Cenário preocupante
O governo mostrou sua preocupação com a inadimplência lançando o Desenrola em várias modalidades, mas que não ataca as causas do endividamento. Pelo contrário, a política de gastos governamentais tem sido a de gastar o que tem e o que não tem em benesses eleitoreiras

Conforme divulgado no último final de semana, 1,5 milhão de empresas estão inadimplentes, acumulando uma dívida total de 191 bilhões de reais. São 54 milhões de dívidas com um valor médio de R$ 22.503.
Embora a grande maioria de empresas inadimplentes seja de micro e pequeno porte, o que torna o cenário mais preocupante é a constatação de que entre as 282 companhias de capital aberto, todas de grande porte e com acesso a outros mecanismos de captação de recursos, 24% acham- se inadimplentes - o que revela que não é apenas o problema dos juros elevados que afeta negativamente os empreendimentos de qualquer tamanho.
São muitos os grandes grupos econômicos em processo de recuperação judicial, o que, inevitavelmente, atinge toda sua cadeia de relações.
É evidente que a persistência de taxas de juros altos por muito tempo provoca a deterioração das margens das empresas e sua capacidade de investimento, que se agrava com o baixo crescimento da economia.
O pior é que as perspectivas são de que o prolongamento das taxas de juros elevadas deve perdurar pois, no curto prazo, as incertezas da situação externa não permitem o afrouxamento dessa política. Para piorar, no longo prazo o cenário de juros mais favorável também não é provável, porque a política fiscal expansionista não permite qualquer otimismo.
O governo mostrou sua preocupação com a inadimplência lançando o Desenrola em suas várias modalidades, mas que não ataca as causas do endividamento. Pelo contrário, a política de gastos governamentais desde o ano passado e, mais notadamente neste ano, tem sido a de gastar o que tem e o que não tem em benesses eleitoreiras. Paradoxalmente, se de um lado apresenta “bondades” para os eleitores, de outro, faz “maldades! contra as empresas, com aumento dos custos tanto fiscais como burocráticos.
Basta ver na área trabalhista a entrada em vigor da NR-1, que gera custos burocráticos importantes - sem contar a invasão da privacidade das empresas. A exigência de manifestação sindical para o trabalho aos domingos e feriados aumenta as dificuldades. Não bastassem essas medidas, o governo lança o 6x1 da jornada de trabalho com impacto nos custos, na inflação e no emprego. Promove ainda aumento de imposto com maior burocracia e desrespeito às regras tributárias ao extinguir o Lucro Presumido e criar um IR adicional.
Como o governo não investe o suficiente em infraestrutura, e as empresas estão descapitalizadas para poderem investir, o país não cresce e não gera oportunidades para as empresas e cidadãos, criando um ”círculo vicioso” em que o país não cresce por falta de investimento, e não gera recursos para investir porque não cresce, cenário que se agrava com a persistência das taxas de juros elevadas.
Como romper esse “círculo vicioso”? Essa resposta exige uma longa e complexa análise, mas pode ser resumida em dois pontos: decisão política e um Projeto de Nação.
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