes de tudo, manter posições conquistadas. De que adianta lutar pela despoluição sonora e abrir mão da poluição sanitária, da poluição do ar ou da poluição visual?

Incompreensivelmente é o que se está prestes a fazer. Recentemente foi espantosamente aprovado pelo Conpresp um projeto que abre um rombo na Lei Cidade Limpa, que terá consequências devastadoras sobre a cidade, a nossa saúde, nossas atividades comerciais e nossa qualidade de vida.

A poluição visual, cujo combate nos deu a grande vitória neste século XXI, revolucionou silenciosamente a cidade, a maior conquista do ponto de vista comercial, sanitário, imobiliário, cultural e urbano que a sociedade obteve em 25 anos.

No entanto, continuam as movimentações em direção ao desmonte da Lei Cidade Limpa. Vem agora este projeto da Broadway paulistana, do grande marco referencial urbano, da necessidade deste empreendimento específico para salvar o turismo na cidade. Sim, salvar este setor que, no entanto, vem sendo cada dia mais bem cuidado, motivo de orgulho e que tem batido recordes sucessivos de entregas e sucesso.

Diz o dito popular e o bom senso que em time que está ganhando não se mexe, se melhora. Por isso, renunciar a qualquer elemento da lei Cidade Limpa é um retrocesso suicida e inadmissível. Uma ação que parece estar ofuscada pelo brilho dos LEDs.

Achar que uns painéis de LED bem fortes e bem sonoros serão atratividade para São Paulo é de um equívoco incomensurável. Acreditar que estes possam fazer uma Times Square é um equívoco ainda maior. Ignora, por exemplo, que lá a área tem um passado de 120 anos (o jornal foi para a praça antes de 1910) e, para se manter atrativa, neste século, ela foi completamente pedestrianizada, virou calçadão. Suas calçadas foram alargadas, os carros afastados e os equipamentos públicos foram fortemente valorizados. O comércio local incentivado e as pré-existências destacadas. Ou seja, mais uma vez a (r)evolução urbana no século XXI foi no chão da cidade. Não nos painéis.

Além desta cópia do que não é o copiável, sobre esta “praça do tempo passado” paulistana, restam duas perguntas: onde estão as pesquisas de mercado nacionais e internacionais indicando claramente que este tipo de atração poluente atrairá turistas brasileiros e estrangeiros. E, se atrair, qual o perfil deste turista, suas características de consumo e ticket médio.

Além disso, existindo realmente este novo grupo de turistas nacionais e estrangeiros a ser agregado, além de uma passada pela praça dos LEDs, que outras atrações ele vai procurar na cidade para consumir? Turismo, quando não é de um dia, não preciso lembrar os leitores, é uma operação casada. Atrações articuladas.

Se esta pesquisa não for divulgada, feita por empresa especializada internacional, o projeto é alegoria e aríete para arrombar a Lei Cidade Limpa e espalhar LEDs por toda a cidade. Se a pesquisa existir, vale a pena conversar sobre ela e fazer um bom projeto.

A segunda pergunta é, bem empírica: quantas pessoas entre os leitores e leitoras deste jornal alguma vez saíram de São Paulo e foram a NYC por causa da Times Square e seus painéis?

Enfim, renunciar a qualquer aspecto da Lei Cidade Limpa é um enorme retrocesso, que nossos netos levarão mais 50 anos para recuperar. Se nos interessam projetos especiais, e nos interessam, estes devem ser feitos olhando para o que se tem de melhor no Brasil e no mundo, olhando para o para-brisa e não para o retrovisor. A palavra estará, agora, com a CPPU, que deve proteger a nossa paisagem urbana.

**As opiniões expressas em artigos são de exclusiva responsabilidade dos autores e não coincidem, necessariamente, com as do Diário do Comércio**

 

IMAGEM: divulgação

O Diário do Comércio permite a cópia e republicação deste conteúdo acompanhado do link original desta página.
Para mais detalhes, nosso contato é redacao@dcomercio.com.br .

 

Store in Store

Carga Pesada