Brasil: a tendência a médio prazo
Sem equilíbrio fiscal, a inflação e a elevada variação das atividades produtivas persistirão, dificultando que se criem condições para razoável crescimento do país até o horizonte de 2018
Duas visões do que seja uma recessão ajudam antever como a economia brasileira se comportará a partir de outubro de 2015, ano de crise, de recessão.
Primeira: toda recessão é uma fase em que a produção e o consumo diminuem, porém a primeira mais que o segundo porque, na fase, os estoques dos produtores, distribuidores e até mesmo dos consumidores são diminuídos (salvo no início da recessão, quando costumam aumentar; mas vale o entendimento).
Segunda: toda recessão é uma corrida dos agentes privados para elevar a própria liquidez. Uma visão é o lado financeiro ou real da outra.
A produção rolando abaixo do consumo por um tempo cria uma situação de estoques baixos, oferta restrita e de investimentos reduzidos, de estrutura produtiva parcialmente danificada, situação que, para ser corrigida, leva tempo. A corrida para a liquidez deixa os agentes privados líquidos.
Na crise o governo perde liquidez porque a arrecadação reduz-se, por vezes drasticamente, e ele não consegue ajustar os seus custos às suas receitas, como acontece entre os agentes privados.
Por isso ele emite, “pedala”, endivida-se, paga juros, incorre em déficit, e assim concorre também para elevar a liquidez da economia ou, pelo menos, para preservá-la.
Muitas vezes, diante da crise, o governo ainda aplica uma política buscando viabilizar ou acelerar a recuperação, ampliando ainda mais a liquidez criada.
Previsão
Segue o comportamento dos principais agentes diante do quadro fortemente recessivo e pessimista em curso em 2015 e antes:
*O governo foi forçado – ou já estava previsto, apenas esperou passar a eleição de 2014 – a deixar desvalorizar ou a fazer desvalorizar o Real, para recuperar a indústria e o emprego; certamente deseja mantê-lo desvalorizado;
*O governo, com o elevado déficit público, está elevando a liquidez da economia; errou ao elevar as taxas de juros: elas inibem mais a oferta que o consumo (que é apenas parcialmente adiado);
*Os produtores e distribuidores estão reduzindo estoques e investimentos, buscando elevar sua liquidez, sair do custo financeiro asfixiante; buscam elevar as exportações, muitas recentemente viabilizadas pela nova taxa de câmbio;
*Os consumidores, motivados pelo desemprego, pelo medo ao desemprego e pelo elevado custo do crédito, buscam reduzir o endividamento e ganhar liquidez;
*Os bancos estão restringindo créditos para reduzir a própria alavancagem e ganhar liquidez;
*Está ocorrendo desarticulação do sistema de produção, por força do comportamento dos produtores visando adequar a oferta à demanda corrente do mercado e o endividamento ao custo financeiro muito elevado; o crescente desemprego indica estar esse processo em andamento acelerado; a desaceleração das atividades já criou entre os produtores capacidade produtiva ociosa elevada;
O quadro econômico em parte já formado e parte em formação, em razão de tudo isso, cria ao mesmo tempo condições para a reativação até que acelerada das atividades e para aumentos expressivos de preços, num prazo não muito distante.
Reativação e altas de preços provavelmente a partir de início de 2.016 ou mesmo de antes.
Como observado, a oferta será reduzida, por efeito da redução do nível de estoques gerais, pela dificuldade em reativar as importações aos novos preços em reais, em reativar setores produtivos locais, notadamente aqueles antes danificados pelas taxas de câmbio e de juros, e pela própria crise, ou pela dificuldade em elevar a produção dos que não puderam investir.
Será também limitada pelo aumento das exportações, viabilizadas pelo câmbio. A exceção estará nos setores imobiliário, automobilístico, e talvez de eletrodomésticos e móveis, muito estocados, se bem que, salvo o imobiliário, os demais, pela nova taxa de câmbio, logo estarão exportando seus excedentes ou produzindo modelos exportáveis.
Dados os reduzidos investimentos e os danos sofridos por muitos setores industriais por vários anos, o aumento da produção local estará, pelo menos por algum tempo, limitado pela capacidade ociosa recuperável neles existente.
