Ana Badra: 'As mulheres despontaram no corporativo, mas precisam de espaço na política'

A presidente do Conselho da Mulher Empreendedora e da Cultura (CMEC) da CACB acabou de realizar o 6º Liberdade para Empreender, encontro que reuniu mais de 1,5 mil lideranças femininas para debater a mulher em posição de liderança

Mariana Missiaggia
25/Nov/2025
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Ana Badra: 'As mulheres despontaram no corporativo, mas precisam de espaço na política'

Desde que assumiu o Conselho da Mulher Empreendedora e da Cultura (CMEC), em 2019, Ana Claudia Badra Cotait representa um movimento de transformação social que coloca a mulher no centro das decisões, da economia e do empreendedorismo.

Sua trajetória com o CMEC, ligado à Associação Comercial de São Paulo (ACSP), Federação das Associações Comerciais do Estado de São Paulo (Facesp) e Confederação das Associações Comerciais e Empresariais do Brasil (CACB), tem a missão de formar líderes e impulsionar negócios liderados por mulheres. 

Em entrevista ao Diário do Comércio durante o 6º Liberdade para Empreender, evento que reuniu nesta terça-feira, 25/11, na sede do Clube Atlético Monte Líbano, em São Paulo, mais de 1,5 mil mulheres para uma jornada de networking, inovação e fortalecimento do empreendedorismo feminino, Ana Claudia falou sobre as demandas reais das empreendedoras, do papel da mulher na política e como superar as dificuldades de acesso ao crédito. Acompanhe:

 

Diário do Comércio - Você transita bem entre os mundos da comunicação, político e corporativo. Na sua visão, qual dessas três frentes está sendo a 'locomotiva' da mudança para as mulheres hoje? E qual seria a frente mais pesada de puxar?

Ana Claudia Badra Cotait - As mulheres estão despontando no corporativo. Isso é indiscutível e vejo um cenário bem positivo na comunicação também. A mulher é muito dinâmica, interativa e sabe fazer acontecer porque ela tem vontade e necessidade de fazer acontecer. Sem dúvidas, a política é nossa frente que está mais devagar. Mesmo com muito contato com esse universo há tantos anos, eu ainda me surpreendo. Muita gente me pergunta por que não me candidato. Confesso que tenho receio e nem sei dizer exatamente do quê. O conceito de política no Brasil é muito complicado e a visão que tenho sobre o assunto é muito pessoal, não sei se dá pra dizer que outras mulheres pensam como eu. Por outro lado, não dá para ignorar a baixa representatividade que temos como mulheres nesse âmbito e os obstáculos que a desigualdade de gênero nos impõe. Embora sejamos maioria no eleitorado, nossa participação como mulheres eleitas para cargos legislativos no Brasil é muito baixa. Vejo essa participação como crucial para uma diversidade democrática e para avançarmos no desenvolvimento social e econômico.

 

Além da equidade salarial, qual deve ser a próxima grande pauta prioritária em questões sistêmicas que ainda impedem as mulheres de avançar?

Ana Claudia - Juros. Sem dúvidas, a questão dos juros é muito urgente. Já vivemos em um país de elevadas taxas de juros praticadas em financiamentos voltados aos pequenos negócios e que ficam ainda mais caras quando os tomadores são as mulheres empreendedoras. A realidade de boa parte das empreendedoras é começar com as habilidades e recursos que já têm à disposição. O objetivo imediato é garantir a renda e juntar capital para, só depois, investir no sonho maior, e isso é muito difícil de acontecer. A ideia, ou especulação, de que o empréstimo às mulheres seria uma transação financeira de maior risco devido a uma falta de compromisso com o pagamento não se sustenta. Além de arcarem com uma taxa de juros maior, as mulheres ficam com uma fatia menor desses recursos. Essa é uma bandeira fortíssima do CMEC. Além dos juros, outra necessidade é capacitação. As mulheres precisam muito de capacitação porque, aprendendo cada vez mais, elas se tornam mais fortes e ficam mais seguras.

 

Falando um pouco mais sobre finanças e acesso a crédito, a obtenção de capital de risco para fundadoras mulheres ainda é pouco significativa. Na sua visão, o gargalo principal está na forma como as mulheres 'vendem' os seus negócios ou em um viés inconsciente (ou consciente) de quem assina essa conta?

Ana Claudia - Acredito que, além da própria dificuldade de acesso a crédito, sofremos também com a questão da gestão financeira. A mulher é mais tímida para renegociar uma dívida, é mais tímida para pedir um crédito. E tudo isso porque não temos a cultura de uma educação financeira para, quando ela tiver o crédito, ela saber aplicar esse crédito. Porque às vezes ela não sabe e se perde com o dinheiro. Culturalmente, a mulher tem o hábito de entregar a gestão de seu negócio para o marido ou para um terceiro, e isso é muito grave. Gestão e finanças acabam se perdendo quando, na verdade, não poderiam ter saído das mãos daquela empreendedora. É assim que elas quebram. É extremamente importante uma mulher saber o que está sendo feito com o dinheiro dela. Ela precisa ser gestora do seu próprio negócio, pelo menos olhar o seu extrato bancário para ver o que está entrando e o que está saindo. Mas muitas não fazem nem isso.

 

Como as mulheres podem construir redes de influência que gerem negócios reais e acesso a capital, superando a barreira de serem excluídas dos espaços informais onde as decisões acontecem?

Ana Claudia - Frequentando esses espaços em que elas possam crescer, se relacionar, ser ouvidas e participar efetivamente, sugerindo mudanças e fazendo parte delas. Por maior que seja a resistência e o isolamento, é preciso determinação. Para conquistar espaço, respeito e protagonismo dentro de um universo consolidado masculino é preciso impor um novo modelo de liderança baseado na inclusão e transformação. Hoje, temos (via CMEC) quase mil conselhos em todo o Brasil, uma expansão que demonstra a importância de contarmos com uma rede de apoio para o empreendedorismo em diferentes contextos e realidades.

 

Se você pudesse dar apenas um conselho de comunicação estratégica para uma mulher que está prestes a assumir um negócio de qualquer porte para que ela estabeleça sua liderança logo no primeiro dia, qual seria?

Postura. Saber se colocar e se enxergar como empreendedora. Eu acho que a postura de uma mulher é extremamente importante para ela entrar em qualquer lugar, em qualquer mercado.

 

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IMAGEM: Somniare

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