Portanto, um choque (falta) de oferta encontra-se em formação.
Por outro lado, a demanda, a partir de certo momento, tenderá a expandir-se rapidamente, seja pela inevitável reposição de estoques das empresas, inclusive a tendo em vista o Natal, pelo exercício da demanda adiada dos consumidores e pelo aumento das exportações.
Portanto, também um choque (aumento) de demanda está em formação.
O comportamento corrente dos agentes os tornará pouco endividados, líquidos. Os bancos estarão propensos a elevar a oferta de crédito, embora mais seletivos na aprovação; o governo continuará com déficit nominal elevado (que implica em demanda adicional); noticiários comentando a recuperação de demanda em alguns setores reduzirão a expectativa negativa dominante.
Portanto, estas condições juntas viabilizam uma recuperação da economia brasileira até que logo e rápida, com taxa de aumento do PIB bem razoável, mas condicionada pela reduzida contribuição dos setores mais atingidos pela crise citados, e entre eles o de bens de capital.
Recuperação rápida, porém de fôlego curto, até que a capacidade ociosa disponível seja ocupada. Trata-se de uma recuperação não esperada por muitos analistas. A partir da ocupação da capacidade ociosa, para continuar crescendo, o país terá de contar com o aumento dos investimentos privados (o setor público não tem recursos sequer para as despesas correntes...). Investimentos levam tempo para se realizarem.
Por isso, após a ocupação da capacidade disponível, o crescimento perderá ritmo por algum tempo. Depois, os investimentos e as exportações concorrerão para acelerá-lo, até porque somam ao produto; mas desde que nova política não os iniba novamente.
Considerando ainda todo o dito, choques simultâneos de oferta e de demanda, liquidez elevada dos agentes privados, e mais os prováveis novos reajustes dos preços antes reprimidos e os aumentos de impostos, déficit público, é de se presumir que a inflação anual permaneça em dois dígitos ou próxima disso por alguns meses.
Resta saber o que fará o governo diante da inflação mostrando força.
Na gestão anterior, considerando horizonte a eleição de 2014, o governo priorizou o controle da inflação ao crescimento. O resultado foi o baixo crescimento em toda a gestão e a grave recessão de 2015, mais o enorme estrago nas contas oficiais. Na próxima tendência, dado o enorme insucesso da política anterior, é muito provável que priorize reverter o mais grave: o baixo crescimento, ou melhor, a recessão e o crescente desemprego.
Por conveniência política, estará provavelmente proclamando a necessidade de conter a inflação, mas a prioridade efetiva será dada à recuperação das atividades, até porque esta, combinada com inflação alta, será o principal instrumento seu para viabilizar o equilíbrio fiscal: o aumento expressivo das arrecadações. O Real desvalorizado concorrerá para acelerar a recuperação, porém ajuda aumentar preços.
Nem sempre o governo brasileiro de plantão toma as melhores decisões. O atual poderá, visando conter as altas de preços, manter elevadas as taxas de juros, ou elevá-las ainda mais.
O efeito provável não será necessariamente o desejado. No cenário acima desenhado, de demanda elevada, de oferta restrita e de liquidez elevada, as taxas de juros serão repassadas aos preços pelas empresas: resultado, mais inflação ainda e/ou atrasarão a recuperação, neste caso dificultando o reequilíbrio fiscal.
Sem equilíbrio fiscal, a inflação e a elevada variação das atividades produtivas persistirão, dificultando que se criem condições para razoável crescimento do país até o horizonte de 2018.
Resumindo, para o horizonte de 2018, vemos recuperação acelerada por algum tempo, provavelmente em 2016, com taxa de crescimento até que admirável e surpreendente para muitos, talvez com sinais já em 2015, seguida de um período de baixo, mas crescente crescimento, provavelmente em 2017; vemos inflação elevada, com taxas anuais alcançando dois dígitos ou perto disso por vários meses.
Evidentemente, o governo, visando ao pleito de 2018, voltará a priorizar o controle da inflação a partir do final de 2017. Assim agindo, porá em risco o crescimento de 2019.

